— Cara, o Al-Hilal gastou R$ 335 milhões no Darwin e agora vai mandar ele embora?
— É exatamente isso. Benzema chegou e o uruguaio virou problema de regulamento.
— E o Cristiano? Deve estar na lua...
A conversa de bar resume com precisão o imbróglio que tomou conta do mercado saudita nas últimas semanas. A chegada de Karim Benzema ao Al-Hilal ultrapassou o limite de 10 jogadores estrangeiros permitido pela Saudi Pro League — e quem paga a conta é Darwin Núñez, contratado por 53 milhões de euros (R$ 335,2 milhões no câmbio de agosto), que agora está fora da lista de inscritos para a reta final do Campeonato Saudita.
Núñez foi barrado mesmo com sete gols no currículo do Al-Hilal
O Al-Hilal escolheu Benzema e deixou Núñez de fora — com contrato, com bons números e sem culpa.
Até ser removido da lista, o atacante uruguaio havia disputado 22 partidas pelo clube, com 7 gols e 5 assistências. Não são números de um jogador descartável. Mas a matemática da liga falou mais alto: com Benzema inscrito, o Al-Hilal excedeu a cota e precisou escolher quem sai. A escolha recaiu sobre Núñez.
O uruguaio ainda poderá atuar pela equipe na Champions League da Ásia, competição em que o Al-Hilal figura como um dos favoritos e está na fase de grupos. Mas no campeonato doméstico, ele está fora até que a situação contratual se resolva.
Do ponto de vista de desempenho esperado, os números de Núñez na Arábia Saudita eram consistentes com seu perfil histórico. O atacante costuma registrar xG (expected goals) acima de 0,5 por 90 minutos — métrica que mede as chances de gol criadas pela qualidade e posição dos chutes, independentemente de o gol sair ou não. Em termos simples: ele chega nas posições certas com frequência acima da média, mesmo quando as bolas não entram.
Fenerbahçe na fila e o Flamengo que desistiu antes de começar
Dois clubes de continentes diferentes tentaram Núñez — e as razões para cada recusa revelam muito sobre o valor real do jogador.
O destino mais cotado para o atacante de 26 anos é o Fenerbahçe, da Turquia. As negociações ainda estão em fase inicial, mas o clube turco aparece como o nome mais concreto no cenário de saída do Al-Hilal.
O Flamengo chegou a ser especulado, mas a operação nunca saiu do papel. Segundo o jornalista Pablo Rua, Núñez teria exigido R$ 8,1 milhões mensais de salário para jogar no Brasil — valor completamente fora do alcance do clube carioca, mesmo sendo o mais poderoso financeiramente do futebol nacional. O contrato do uruguaio com o Al-Hilal vai até junho de 2028, o que tornaria qualquer transferência ainda mais cara, incluindo taxas de liberação.
Antes de desembarcar na Arábia Saudita, o atacante também esteve na mira do Napoli, mas o Liverpool rejeitou a oferta italiana por considerá-la insuficiente. O Milan também tentou, sem conseguir competir com os valores sauditas. Ao longo de toda a sua carreira — passando por Peñarol, Almería, Benfica e Liverpool —, Núñez já movimentou 184 milhões de euros em transferências.
CR7 irritado e o PIF sob suspeita de favorecimento
A chegada de Benzema ao Al-Hilal não é só um problema de elenco — é uma ferida política dentro da liga saudita.

Cristiano Ronaldo, que defende o Al-Nassr, estaria incomodado com o que enxerga como tratamento preferencial do Fundo de Investimento Público (PIF) a determinados clubes da Saudi Pro League. A contratação de Benzema pelo Al-Hilal — rival direto do Al-Nassr — é apontada como um dos episódios que alimentaram essa insatisfação do português.
O PIF controla diretamente quatro clubes sauditas: Al-Hilal, Al-Nassr, Al-Ittihad e Al-Ahli. A percepção de que investimentos e contratações não são distribuídos de forma equitativa entre os clubes do grupo já havia gerado tensão antes mesmo da chegada de Benzema. A situação de Núñez, agora excluído da lista doméstica para dar lugar ao francês, jogou mais lenha nessa fogueira.
Outro nome que esteve no radar do mercado saudita durante a janela foi o brasileiro Marcos Leonardo, cogitado para o Atlético de Madrid. A negociação não evoluiu antes do fechamento da janela espanhola. A janela de transferências na Arábia Saudita encerrou no dia 6 de fevereiro, o que limitou o espaço para movimentações adicionais envolvendo clubes da liga.
Com o Campeonato Saudita fora do alcance até uma eventual transferência, Núñez concentra suas próximas aparições na Champions League da Ásia. O Al-Hilal está na primeira fase da competição e deve usar o uruguaio enquanto a situação contratual não se resolve. O Fenerbahçe, que tem janela de transferências aberta na Turquia, segue como o destino mais viável para tirar Núñez da Arábia Saudita antes que o impasse se prolongue.








