Gol de cabeça, assistência e lançamento para o primeiro gol. Lucas Beraldo produziu uma das partidas mais completas de sua carreira europeia no sábado (25), na vitória do PSG por 3 a 0 sobre o Angers, pelo Stade Raymond-Kopa, em jogo válido pela 31ª rodada da Ligue 1. O detalhe que muda a análise: ele atuou como volante, não como zagueiro.
O que Luis Enrique viu em campo
Após o apito final, Luis Enrique não economizou nas palavras para descrever o desempenho do brasileiro. A comparação escolhida pelo técnico espanhol carrega peso técnico considerável.
"Beraldo é mais um Busquets do que um Vitinha. Ele vai jogar muito nessa posição. Ele sabe como avançar o jogo. Para mim, foi o melhor em campo. Normalmente, não gosto de usar zagueiros no meio-campo, mas ele é diferente", afirmou Luis Enrique.
A referência a Sergio Busquets não é aleatória. O ex-Barcelona operava como um pivô de construção — posicionamento entre as linhas, leitura antecipatória do espaço e capacidade de progredir a bola em condições de pressão adversária. Vitinha, o outro nome citado, é um meia de movimentação intensa e condução direta. São perfis opostos dentro de um mesmo sistema.
Aos seis minutos, Beraldo iniciou a jogada com um lançamento longo preciso para Achraf Hakimi. Após o rebote da finalização do lateral, Kang-in Lee empurrou para o gol. Aos 38 do primeiro tempo, o brasileiro avançou pela linha, eliminou a marcação e serviu Mayulu para o segundo. No início do segundo tempo, apareceu na segunda trave após escanteio cobrado por Kang-in Lee e cabeceou para fazer 3 a 0. Uma atuação diretamente quantificável: três participações em gols com funções de armação, progressão e finalização.
O perfil tático de Beraldo como volante
A análise do SportNavo sobre o desempenho de Beraldo na temporada indica um padrão técnico coerente com o perfil de pivô de construção. Em 20 jogos pela atual temporada do PSG, o brasileiro soma dois gols — número incomum para um defensor com poucos minutos acumulados.
Como volante de construção, Beraldo apresenta três atributos que Luis Enrique identificou e que são raros em jogadores de origem defensiva:

- Saída de bola sob pressão: confortável em receber entre as linhas com marcação próxima, sem recorrer ao toque seguro para o goleiro;
- Progressão com bola: capacidade de avançar em transição ofensiva sem perder organização posicional;
- Leitura de segunda bola: o gol de cabeça contra o Angers evidencia presença em área adversária em bolas paradas — atributo raramente explorado em volantes tradicionais.
O sistema do PSG sob Luis Enrique opera majoritariamente com posse de bola acima de 60% e alta compactação no terço médio em fase defensiva. Exige do pivô uma capacidade de manter a linha de pressão organizada enquanto conecta os setores. Beraldo respondeu a essa demanda com eficiência mensurável neste sábado.
O encaixe na Seleção Brasileira
A questão central — levantada pelo próprio sonho de Beraldo em ser convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo — exige um mapeamento honesto do elenco brasileiro no setor.
O Brasil tem carência histórica de um volante com perfil organizador e saída limpa de bola. João Gomes (Wolverhampton) é um volante de marcação com bom aproveitamento de passes curtos, mas não opera como pivô de construção. André (Fluminense) apresenta leitura de jogo superior, mas ainda acumula irregularidade no alto nível europeu. Casemiro (Manchester United) segue em declínio físico evidente na Premier League.
Beraldo, como demonstrou contra o Angers, preenche uma lacuna específica: o jogador capaz de receber na posição de seis, girar sob pressão e lançar a bola em profundidade ou em diagonal para o terceiro homem. É a função que Busquets executou por 15 anos no Barcelona e na Seleção Espanhola.
A questão posicional também tem precedente tático. Ancelotti, na temporada atual, tem experimentado formações com três zagueiros no Real Madrid — o que sugere abertura para adaptações funcionais. Um jogador que atua como zagueiro no clube e como volante na Seleção não seria uma anomalia: é uma estratégia de aproveitamento de perfil.

Caminho até a convocação
Beraldo ainda precisa resolver uma variável objetiva: regularidade. Em 20 jogos pelo PSG na temporada, a maioria veio como substituto ou em jogos de menor exigência tática. Atuar como titular em Champions League ou em clássicos da Ligue 1 com o mesmo desempenho seria o dado que faltaria para Ancelotti incluí-lo na lista.
"Ele vai jogar muito nessa posição", garantiu Luis Enrique — e essa afirmação do técnico espanhol tem valor de prognóstico: mais minutos como volante no PSG significa mais dados para a comissão técnica da Seleção avaliar.
Com a vitória sobre o Angers, o PSG chegou a 69 pontos na Ligue 1, abrindo seis de vantagem sobre o Lens, que empatou com o Brest por 3 a 3. O próximo compromisso do clube parisiense é pela Champions League, competição em que Beraldo terá a chance de validar o desempenho desta rodada contra adversários de nível europeu de elite.









