— Mas ela não tinha chegado à semifinal em Paris há pouco tempo?
— Três anos atrás. Perdeu pro Świątek na semi.
— E agora caiu pra quem? A 102ª do mundo?

Essa conversa se repetiu em dezenas de variações neste domingo, 24 de maio, quando Beatriz Haddad Maia foi eliminada na primeira rodada de Roland Garros pela britânica Francesca Jones, com parciais de 1/6, 7/6(4) e 6/2. Não é a primeira vez. É a terceira consecutiva — 2024, 2025 e agora 2026 — que a brasileira despede-se precocemente do saibro parisiense onde, em 2023, chegou a ser a tenista mais próxima de quebrar a hegemonia de Iga Świątek num Grand Slam de terra batida.

O que os números revelam sobre a queda de Bia Haddad

A sequência de dados é dura de encarar. Em 2023, Bia chegou ao 10º lugar do ranking WTA — melhor posição histórica de uma brasileira no circuito feminino. Hoje ocupa a 105ª colocação, abaixo de Jones, sua algoz desta domingo. Na temporada 2026, a paulistana soma apenas 4 vitórias em 20 jogos disputados, um aproveitamento de 20% que coloca sua fase atual entre as piores de qualquer ex-top 10 no circuito recente. As cinco derrotas consecutivas incluem eliminações precoces em Roma, Estrasburgo e agora Paris — três torneios de saibro, a superfície que supostamente seria sua aliada.

O saque foi sintomático no domingo. Bia acertou apenas 58,7% do primeiro serviço, cometeu 11 duplas faltas e conseguiu apenas um ace, enquanto Jones converteu mais de 70% do primeiro saque. Para uma tenista que construiu seu jogo em torno de agressividade e potência de fundo de quadra, esses números representam um colapso técnico, não apenas uma oscilação pontual. Levantamentos do portal SportNavo sobre o desempenho de ex-top 10 que saíram do ranking de elite mostram que, quando a queda ultrapassa 90 posições em menos de 24 meses, a recuperação exige mudança estrutural — não apenas de rotina de treinos.

"No segundo set, comecei a me sentir mal. Tive bastante ânsia de vômito, estava bem desconfortável. Estava quente, e ela também poderia estar. O jogo tem o estresse e as emoções envolvidas. Eu estava tentando me controlar, respirar, me acalmar." — Bia Haddad Maia, à ESPN, após a partida.

O desconforto físico relatado por Bia explica parte do colapso no segundo e terceiro sets, mas não toda a história. Ela vencia por 4 a 2 no segundo set, estava em posição confortável para fechar o jogo em dois sets e ainda abriu 2 a 0 no terceiro. Foram três momentos distintos de controle desperdiçado — um padrão que se repete ao longo dos últimos 18 meses e que vai além de um dia ruim em Paris.

A perspectiva que Bia tem sobre a derrota e o que ela diz sobre o ciclo atual

Após a partida, Bia foi direta ao reconhecer o que aconteceu em quadra, sem esconder a frustração.

"Tô chateada, não estou feliz. Estava superior, o jogo estava no meu controle. Estava 1 set, 2 a 0, tive 4 a 2 também. Tive chance no terceiro e também não deu. É isso." — Bia Haddad Maia, após a eliminação.

Há algo de shakespeariano — ou, mais precisamente, algo do personagem de Whiplash, o filme de Damien Chazelle — na trajetória de Bia: a atleta que chegou ao limite máximo de sua capacidade num momento de pico absoluto, e que agora enfrenta a dificuldade de encontrar novamente aquele estado de excelência sem as mesmas condições físicas, técnicas e emocionais que o produziram. A semifinal de 2023 não foi um acidente — foi o resultado de um ciclo de construção que durou anos. O problema é que ciclos se esgotam, e reconstruí-los exige tempo que o calendário do circuito raramente concede.

A britânica Francesca Jones, que nasceu com uma condição genética que a deixou com quatro dedos em cada mão, mereceu o elogio que recebeu da própria Bia após a partida: "Ela mereceu a vitória e foi mais lutadora no final." Jones agora enfrenta a tcheca Marie Bouzkova, 27ª cabeça de chave, na segunda rodada.

O que o contexto global do tênis feminino revela sobre o caso Bia

No tênis mundial, quedas abruptas de ex-top 10 não são raras, mas costumam seguir padrões identificáveis. A checa Karolína Plíšková, por exemplo, caiu do número 1 para fora do top 50 entre 2022 e 2023 antes de se recuperar parcialmente. A americana Madison Keys oscilou entre o top 15 e o top 60 por três temporadas consecutivas antes de vencer o Australian Open 2025. O que diferencia esses casos de recuperação é a existência de um ciclo olímpico claro como estrutura de motivação — e aqui reside um dado relevante para Bia: os Jogos de Los Angeles 2028 estão a dois anos e dois meses de distância, tempo suficiente para uma reconstrução consistente se iniciada agora.

No contexto do esporte brasileiro, a queda de Bia tem paralelos com o que aconteceu com Gustavo Kuerten após seu último Roland Garros competitivo em 2004, quando lesões e perda de consistência no saque transformaram um ex-número 1 em um tenista que lutava para manter relevância no circuito. A diferença é que Guga tinha 27 anos naquele momento — Bia tem 28. O tempo ainda está do lado dela, mas a janela de reconstrução não é infinita.

O que os números revelam sobre a queda de Bia Haddad Bia Haddad perde de virada
O que os números revelam sobre a queda de Bia Haddad Bia Haddad perde de virada

A brasileira permanece em Paris para disputar a chave de duplas de Roland Garros ao lado da russa Liudmila Samsonova. A próxima grande janela individual no saibro já fechou — a temporada de grama começa em junho, com Wimbledon marcado para o início de julho, superfície historicamente menos favorável para o jogo de Bia. O US Open, em agosto, será o próximo Grand Slam em que ela poderá testar se a crise é conjuntural ou estrutural. Neste momento, o ranking diz 105ª. Em 2023, dizia 10ª.