— Mano, como o Bap teve coragem de mandar o Filipe Luís embora depois do ano que ele fez?
— Porque ele sabia que ia perder o Carioca. Ele mesmo disse isso.
— Mas aí você demite o cara que ganhou tudo?
Essa conversa aconteceu em cada esquina rubro-negra do Rio nos últimos meses. E foi exatamente nessa tensão — entre a gratidão ao passado e a frieza do diagnóstico — que o presidente Rodolfo Landim, o Bap, construiu sua justificativa pública nesta quinta-feira (14), no evento São Paulo Innovation Week, realizado no Pacaembu. A declaração que mais pesou: ele tinha certeza absoluta de que o Flamengo perderia a final do Campeonato Carioca para o Fluminense.
"Tinha certeza absoluta que ia perder o Campeonato Carioca para o Fluminense. Tem poucas coisas que detesto mais do que perder para o Fluminense. Talvez uma ou duas só. Foi pelo conjunto de aspectos que entendi que devia mudar", disse Bap no painel 'O plano do Flamengo para se tornar hegemonia no esporte'.
A frase carrega um peso histórico que vai além do estadual. Perder o Carioca para o rival tricolor é, na cultura do clube, uma ferida que nenhum título compensa inteiramente. Bap leu o sinal antes do apito final e agiu.
A interpretação dominante sobre Filipe Luís não conta toda a história
A narrativa que se consolidou no ambiente esportivo era a de que a demissão de Filipe Luís representava ingratidão institucional. Afinal, o treinador de 39 anos havia conduzido o Flamengo a uma temporada de 2025 que ficará registrada nos anais do clube: título do Brasileirão, da Copa do Brasil e da Recopa Sul-Americana, além de campanha sólida na Libertadores. Números difíceis de contestar.
Mas Bap apresentou uma contra-leitura que desafia essa versão sentimental. Ao olhar para o que efetivamente mudou após a troca, o presidente listou o que ficou igual: o diretor de futebol, o elenco, a comissão de apoio, o departamento médico, o Maracanã. Tudo permaneceu. Só o técnico saiu. E o rendimento subiu.
"Olho para o Leonardo (Jardim) e vejo ele tirando mais do que tirava anteriormente. Então cumpri com meu papel de fazer performar melhor. A relação pessoal nunca foi ruim", afirmou o presidente, deixando claro que a decisão foi técnica, não afetiva.
Bap foi além e usou uma metáfora que dispensa tradução: disse que mandaria o próprio filho embora se o desempenho não correspondesse. No futebol brasileiro, onde a cultura da lealdade pessoal frequentemente sobrepõe a lógica de resultados, a declaração soa quase revolucionária. Historicamente, clubes como o próprio Flamengo já esperaram 12 ou 13 rodadas para demitir treinadores — o caso de Dorival Júnior em 2022 é o exemplo mais citado. Bap disse que não repetiria esse erro: "O Brasileiro já estava perdido. O Flamengo não vai esperar 12, 13 rodadas para estar em 16º lugar e contratar o Dorival."
Leonardo Jardim e a rotação que ninguém esperava que funcionasse assim
O português Leonardo Jardim chegou ao Flamengo carregando o peso da comparação com um predecessor que havia conquistado a simpatia da torcida de forma quase imediata. A desconfiança era proporcional ao afeto que Filipe Luís havia construído. Mas o técnico, que tem no currículo quatro títulos da Ligue 1 pelo Monaco entre 2016 e 2019, tratou de impor sua marca pelo trabalho.
O que o SportNavo identificou ao longo desta temporada é que a grande diferença operacional de Jardim em relação ao antecessor está na gestão do plantel em semanas de três jogos. A rotação que Bap elogiou com entusiasmo — "a rotação nunca foi tão bem feita quanto agora" — funciona como um temporal que não perde força ao longo dos dias: cada frente de pressão chega ao adversário com a mesma intensidade, porque o desgaste foi distribuído com precisão entre os titulares e os reservas. Jogadores como Gerson e Arrascaeta, que em temporadas anteriores acumulavam minutagem excessiva em sequências longas, chegam aos jogos decisivos em condição física superior.
O resultado prático aparece na tabela. O Flamengo lidera seu grupo na Copa Libertadores de 2026, ocupa a vice-liderança no Brasileirão com quatro pontos a menos que o Palmeiras e, nesta quinta-feira (14), decide uma vaga nas oitavas de final da Copa do Brasil contra o Vitória, no Barradão. O Flamengo tem a vantagem do empate após vencer por 2 a 1 no Maracanã no jogo de ida.
A tríplice coroa é possível — mas o precedente histórico pesa
Bap declarou sem hesitar que quer Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil na mesma temporada. A ambição tem respaldo no elenco, mas esbarra em um dado histórico que nenhum clube brasileiro conseguiu superar: nenhuma equipe jamais conquistou os três títulos no mesmo ano. O Atlético Mineiro de 2021 chegou mais perto — campeão da Série A e da Copa do Brasil, com Diego Costa como artilheiro da equipe e Hulk renovado —, mas caiu na semifinal da Libertadores para o Palmeiras, que viria a ser campeão continental naquela edição.
O calendário é o principal adversário de qualquer projeto de tríplice coroa. Em anos com Copa do Mundo, como 2026, a janela de transferências e a convocação de jogadores para seleções nacionais comprimem ainda mais o espaço de manobra. O Flamengo terá, em algum momento do segundo semestre, ao menos cinco ou seis jogadores potencialmente convocados para o Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá. Jardim precisará administrar ausências que nenhuma rotação, por mais bem feita que seja, consegue compensar completamente.
A síntese que emerge desse quadro é a seguinte: Bap tomou uma decisão fria e calculada, sustentada por uma leitura antecipada do declínio de rendimento, e o resultado imediato validou a escolha. Filipe Luís entregou um ano extraordinário em 2025, mas o futebol de alto nível não permite que se viva de crédito acumulado. Jardim chegou e, com o mesmo elenco e a mesma estrutura, extraiu mais. Isso não apaga o legado do antecessor — apaga apenas o argumento de que a demissão foi precipitada.
O Flamengo joga nesta quinta-feira (14) no Barradão, em Salvador, a partir das 21h30, contra o Vitória pela quinta fase da Copa do Brasil. Se confirmar a classificação, o clube terá oitavas de final a disputar enquanto mantém a perseguição ao Palmeiras no Brasileirão — com o próximo clássico entre as duas equipes projetado para o início de junho no Allianz Parque. Se Jardim conseguir chegar a julho com os três torneios ainda em aberto, o que você acha: o calendário da Copa do Mundo vai forçar o Flamengo a abrir mão de alguma competição, ou o elenco é fundo o suficiente para sustentar a corrida até o fim?










