Confesso: eu errei sobre Alexander Barboza em 2024. Quando o uruguaio chegou ao Botafogo sem muito alarde, escrevi aqui mesmo que seria mais um estrangeiro de passagem, sem raízes nem comprometimento. O que vi neste domingo, 18 de maio, no Nilton Santos, foi o oposto: um homem de 28 anos chorando abraçado à família no gramado, ovacionado por uma arquibancada que reconheceu o que eu demorei a enxergar.

O que Barboza construiu no Botafogo e como deixou o clube

A vitória do Botafogo sobre o Corinthians por 3 a 1, pela 16ª rodada do Brasileirão 2026, foi o cenário da despedida. O defensor completou 12 partidas pelo clube na competição nacional e não voltará mais ao Rio de Janeiro com a camisa alvinegra — o time não joga em casa até a parada para a Copa do Mundo. Barboza ainda estará à disposição para os dois compromissos restantes da fase de grupos da Copa Sul-Americana, contra o Independiente Petrolero (dia 20) e o Caracas (dia 27 de maio), antes de encerrar definitivamente o ciclo.

"Eu sabia que esse seria o meu último jogo no Nilton Santos. A realidade aqui é uma mistura de sentimentos, de felicidade, mas também de tristeza porque eu vivi muita coisa aqui. Eu fui campeão aqui. Eu estou na história do clube, e o clube está na minha história", disse o zagueiro, em lágrimas, ao sair do gramado.

A trajetória não foi linear. O próprio Barboza admitiu que o início foi turbulento — um período em que não jogava, chegou a querer sair, e só a persistência reverteu o quadro. Tornou-se titular, foi campeão em 2024 e agora parte como peça valorizada: o Palmeiras investirá aproximadamente 4 milhões de dólares (cerca de R$ 20 milhões na cotação atual) pagos ao Botafogo em parcelas. O clube paulista aguarda a conclusão dos compromissos sul-americanos do defensor para anunciá-lo oficialmente.

O que os números revelam sobre o vazio na zaga alvinegra

Enquanto Barboza se despedia, Arthur Cabral protagonizava a noite. O centroavante marcou três vezes — dois gols de cabeça e um de pé — e encerrou um jejum que vinha sendo cobrado pela torcida. O técnico Franclim Carvalho, aliás, projetou mais: "O Cabral estava em uma tarde inspirada. Já disse que ele pode e vai fazer mais gols. Eu falei que ele vai fazer muitos gols conosco". O hat-trick do Mamute, porém, não apagou a questão defensiva que o SportNavo vinha acompanhando desde o início da temporada europeia.

Na análise individual do jogo, o sistema defensivo do Botafogo mostrou fragilidades pontuais — Barboza foi anotado como precipitado nas subidas à frente e recebeu cartão amarelo no primeiro tempo, deixando a linha defensiva exposta em momentos específicos. Ferraresi, parceiro de zaga, foi o mais seguro da dupla, iniciando o lance do 1 a 0 e sofrendo um pênalti estranhamente anulado pelo VAR. A equipe levou gol do Corinthians quando Huguinho foi desarmado por Raniele em zona perigosa — e aí vem o problema.

Com Barboza fora, Franclim perde a referência de equilíbrio entre audácia e consistência na saída de bola. O zagueiro uruguaio somava leitura tática construída ao longo de dois anos no clube, algo que nenhuma contratação de janela replica imediatamente. Danilo, volante que seria relacionado, foi desconvocado horas antes do jogo por "motivos pessoais" — o treinador explicou que o camisa 8 "disse que não estava com cabeça para participar da partida".

O que o Palmeiras ganha e o que Barboza ainda precisa provar no Verdão

No Palmeiras, o cenário é diferente. O clube de Abel Ferreira busca reposição de qualidade na zaga após desgastes ao longo da temporada, e Barboza chega com o currículo de quem disputou e venceu o Brasileirão numa das campanhas mais sólidas da história recente do futebol carioca. A apresentação está prevista para após a Copa do Mundo 2026, o que dá tempo ao jogador de se preparar física e mentalmente para um ambiente de alta exigência.

"Eu ganhei o que ganhei com trabalho, com sacrifício. Sempre tem pessoas que não vão reconhecer, mas eu fico com o bom. Ninguém vai apagar a história que eu construí aqui", completou Barboza, já com a família ao lado no gramado do Nilton Santos.

No Verdão, a concorrência por uma vaga no time titular será imediata. Murilo e Gustavo Gómez formam a dupla de referência, mas lesões e desgaste são variáveis permanentes em clubes que disputam quatro competições simultaneamente. Barboza, que foi abraçado por Alex Telles e pelo próprio Franclim logo após o apito final, chega com moral — e com a missão de repetir, em São Paulo, a reviravolta que fez no Rio.

O Botafogo volta a campo na quarta-feira, dia 20 de maio, contra o Independiente Petrolero pela quinta rodada da fase de grupos da Copa Sul-Americana, e Barboza ainda deve ser aproveitado nesse confronto. Depois disso, o clube seguirá o Brasileirão sem o zagueiro que foi campeão em 2024 — e terá que encontrar respostas antes da 17ª rodada, quando a temporada retoma sem pausa para erros defensivos. São apenas 20 dias até a Copa do Mundo parar tudo.