A última vez que o Barcelona vendeu um atacante titular para equilibrar as contas foi no verão de 2023, quando Ousmane Dembélé saiu para o PSG sem custo de transferência — e o clube ainda assim precisou de anos para absorver o rombo. Agora, em 2026, o cenário se repete com um nome ainda mais central ao sistema de Hansi Flick: Raphinha, 29 anos, camisa 11 e peça-chave na construção ofensiva do Barça nesta temporada.

A meta de 100 milhões de euros e o que ela exige do elenco

O planejamento financeiro do Barcelona para a janela de verão europeu é objetivo: arrecadar cerca de 100 milhões de euros — aproximadamente R$ 580 milhões — para financiar uma reformulação estrutural do elenco. A diretoria blaugrana identificou três nomes negociáveis: Raphinha, Ferran Torres e Jules Koundé.

Ferran Torres tem contrato até 2027 e o clube está disposto a ouvir propostas. Koundé, por sua vez, vem apresentando rendimento abaixo do esperado nesta temporada de 2025/2026, o que reduz seu valor tático e, paradoxalmente, também seu valor de mercado — uma combinação desfavorável para uma venda a preço justo.

O caso de Raphinha é estruturalmente diferente dos outros dois. O técnico Hansi Flick o considera indispensável. Nas palavras do próprio treinador alemão, o brasileiro é tratado como intransferível no planejamento técnico. Mas a diretoria opera em outra lógica.

"Já fui alvo de uma proposta da Arábia Saudita", admitiu o próprio Raphinha em declarações anteriores, reconhecendo que o interesse externo por ele é real e volumoso.

Raphinha como pivô do sistema de Flick — e o custo tático de perdê-lo

Para entender o que o Barcelona perde com a saída de Raphinha, é necessário analisar sua função dentro do esquema 4-2-3-1 de Flick. O brasileiro não atua apenas como extremo direito clássico. Ele funciona como pivô de transição ofensiva, conectando o meio-campo ao último terço com movimentações internas que liberam espaço para as subidas de Balde pela esquerda.

Nos dados desta temporada, Raphinha lidera o elenco em passes progressivos por 90 minutos entre os atacantes, além de registrar alta taxa de pressão alta — métrica que mede quantas vezes o jogador recupera a bola no campo adversário. Sua saída desequilibra a linha de pressão do Barcelona, que depende da intensidade do setor ofensivo para manter a compactação defensiva.

Sem ele, Flick precisaria reconfigurar o bloco médio-alto que o Barça utiliza para recuperar a posse em zonas adiantadas. A substituição direta não existe no elenco atual.

Destinos possíveis e o valor de mercado do brasileiro

Raphinha completa 30 anos em dezembro de 2026. Essa janela representa o pico de seu valor de mercado — qualquer venda posterior implicaria depreciação natural. O Barcelona sabe disso e, embora a negociação não seja prioridade, não descarta uma oferta que viabilize a reformulação sem comprometer o caixa.

A Arábia Saudita permanece como destino concreto. O interesse já foi público e o próprio jogador confirmou ter recebido proposta anteriormente. Clubes da Premier League também monitoram a situação — o perfil de Raphinha, com alta intensidade e capacidade de atuar em múltiplas posições no setor ofensivo, é compatível com os sistemas de pressão dominantes na liga inglesa.

"A venda do camisa 11 não é prioridade, mas não pode ser descartada", informaram fontes do clube à ESPN, sinalizando que a posição da diretoria é pragmática, não emocional.

Uma transferência de Raphinha, isoladamente, poderia gerar entre 60 e 80 milhões de euros — o que cobriria entre 60% e 80% da meta financeira estabelecida pelo clube, sem necessidade de vender Koundé ou Ferran Torres.

Os alvos de Flick e a reformulação para 2026/27

Os pedidos do treinador alemão para a próxima temporada são específicos: um centroavante de alto nível, um zagueiro e, eventualmente, um segundo atacante caso Robert Lewandowski e Ferran Torres deixem o Camp Nou. Lewandowski tem 37 anos e seu ciclo no clube se aproxima do fim.

O nome que domina as conversas internas é Julián Álvarez, do Atlético de Madrid. O argentino chegou ao clube madrileno em 2024 por cerca de 95 milhões de euros — valor que torna a operação complexa, mas não impossível, especialmente se a venda de Raphinha for concretizada. Álvarez opera como centroavante móvel, com alta taxa de pressão e capacidade de atuar como referência ou como segundo homem — perfil que Flick claramente valoriza.

João Pedro, do Chelsea, aparece como alternativa mais acessível financeiramente. O brasileiro de 23 anos tem mostrado consistência na Premier League e representaria uma aposta de médio prazo, diferente do perfil imediato de Álvarez.

A equação do Barcelona para o verão é simples na teoria: vender quem valoriza agora, comprar quem resolve o problema estrutural. Raphinha está no centro dessa equação. Com o título da LaLiga 2025/2026 praticamente encaminhado, a diretoria catalã já opera mentalmente na próxima temporada — e a pergunta que define tudo é: Flick consegue convencer Laporta a manter Raphinha mesmo que uma oferta de 70 milhões de euros chegue à mesa nas próximas semanas?