Uma faca afiada num cabo de veludo. É assim que Bap se apresenta quando o assunto é gestão esportiva — cortante nas decisões, elegante no discurso. Na tarde desta quinta-feira (14 de maio), no evento São Paulo Innovation Week, realizado no Pacaembu, o presidente do Flamengo foi ao microfone e, sem rodeios, narrou os bastidores da troca mais polêmica do futebol brasileiro neste início de 2026: a saída de Filipe Luís e a chegada de Leonardo Jardim ao comando rubro-negro.
A gota que transbordou no Maracanã
O estopim, segundo o próprio dirigente, foi a iminência de perder o Campeonato Carioca para o Fluminense. Não era apenas uma questão tática — era uma ferida identitária.
"Tinha certeza absoluta que ia perder o Campeonato Carioca para o Fluminense. Tem poucas coisas que detesto mais do que perder para o Fluminense. Talvez uma ou duas só. Foi pelo conjunto de aspectos que entendi que devia mudar", disse Bap ao painel 'A Arena do Futuro'.A demissão de Filipe Luís, anunciada em março de 2026 horas após uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira, chocou pelo timing — mas Bap deixou claro que a decisão já maturava antes daquele placar elástico. O treinador havia chegado ao clube em 2024 com capital político e emocional imenso, ídolo que retornava à Gávea pela porta da frente. O afeto, porém, não suspende a aritmética dos resultados.
O que Jardim mudou sem mudar nada no Flamengo
A tese central de Bap é quase paradoxal: tudo permaneceu igual, e por isso tudo melhorou. O diretor de futebol, a comissão técnica de apoio, o elenco, o departamento médico, o próprio Maracanã — nada foi alterado. Apenas o técnico.
"Hoje, quando olho o que mudou de fato, foi só o técnico. O diretor é o mesmo, o elenco é o mesmo, a comissão, o departamento, o Maracanã é o mesmo… Olho para o Leonardo e vejo ele tirando mais do que tirava anteriormente. Então cumpri com meu papel de fazer performar melhor", afirmou o presidente.Na avaliação do SportNavo, essa lógica tem respaldo nos números: sob Jardim, o Flamengo ocupa a vice-liderança do Brasileirão 2026, a quatro pontos do Palmeiras — uma distância que, no mapa do torneio ainda com mais de 30 rodadas pela frente, equivale à diferença entre Recife e Caruaru, próxima o suficiente para ser percorrida num fim de semana de bom futebol. O clube também lidera seu grupo na Libertadores e avança na Copa do Brasil.
A tríplice coroa e a pressão que Bap abraça
Bap foi explícito ao recusar a hierarquia entre competições. Questionado sobre prioridades, respondeu com uma só palavra: tudo.
"Para mim, é Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil. Qual a prioridade? Quero tudo. Pelo elenco e planejamento. A rotação nunca foi tão bem feita quanto agora", declarou.O presidente também fez questão de blindar a decisão de qualquer leitura sentimental. Invocou um princípio que ele mesmo chama de característica pessoal:
"É uma característica minha, mandaria um filho meu embora tranquilamente. A gente vive num país latino, da 'coitadização'. Não está funcionando, mas vamos dar mais uma chance. Mas não dá para fazer a mesma coisa e esperar um resultado diferente". A frase soa dura, mas traduz uma filosofia de gestão que o Flamengo adotou como dogma desde a reestruturação administrativa dos últimos anos: performance acima de vínculos. O próprio Bap lembrou que o Brasileirão não se perde no final — se perde nas primeiras rodadas, quando clubes maiores preferem esperar. "O Flamengo não vai esperar 12, 13 rodadas para estar em 16º lugar e contratar o Dorival", disse, em referência direta a erros estratégicos do passado.
O teste imediato chega ainda nesta quinta-feira: o Flamengo enfrenta o Vitória no Barradão, pela ida das oitavas de final da Copa do Brasil — primeiro dos três troféus que Bap colocou na prateleira. Jardim tem o elenco, tem o planejamento e tem o mandato. O torneio começa agora — a temporada já está no meio do caminho.










