Diz-se que o futebol brasileiro já tem um modelo de comercialização de direitos consolidado, com a Globo no centro de contratos de longa data firmados clube a clube. Na verdade, esse modelo está prestes a ser desmontado — e o arquiteto declarado da demolição é Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo e um dos rostos mais visíveis da Liga do Futebol Brasileiro, a Libra.

No São Paulo Innovation Week, evento realizado nesta semana na capital paulista, Bap foi direto: a Libra vai renegociar todos os contratos de direitos de transmissão firmados com a Globo. Não alguns. Não os mais recentes. Todos.

"Vamos renegociar todos os contratos com a Globo", afirmou Bap durante sua participação no evento.

Por que a CBF entra como peça central no projeto da Libra

Bap classificou a participação da Confederação Brasileira de Futebol como "fundamental" para a criação de uma liga unificada no Brasil. A declaração tem peso institucional: sem a CBF, qualquer liga independente enfrenta um vácuo regulatório que pode comprometer desde o calendário até o licenciamento de competições junto à FIFA e à CONMEBOL.

A CBF controla atualmente a organização do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil e das seleções nacionais. Qualquer estrutura de liga que opere à margem da confederação corre o risco de conflitos de calendário e de perder acesso às janelas internacionais de transferência — o que tornaria inviável a gestão dos elencos dos clubes de elite.

O modelo europeu mais próximo do que a Libra parece perseguir é o da Premier League inglesa, criada em 1992 com aval da Football Association. Lá, a liga opera de forma autônoma financeiramente, mas dentro do arcabouço regulatório da federação nacional. Esse arranjo permitiu que os contratos de TV da Premier League saltassem de £304 milhões por temporada em 1992 para mais de £3 bilhões por ciclo nas negociações mais recentes — crescimento superior a 900% em termos reais.

O que muda nos contratos com a Globo e quanto está em jogo

Os contratos individuais dos clubes brasileiros com a Globo têm valores e vencimentos distintos. O Flamengo, maior audiência do país, negocia cifras superiores às de clubes menores da Série A — estimativas de mercado apontam para valores entre R$ 200 milhões e R$ 280 milhões anuais para os maiores contratos, enquanto clubes do meio da tabela recebem entre R$ 40 milhões e R$ 80 milhões por ano.

Uma renegociação coletiva, centralizada pela Libra, mudaria essa lógica. O modelo pool — em que os direitos são vendidos em bloco e a receita distribuída entre os clubes — tende a reduzir a disparidade entre grandes e pequenos, mas também concentra poder de barganha na entidade que representa o grupo. É exatamente esse poder que a Libra busca construir.

Para efeito de comparação: os 20 clubes da Premier League dividiram £2,4 bilhões em receitas de TV doméstica na temporada 2024/2025, com o clube da última posição recebendo cerca de £100 milhões — valor que supera o contrato individual dos maiores clubes brasileiros. A diferença é que lá a negociação é coletiva desde o início. No Brasil, esse movimento começa agora.

O SportNavo apurou que a Globo já sinalizou internamente disposição para discutir novos formatos contratuais, mas condicionou qualquer avanço à definição do modelo de governança da liga — o que explica, em parte, por que Bap insiste na presença da CBF como âncora institucional do projeto.

O número que define o tamanho da aposta da Libra

A Libra reúne atualmente 20 clubes das Séries A e B. Se os direitos forem renegociados em bloco, o volume total dos contratos com emissoras pode ultrapassar R$ 2 bilhões anuais — mais do que o dobro da soma dos contratos individuais vigentes dos clubes menores, segundo projeções do setor. Esse salto potencial é o argumento financeiro central que Bap usa para justificar a reformulação.

A questão de governança, porém, ainda não está resolvida. Sem a CBF formalmente dentro do projeto, a Libra não tem autoridade para alterar o calendário nacional — e calendário é moeda de troca em qualquer negociação de direitos de TV. Um jogo que não pode ser garantido em determinada janela vale menos para qualquer emissora.

Por que a CBF entra como peça central no projeto da Libra Bap quer CBF dentro da
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"A participação da CBF é fundamental", declarou Bap, sintetizando em uma frase o nó que precisa ser desatado antes de qualquer avanço concreto nas negociações com a Globo.

A próxima reunião formal entre representantes da Libra e dirigentes da CBF ainda não tem data confirmada, mas o prazo político é curto: contratos de transmissão com vencimento em 2026 já estão na mesa e precisam de resposta antes do início do segundo semestre. É o mesmo cenário que a Premier League viveu em 1991, quando clubes e federação tiveram menos de oito meses para fechar um acordo que mudou o futebol europeu para sempre — só que agora a aposta envolve o maior mercado de futebol da América do Sul.