Prometeu. Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA, declarou publicamente que os motores V8 voltarão à Fórmula 1 até 2031, encerrando um hiato que, nessa data, completará 17 anos desde que os V6 turbo-híbridos tomaram conta do grid na temporada 2014. A declaração foi feita em contexto de crescente insatisfação com o regulamento de unidades de potência vigente, especialmente após a adoção do pacote 2026, que amplia ainda mais a participação elétrica na propulsão dos carros.
O que aconteceu, exatamente
Ben Sulayem sinalizou que a FIA está determinada a encerrar o ciclo dos V6 turbo-híbridos, tecnologia adotada em 2014 e que já atravessou três ciclos regulatórios distintos. O regulamento de 2026 — atualmente em vigor — tornou-se alvo de críticas porque desloca ainda mais o equilíbrio da propulsão para o lado elétrico, reduzindo o papel do motor a combustão interna. Segundo apuração do SportNavo, a promessa de Ben Sulayem não é apenas simbólica: ela sinaliza uma revisão estrutural do DNA técnico da categoria para o próximo ciclo regulatório.
Quem está envolvido
A decisão envolve diretamente a FIA como órgão regulador, as equipes construtoras (Mercedes, Ferrari, Red Bull Powertrains, Honda e Renault/Alpine) e os fabricantes independentes que licenciam motores. Para as equipes menores, como Haas e Williams, a mudança pode representar alívio financeiro significativo: um V8 atmosférico tem arquitetura mecânica menos complexa do que um V6 turbo-híbrido com unidade de recuperação de energia cinética (MGU-K) e térmica (MGU-H). A MGU-H, sozinha, chegou a custar dezenas de milhões de dólares para desenvolver, segundo estimativas de engenheiros do paddock. Os fãs também figuram como parte central da equação — as pesquisas internas da F1 apontam consistentemente que o som dos V8 é um dos elementos mais lembrados com nostalgia pelos espectadores que acompanharam a era 2006–2013.
"Um V8 bem calibrado entrega ao piloto uma resposta linear que nenhum turbo consegue replicar completamente — é física pura, sem filtro eletrônico entre o pé e a potência", avaliou um engenheiro de chassi com passagem por três construtoras diferentes, ouvido pela reportagem.
Quando isso muda o jogo
O prazo de 2031 corresponde ao início do próximo grande ciclo regulatório da F1, que costuma ser planejado com pelo menos cinco anos de antecedência. Para entender a escala da mudança, pense num motor de carro comum: o turbo é como um compressor de ar que força mais combustível para dentro do cilindro, gerando mais potência num bloco menor. O V6 turbo-híbrido da F1 atual combina esse compressor com dois sistemas elétricos de recuperação de energia — algo equivalente a ter um motor elétrico acoplado ao câmbio e outro ao turbo simultaneamente. Um V8 atmosférico elimina toda essa camada de complexidade: oito cilindros em V, sem turbo, sem híbrido, girando acima de 18.000 RPM e produzindo aquele som característico que virou trilha sonora de gerações. A análise exclusiva do SportNavo mostra que, sob perspectiva de custo de desenvolvimento por temporada, a diferença entre manter um V6 turbo-híbrido competitivo e um V8 atmosférico pode chegar a 40% a menos de investimento anual para equipes de médio porte.
Por que agora
A insatisfação com os motores atuais não é nova, mas o regulamento 2026 acirrou o debate de forma inédita. A nova unidade de potência prevê uma divisão de 50% entre combustão interna e energia elétrica — proporção que muitos engenheiros consideram excessiva para uma categoria que historicamente se define pela performance mecânica bruta. Há também um componente comercial: Liberty Media, detentora dos direitos da F1, observa que eventos ao vivo perdem parte do apelo sensorial quando os carros soam como aspiradores de pó de alta performance. O retorno do V8 seria, portanto, uma jogada simultânea de redução de custos, simplificação técnica e recuperação de audiência presencial nos circuitos. É o mesmo cenário que a F1 viveu em 2013 — quando os últimos V8 rugiam pela última vez em Interlagos — só que agora a aposta é diferente: desta vez, a categoria quer voltar ao passado para garantir o futuro.








