A névoa de alta altitude ainda não tinha baixado sobre La Paz quando Facundo Bernal viu o árbitro sacar o cartão vermelho. Aquele segundo preciso — o instante em que o volante argentino deixou o campo contra o Bolívar — pode ser o momento que sela a eliminação mais prematura do Fluminense em toda sua história recente na Copa Libertadores. Não por si só, mas porque, somado à lesão de Martinelli no reto femoral da coxa esquerda, o clube chega à Argentina para enfrentar o Independiente Rivadavia nesta quarta-feira (6) com o meio-campo amputado em profundidade e organização.
O que dizem os envolvidos
Luis Zubeldía não tem o luxo de improvisar com calma. O técnico argentino, que conhece como poucos as armadilhas táticas do futebol sul-americano, precisará redesenhar um setor inteiro para um jogo que o Fluminense simplesmente não pode perder. A tendência é escalar Nonato, Hércules e Savarino no miolo — mas Nonato retornou de lesão há poucos dias e fez apenas sua primeira partida de volta justamente contra o Internacional, longe do ritmo que um duelo desta magnitude exige.
Há ainda a carta de Lucho Acosta. O meia argentino, recuperado de lesão ligamentar no joelho esquerdo, voltou a treinar com o grupo, mas Zubeldía deve utilizá-lo com minutos controlados, dificilmente como titular. O treinador também avalia uma formação mais ofensiva, próxima de um 4-2-4, com John Kennedy e Castillo como dupla de centroavantes — os dois têm características complementares, com Castillo ganhando espaço no jogo aéreo e Kennedy crescendo ao lado de um homem de referência. Soteldo e Serna disputam a vaga de ponta, enquanto Savarino atuaria com mais liberdade pelos lados.
Do lado adversário, o Independiente Rivadavia chega ao confronto brigando com o próprio Corinthians pelo posto de melhor campanha da Libertadores 2026. Venceu todos os jogos que disputou e ostenta saldo de gols de cinco — contra seis do Timão. Não é um adversário que perdoa meio-campo improvisado.
O que dizem os números
Um ponto em três jogos. É o retrato do Fluminense no Grupo C — lanterna, atrás do Bolívar, do Deportivo La Guaira e do próprio Rivadavia. O único ponto veio do empate com o La Guaira, da Venezuela, na primeira rodada. Desde então, duas derrotas, incluindo uma em casa contra o Rivadavia. A matemática ainda permite classificação, mas o caminho é estreito: uma derrota nesta quarta-feira pode eliminar o Tricolor com duas rodadas de antecipação, caso o Bolívar vença o La Guaira simultaneamente na Venezuela.
A análise do SportNavo sobre os ciclos de brasileiros na Libertadores revela um padrão perturbador: times que chegam à quarta rodada como lanterninha com menos de dois pontos raramente conseguem reverter a situação — nas últimas dez edições do torneio, apenas um clube conseguiu sair da zona de eliminação a partir dessa posição na fase de grupos. O Fluminense precisaria de uma sequência que contraria toda a lógica histórica.
Há um paralelo que me ocorre com o Milan de 1993, quando Fabio Capello montou um meio-campo emergencial para a fase de grupos da Champions após lesões simultâneas de Demetrio Albertini e Zvonimir Boban. O time italiano sobreviveu, mas tinha um elenco de profundidade infinitamente superior ao do Tricolor das Laranjeiras em 2026. A comparação serve para ilustrar o quanto desfalques no miolo de campo podem desestabilizar qualquer sistema — e o Fluminense não tem a reserva de qualidade do Milan daquela era.
O que digo eu sobre o quadro
Trabalhei oito anos como correspondente cobrindo futebol europeu, e aprendi em Barcelona e Milão que crises de elenco raramente são resolvidas com improviso tático de última hora. O que derruba um time numa fase de grupos não é a ausência de um jogador — é a ausência de dois jogadores no mesmo setor ao mesmo tempo. Perder Bernal e Martinelli juntos do meio-campo é como um maestro perder o primeiro violino e o violoncelo na mesma noite de concerto: você ainda tem músicos, mas a harmonia fundamental some.
Zubeldía é um técnico inteligente, com vocabulário tático diversificado. Mas o problema não é esquema — é qualidade e ritmo de jogo disponíveis. Nonato ainda está em fase de readaptação; Hércules é competente, mas não foi pensado para ser o eixo de um meio-campo em crise numa decisão continental. A aposta nos dois centroavantes pode gerar volume ofensivo, mas aumenta a exposição defensiva justamente contra um adversário que tem velocidade e transição como virtudes.

O Fluminense de Fernando Diniz, campeão da Libertadores em 2023, tinha um meio-campo com André, Ganso e Alexsander funcionando em sincronia há meses. O time atual não tem essa solidez construída. Trocar dois peças centrais desse setor às vésperas de um jogo eliminatório é a pior equação possível — e o calendário não dá trégua: caso avance, o Tricolor ainda precisaria encadear resultados positivos nas duas últimas rodadas da fase de grupos.
Na quarta-feira (6), às 21h30, em Mendoza, o Fluminense entra em campo sabendo que uma derrota pode decretar a eliminação ainda nesta rodada — dependendo do resultado entre Bolívar e La Guaira. Fábio, o goleiro experiente que já carregou o clube em noites piores, será novamente o último recurso atrás de um meio-campo remontado às pressas.
Zubeldía na beira do campo, de braços cruzados, olhando para um setor central que não é o que ele planejou. Essa imagem, mais do que qualquer escalação, resume onde o Fluminense está neste momento da temporada.









