O Corinthians venceu e o árbitro perdeu. Essa é a contradição aparente do clássico deste domingo (10) na Neo Química Arena — e o resultado de 3 a 2 para o Timão não fecha a conta enquanto a CBF não explicar por que o mesmo gesto produz punições diferentes dependendo de quem o executa.
Um número que sintetiza a inconsistência
Dois casos. Zero expulsões para o São Paulo. Duas expulsões para o Corinthians. Esse é o placar da jurisprudência sobre gestos obscenos no Brasileirão em 2026 — e ele é mais revelador do que qualquer estatística de posse de bola.
Na 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, o volante Bobadilla gesticulou com as mãos em frente à região genital durante a comemoração do gol de Luciano, que empatou o jogo em 2 a 2. O árbitro Anderson Daronco foi chamado ao monitor do VAR. Conclusão: sem cartão vermelho, porque, segundo a interpretação da equipe de arbitragem, o jogador são-paulino não tocou as próprias partes íntimas.
O critério adotado por Daronco introduz uma variável anatômica que não existe no texto da regra. A Lei 12 da IFAB — que rege as expulsões por comportamento ofensivo — não exige contato físico com o próprio corpo para caracterizar o gesto. Exige que o gesto seja obsceno, insultante ou abusivo. Ponto.
O precedente de Allan e o que a regra efetivamente diz
Allan, volante do Corinthians, foi expulso em partida contra o Fluminense por gesto classificado como obsceno pela arbitragem nesta mesma temporada. A punição foi aplicada sem que se discutisse, à época, se houve ou não contato físico com a região íntima. O gesto, por si só, foi considerado suficiente para o vermelho direto.
Aqui mora o problema técnico central: se o critério de Daronco no clássico deste domingo for válido, o precedente de Allan deveria ser revisado retroativamente. Se o precedente de Allan for mantido como correto, então Bobadilla deveria ter sido expulso. A lógica não comporta os dois ao mesmo tempo.
Pense num árbitro de basquete que marca falta técnica por reclamação verbal em um jogo e, no jogo seguinte, ignora reclamação idêntica com a justificativa de que o jogador não levantou a voz acima de certo decibel. A regra não muda entre os jogos — a interpretação não pode ser calibrada por variáveis que ela própria não prevê.
A resposta do Corinthians e o que a CBF precisa definir
Marcelo Paz, diretor de futebol do Corinthians, foi direto após o apito final:
"Aquele mesmo gesto em praça pública ou restaurante seria ofensivo. Se não cabe fora do futebol, não cabe dentro do futebol. Eu entendo que é um tema novo, há quantos anos existe futebol e esse tema surgiu agora? Talvez ainda não tenha compreensão exata de como agir."
Paz anunciou que o clube levará o tema à reunião com a comissão de arbitragem na segunda-feira (11) e estabeleceu a questão em termos binários precisos:
"Ou pode fazer isso no futebol ou a arbitragem errou. Não tem meio termo. Então amanhã, na reunião que estaremos presentes, ou a comissão de arbitragem reconhece que houve um erro, e ok, erros acontecem, ou está liberado fazer aqui."
A posição do dirigente tem mérito técnico-regulatório. A ausência de critério uniforme não é apenas uma injustiça pontual — ela cria um vácuo normativo que qualquer clube pode explorar argumentativamente em processos no STJD.
Do ponto de vista do jogo em si, o Corinthians construiu a vitória com gols de Raniele, Matheuzinho e Breno Bidon, enquanto o São Paulo respondeu com Luciano e um gol contra do próprio Matheuzinho. Rodrigo Garro, um dos protagonistas alvinegros, resumiu o momento do grupo:
"Demonstramos a força do grupo nos momentos difíceis. O grupo sempre coloca o clube à frente. Entendemos isso e hoje o triunfo é para nós e para o torcedor."
A análise do SportNavo aponta que a polêmica arbitral, paradoxalmente, não deve ser subestimada pelo fato de o Corinthians ter vencido. O clube chegou a 18 pontos e segue na zona de rebaixamento, aguardando os resultados de Vasco e Grêmio — ambos com a mesma pontuação — para saber se sai do Z-4. A pressão do resultado não dissolve a inconsistência do critério.
A lista dos elementos que a CBF precisa esclarecer até a reunião de segunda é objetiva:
- Qual é o critério exato para caracterizar gesto obsceno — o gesto em si ou o contato físico?
- O caso de Allan será reavaliado à luz do novo critério aplicado a Bobadilla?
- A interpretação de Daronco será comunicada formalmente a todos os árbitros como padrão?
Do lado são-paulino, o técnico Roger Machado reconheceu que a equipe "deu um passo atrás" após ter evoluído contra o Bahia. O zagueiro Robert Arboleda, que retornou de quase um mês no Equador, ainda está em fase de recondicionamento físico e não é opção técnica imediata. O São Paulo volta a campo na quarta-feira (13) contra o Juventude, fora de casa, em jogo decisivo pela Copa do Brasil — e Roger precisará resolver os erros coletivos apontados por ele mesmo antes de qualquer discussão sobre escalação.









