Não foi Cristiano Ronaldo quem definiu o destino do título saudita nesta terça-feira, 12 de maio. Foi Bento. O goleiro brasileiro, que sonha com uma vaga na Copa do Mundo de 2026 pela Seleção de Carlo Ancelotti, protagonizou um dos erros mais dolorosos da temporada: aos 98 minutos do clássico entre Al-Nassr e Al-Hilal, no Alawwal Park, em Riade, saiu do gol numa cobrança de lateral, chocou-se com o zagueiro Iñigo Martínez e socou a bola para dentro da própria rede. Placar final: 1 a 1. Festa cancelada. Título adiado.

O vestiário que o Al-Nassr não vai esquecer cedo

O calor seco de Riade nesta noite de maio já era sufocante antes de a bola rolar. Dentro do Alawwal Park, a torcida do Al-Nassr construiu uma atmosfera de coroação — faixas, fogos, o nome de Ronaldo entoado como mantra. O time de Jorge Jesus controlava o jogo com segurança. Mohamed Simakan, o zagueiro francês, havia aberto o placar aos 37 minutos do primeiro tempo, aproveitando sobra após escanteio na grande área. A vitória parecia encaminhada, o título parecia certo.

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Nos bastidores, segundo relatos que circularam na imprensa árabe após o apito final, o clima era de antecipação contida. Jogadores aqueciam a voz para a festa. A comissão técnica orientava a equipe a segurar o resultado sem arriscar. Faltavam segundos. O Al-Hilal, comandado por Simone Inzaghi, jogava seus últimos cartuchos sem qualidade aparente. Então veio o arremesso lateral. Bento saiu. Bento errou.

A imagem de Cristiano Ronaldo após o apito final — cabeça baixa, expressão de incredulidade — circulou por todo o mundo em menos de dez minutos. O português, que ainda não conquistou o Campeonato Saudita em nenhuma das suas temporadas pelo Al-Nassr, viu o sonho do título nacional escorregar de um jeito que nem o roteirista mais sádico inventaria.

O que o erro de Bento significa na corrida pelo Saudita

Os números dizem tudo, mas escondem a crueldade do momento. Com o empate, o Al-Nassr chegou a 83 pontos na liderança do Campeonato Saudita. O Al-Hilal, com 78, tem ainda um jogo a menos — o que mantém matematicamente viva a disputa. Se o Al-Nassr tivesse vencido, abriria oito pontos de vantagem e garantiria o título de forma antecipada. Com o empate, a decisão vai para as últimas rodadas.

O time de Jorge Jesus ainda enfrenta o Gamba Osaka no dia 16 de maio, pela final da Liga dos Campeões Dois da AFC, antes de encerrar a campanha no Campeonato Saudita contra o Dhamk, no dia 21. Uma vitória nessa última rodada garante o título independente do resultado do Al-Hilal. Um tropeço, porém, abre espaço para o rival — que tem dois jogos pela frente — ultrapassar e roubar a taça.

Nas redes sociais, a reação foi imediata e brutal. Torcedores do Al-Nassr inundaram as plataformas com vídeos do lance em câmera lenta. A avaliação do SportNavo, com base nas imagens disponíveis, aponta que Bento saiu em momento inadequado, sem necessidade, e que o choque com Martínez foi resultado de falta de comunicação — um erro técnico e de leitura de jogo combinados. Cristiano Ronaldo, que soma 26 gols na temporada e é o artilheiro do clube, ficou em branco na partida e não pôde fazer nada para evitar o desastre.

A vaga na Copa do Mundo que pode escorregar junto com a bola

O erro de Bento não vive apenas no universo saudita. Ele ressoa diretamente em Brasília, no Rio, em São Paulo — em qualquer lugar onde um torcedor brasileiro acompanha a montagem da Seleção para a Copa do Mundo de 2026. O goleiro está na pré-lista de Carlo Ancelotti, mas o técnico italiano é conhecido por valorizar solidez e confiança nos postos defensivos. O que para o argentino é uma falha pontual superada na semana seguinte, para o português Ancelotti — criado na cultura europeia de perfeição técnica — pode ser uma interrogação que dura meses.

A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, e o Brasil estreia com pressão máxima. A concorrência na posição de goleiro não é pequena. Um erro desta magnitude, televisionado globalmente, no momento em que o técnico da Seleção afina a lista definitiva, coloca Bento numa posição delicada que vai muito além das fronteiras da Arábia Saudita.

Segundo a imprensa europeia, Ancelotti monitora de perto a situação dos jogadores brasileiros que atuam fora da Europa, e falhas em jogos de alta pressão pesam na avaliação final da comissão técnica.

A comparação com o que se vive no futebol europeu é inevitável: o que para um goleiro argentino seria tratado como um tropeço humano num clássico de alto nível, para o contexto da Seleção Brasileira pré-Copa se transforma em combustível de debate nacional, com repercussão que vai das mesas de bar às reuniões da CBF. A pressão sobre Bento, agora, tem dois endereços: Riade e a sede da Seleção.

Nas palavras de analistas ouvidos pela imprensa árabe após o jogo, "Bento é um goleiro de alto nível, mas este tipo de erro em momento decisivo levanta questões que precisam ser respondidas dentro de campo."

O Al-Nassr ainda tem chances reais de conquistar o título — a vantagem de cinco pontos, mesmo com o Al-Hilal tendo um jogo a menos, coloca o time de Cristiano Ronaldo no controle do próprio destino. A vitória sobre o Dhamk, no dia 21, encerra a discussão. Mas a noite de Riade ficará marcada não pela festa que não aconteceu, e sim pela imagem de uma bola socada para dentro do gol errado — como uma nota musical tocada no tom exato, mas na hora completamente errada.