O interfone tocou às 15h de um sábado de janeiro. Do outro lado, um jovem bem vestido, voz calma, nome certo, número do apartamento na ponta da língua. O porteiro do condomínio em Copacabana abriu a cancela. Menos de 20 minutos depois, o rapaz saía com uma mala de mão. Dentro dela, joias avaliadas em R$ 600 mil.

Não foi sorte. Foi pesquisa. A quadrilha, identificada pela Polícia Civil como originária de São Paulo, chegava aos condomínios de luxo da Zona Sul do Rio já com nome completo, sobrenome e endereço das vítimas — informações coletadas previamente na internet. O modus operandi foi documentado por câmeras de segurança da empresa Gabriel e analisado pela 15ª DP (Gávea), que identificou pelo menos 12 integrantes do grupo.

O roteiro que enganou porteiros do Leblon a Niterói

Roupas de marca. Fones de ouvido. Celular na mão. A encenação imitava com precisão a rotina de quem mora no prédio — alguém que acabou de voltar da academia ou de uma caminhada na orla. Em Niterói, investigada pela 77ª DP (Icaraí), uma das suspeitas abordou o porteiro pelo interfone afirmando ser moradora. A entrada foi negada após checagem nos dados do condomínio. Ela voltou ao mesmo bairro, desta vez acompanhada e com o número de um apartamento específico para dar mais credibilidade à história. Negado novamente.

No Leblon, dois rapazes ficaram parados na portaria no dia 12 de janeiro e foram embora sem conseguir entrar. No dia seguinte, outro suspeito entrou sem dificuldade no mesmo bairro, ficou quase três horas no prédio e saiu com uma sacola de joias. A investigação da 15ª DP aponta que o grupo observa a rotina dos edifícios antes de tentar o acesso — um planejamento que distingue esse esquema de crimes oportunistas comuns.

Quatro suspeitos foram presos em Campina Grande do Sul, no Paraná, após articulação entre a 15ª DP e policiais rodoviários federais. Em São Paulo, foram detidos Carlos Nolasco, Brenda Chiapetta e Matheus Alexandre. Ao todo, sete pessoas foram presas ou apreendidas em uma força-tarefa que envolveu cinco delegacias da Zona Sul do Rio, coordenada pelo DGPC (Departamento Geral de Polícia da Capital). O grupo é suspeito de ao menos 45 furtos e dois roubos em apartamentos no Rio de Janeiro.

O roteiro que enganou porteiros do Leblon a Niterói Bem vestidas, bem informadas
O roteiro que enganou porteiros do Leblon a Niterói Bem vestidas, bem informadas

Adolescentes de 500 reais o vestido e passagens por centros socioeducativos

Entre os apreendidos estavam duas adolescentes de 15 e 16 anos, capturadas pela Delegacia de Copacabana (12ª DP) na Praia de Boa Viagem, em Recife, na segunda-feira, dia 29. No momento da apreensão, elas tentavam entrar em um edifício com uma chave de fenda grande — a mesma ferramenta usada para arrombar portas nos apartamentos invadidos no Rio.

A delegada Natacha de Oliveira, responsável pela investigação, explicou a lógica do grupo ao escalar as meninas para as ações.

"O grupo se aproveitava da aparência das meninas, que sempre estavam muito bem vestidas, para enganar os porteiros e ter acesso aos imóveis", afirmou a delegada Natacha de Oliveira.

Uma das adolescentes confirmou à polícia que um dos vestidos usados em uma das invasões custou R$ 500. Nas redes sociais, o grupo ostentava viagens de avião, maços de dinheiro e passeios de lancha e helicóptero — imagens que contrastavam com as fichas das jovens: ambas têm passagens por centros socioeducativos de São Paulo e histórico de reincidência.

"Estivemos inicialmente em São Paulo, onde obtivemos a informação de que elas estariam em Recife. Sabendo do modus operandi, tínhamos certeza de que estariam lá para a prática de novo ato infracional — e isso foi confirmado", disse a delegada Natacha de Oliveira.

As duas menores são suspeitas de participação em quase 10 roubos e furtos em apartamentos na Zona Sul carioca.

O que síndicos e porteiros podem fazer agora para não ser o próximo alvo

Os casos de Niterói e do Leblon revelam um padrão que os condomínios podem identificar — e interromper — antes que o dano aconteça. A investigação da 77ª DP reforça que a conferência rigorosa na portaria foi o que impediu as tentativas frustradas: em ambos os episódios de Niterói, o acesso foi negado porque o porteiro checou os dados e ligou para a unidade informada, sem liberar o acesso apenas com base na palavra de quem estava do lado de fora.

A orientação das delegacias envolvidas é clara: nunca autorizar entrada com base apenas na aparência ou na desenvoltura do visitante, independentemente de quantos detalhes ele apresente sobre o morador. Dados como nome, número do apartamento e até parentesco podem ser obtidos em redes sociais em questão de minutos — exatamente como esse grupo fazia.

  • Ligar para o morador antes de abrir qualquer cancela, mesmo que o visitante apresente detalhes precisos
  • Registrar imagem e documento de todo visitante não cadastrado, sem exceções
  • Treinar porteiros para reconhecer comportamentos de observação prévia — pessoas que circulam pelo entorno sem destino aparente
  • Instalar câmeras com cobertura do entorno imediato da portaria, não apenas da entrada
  • Comunicar imediatamente à delegacia local qualquer tentativa frustrada, com as imagens disponíveis

A força-tarefa do DGPC segue ativa. Síndicos de condomínios nos bairros de Copacabana, Leblon, Ipanema e Icaraí que identificarem tentativas de acesso suspeitas podem acionar diretamente a delegacia de referência de cada bairro — e enviar as imagens das câmeras sem esperar o boletim de ocorrência formal. Foi exatamente esse tipo de colaboração que permitiu à 15ª DP mapear os 12 integrantes identificados até agora.