Não é a receita de R$ 2 bilhões que explica por que o Flamengo saiu eliminado da Copa do Brasil na quinta-feira (14). A pergunta que a derrota por 2 a 0 para o Vitória impõe é outra, mais estrutural: quando um clube constrói sua identidade institucional sobre a narrativa da supremacia, como ele processa a falha tática e competitiva sem que o discurso entre em colapso junto com o resultado?
O discurso de hegemonia que a noite em Salvador desmentiu
Na tarde do mesmo dia, o presidente Rodolfo Landim — o Bap — participava da São Paulo Innovation Week com uma apresentação cujo título era, literalmente, "O plano do Flamengo para se tornar hegemonia no esporte". A formulação não era condicional. Bap não apresentou um projeto para alcançar a hegemonia; ele descreveu o clube como hegemonia já constituída — substantivo, não aspiração. Horas depois, em Salvador, o Flamengo encerrava sua participação na Copa do Brasil diante de um adversário que concluiu a partida com cinco finalizações contra 26 do adversário.
A distância entre esses dois eventos — o palanque corporativo e o gramado do Barradão — não é apenas simbólica. Ela revela uma tensão real na gestão de clubes que operam simultaneamente como empresas de entretenimento e como equipes esportivas. O Flamengo faturou R$ 2 bilhões na temporada passada, ocupa posições de destaque em rankings de valor de marca e tem estrutura de comunicação comparável a franquias europeias. Nenhum desses indicadores converteu-se em título de Copa do Brasil desde 2022.
O que aconteceu no Barradão e o que Leonardo Jardim não viu
Tecnicamente, o Flamengo dominou a partida em métricas de posse e volume ofensivo: 74% de controle de bola e 26 finalizações. O Vitória, comandado por Jair Ventura, respondeu com dois gols — de Erick e Luan Cândido — em apenas dois ataques efetivos. A eficiência do adversário tornou irrelevante a superioridade posicional do Rubro-Negro.
O técnico Leonardo Jardim explicou, na coletiva pós-jogo, a ausência de Nico De La Cruz na partida:

"Vocês viram que foi um jogo muito direto, de muito contato. Esse tipo de jogo não é para o De La Cruz. No jogo em casa ele participou, a opção hoje era para preencher mais a área", disse Jardim, acrescentando que "o Cebolinha, o Luiz Araújo, o De La Cruz é mais difícil de disputarem nesse tipo de estrutura na área".
A justificativa é coerente como leitura tática pontual. O problema é que ela também expõe uma fragilidade do modelo: o Flamengo construiu um elenco orientado para domínio técnico em espaços abertos, mas encontrou dificuldade recorrente para converter esse domínio em gols quando o adversário adota bloco baixo e pressão física. Nas duas partidas da quinta fase da Copa do Brasil, foram 47 finalizações e dois gols marcados — nenhum deles suficiente para avançar.
Jair Ventura, por sua vez, atribuiu o resultado à coesão de grupo:
"A nossa reza foi de arrepiar, a energia de todos nós, e quando essa sinergia está junto, dentro e fora, com a nossa torcida, presidente e estafe, que são maravilhosos, a gente faz o que aconteceu hoje", declarou o treinador na coletiva.
O que a eliminação altera no calendário e na narrativa do clube
Do ponto de vista esportivo, a saída da Copa do Brasil tem consequência imediata: o Flamengo perde uma das três frentes competitivas do semestre e concentra esforços no Brasileirão e na Copa Libertadores. A próxima partida está marcada para domingo (17), contra o Athletico-PR, às 19h30, na Arena da Baixada, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro — jogo em que De La Cruz deve retornar ao time titular.
Do ponto de vista institucional, a eliminação coloca em evidência uma questão que a sociologia do esporte há muito examina: clubes que adotam narrativas de dominância estrutural tendem a criar expectativas que o resultado esportivo não consegue sustentar continuamente. O Real Madrid, modelo declarado de Bap, foi eliminado nas oitavas de final da Champions League em 2025. A diferença é que nenhum dirigente madridista havia discursado sobre hegemonia horas antes da derrota. A gestão da narrativa é, ela própria, uma competência que o Flamengo ainda precisa calibrar. No Brasileirão, onde o clube ocupa posição no pelotão de cima após 15 rodadas, a temporada de 2026 ainda tem resposta a dar — e o confronto contra o Athletico-PR, no domingo, já começa a escrevê-la.








