Todo mundo sabe que Bernardo Silva vai deixar o Manchester City ao fim de junho de 2026. O que pouca gente esperava era que, antes de fechar a mala, ele entregasse ao Daily Mail uma das críticas mais francas sobre o futebol inglês contemporâneo — e que essa crítica apontasse diretamente para o Arsenal como o clube que redesenhou as regras do jogo nas bolas paradas.
Como o Arsenal virou laboratório de bloqueios na Premier League
Mikel Arteta não inventou a bola parada trabalhada. O que ele fez, a partir da temporada 2022/2023, foi sistematizar bloqueios corporais dentro da área com uma precisão que nenhum outro clube inglês havia alcançado. O Arsenal passou a treinar posicionamentos específicos para cada tipo de escanteio — quem bloqueia quem, em qual ângulo, com quanto de contato físico. O resultado foi devastador: na temporada 2023/2024, os Gunners marcaram 18 gols diretos ou indiretos de bola parada na Premier League, número que colocou a equipe entre as mais letais do mundo nesse quesito. Outros clubes viram os dados, assistiram às repetições e copiaram o método. A Premier League 2025/2026 já convive com pelo menos oito equipes que dedicam sessões semanais exclusivas a esse tipo de jogada.
Bernardo Silva viveu esse processo de dentro. Jogou contra o Arsenal em clássicos que definiram títulos e vice-títulos, sentiu na pele a dificuldade de marcar jogadores que se movem em blocos antes da bola ser cobrada. Quando o Daily Mail o questionou sobre a tendência, a resposta foi direta:
"Não sei quando as bolas paradas mudaram. Talvez dois anos atrás. E eu realmente não gosto disso por causa da quantidade de tempo desperdiçado em arremessos laterais e em escanteios. Por muito tempo, eles recompensaram a defesa má."
A referência ao Everton não foi aleatória. Bernardo Silva descreveu uma situação específica em que bloqueou um adversário com o corpo — algo que, segundo ele, antes seria punido com falta, mas que hoje os árbitros deixam passar como parte do jogo. O problema, na visão do português, é que isso abriu uma janela para o contato físico excessivo que distorce o que deveria ser uma disputa de posicionamento e antecipação.
Quando o futebol inglês já foi pioneiro nisso — e o que mudou desde os anos 90
Pep Guardiola, em declaração recente, lembrou que quando era jovem os ingleses já valorizavam mais as bolas paradas do que os continentais. Essa memória tem fundamento histórico. Na era de Graham Taylor à frente da seleção inglesa, entre 1990 e 1993, e nas equipes de Sam Allardyce nos anos 2000 — Bolton Wanderers, em especial — a bola parada era tratada como arma estratégica, não como recurso emergencial. O Bolton de Allardyce entre 2001 e 2007 usava lançamentos longos e bloqueios para competir de igual para igual com equipes tecnicamente superiores. A diferença é que, naquela época, o recurso era associado a times sem qualidade técnica para jogar no chão. Hoje, o Arsenal — um dos clubes mais sofisticados taticamente da Europa — usa exatamente o mesmo princípio, o que confere ao método uma legitimidade que ele nunca teve antes.
Arne Slot, treinador do Liverpool — equipe que figura entre os cinco clubes que mais marcaram gols de bola parada na Premier League 2025/2026 —, também demonstrou desconforto com a direção que o futebol inglês está tomando:

"Se você adora assistir a um futebol de ataque e ritmo acelerado, ver mais bolas paradas decidindo jogos é um pouco decepcionante."
O paradoxo de Slot é revelador: seu próprio time se beneficia da tendência que ele critica. Isso mostra que a questão não é moral — é estética e, no fundo, regulatória. O que Bernardo Silva e Slot estão pedindo, nas entrelinhas, é que a arbitragem defina com mais clareza onde termina o bloqueio legal e começa a falta. Enquanto essa linha não for traçada, cada equipe vai empurrar os limites até onde os árbitros permitirem.
A crítica de Bernardo Silva é justa — e o que ela revela sobre o futebol que está chegando
A frase mais incisiva do meia português foi a que gerou mais debate:
"Você pega alguém com os dois braços e derruba no chão como se fosse rúgbi, e isso agora está tudo bem. Isso parece estar bem para eles. Conversamos com os árbitros e dissemos: 'Olha, se vocês vão começar a permitir isso, nós vamos fazer o mesmo'. Porque é ridículo."
A comparação com o rúgbi não é hipérbole — é uma descrição funcional. No rúgbi, o bloqueio corporal é uma habilidade técnica codificada em regras. No futebol, ele existe numa zona cinzenta que os regulamentos da IFAB nunca resolveram completamente. O que Arteta fez foi ocupar essa zona cinzenta com inteligência e consistência. Outros treinadores fizeram o mesmo. O resultado é que hoje, em qualquer escanteio da Premier League, você vê jogadores segurando, empurrando e deslocando adversários antes mesmo de a bola ser cobrada — e os árbitros, na maioria das vezes, deixam o jogo correr.
A análise que o SportNavo fez das principais ligas europeias nesta temporada mostra que a Premier League concentra o maior número de gols de bola parada entre as cinco grandes ligas — à frente de La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1. Isso não é coincidência: é o reflexo direto do investimento em treinamento específico que o Arsenal popularizou e que se espalhou como modelo.
Quem cresceu vendo o Barça de Guardiola entre 2008 e 2012 — aquela equipe que marcou 99 pontos na La Liga em 2009/2010 e dominava com posse e pressing — entende o incômodo de Bernardo Silva. O português foi formado nessa escola. Passou pelo Monaco de Leonardo Jardim antes de chegar ao City, sempre em ambientes que priorizavam a construção pelo chão. Ver o jogo ser decidido por quem bloqueia melhor dentro da área é, para ele, uma negação do futebol que aprendeu a jogar.
A crítica é justa. Mas o futebol inglês nunca esperou permissão para reinventar suas próprias regras. O VAR, a linha do impedimento semiautomático, o tempo adicional estendido — tudo isso foi implementado sem consenso e com resistência inicial. A bola parada estilo rúgbi vai seguir o mesmo caminho: ou a IFAB atualiza as diretrizes para árbitros até o início da temporada 2026/2027, definindo com precisão o que é bloqueio legal, ou o método vai se consolidar como parte permanente do jogo. A reunião anual da IFAB está marcada para março de 2027 — e esse tema já está na pauta.









