10 minutos. Esse foi o tempo em que o clássico entre Corinthians e São Paulo ficou paralisado na Neo Química Arena após o gol de empate de Luciano, aos 40 minutos do primeiro tempo — um intervalo longo o suficiente para transformar um lance de arbitragem em pauta de segunda-feira em todo o futebol brasileiro.
O que aconteceu no lance do gol de Luciano
A jogada começou com Bobadilla roubando a bola de Raniele e servindo Luciano, que finalizou para o fundo da rede e foi comemorar próximo à bandeira de escanteio do Corinthians. A torcida alvinegra reagiu com vaias intensas e arremessou objetos em direção aos jogadores tricolores — entre eles um cigarro eletrônico (vape) e um óculos, que atingiram Calleri. O argentino foi ao chão com a mão na nuca, embora as imagens da transmissão oficial mostrassem o impacto na mão direita.
A confusão generalizada produziu quatro cartões amarelos: Matheus Bidu, Gabriel Paulista, Calleri e Sabino foram punidos. O volante paraguaio Bobadilla, porém, foi o centro da polêmica mais duradoura: câmeras captaram um possível gesto obsceno durante a comemoração, e o VAR recomendou revisão para possível cartão vermelho direto.
O árbitro Anderson Daronco foi ao monitor, analisou as imagens por alguns minutos e concluiu que Bobadilla não tocou as partes íntimas. Decisão mantida. Sete minutos de acréscimos foram adicionados, e o jogo seguiu em 1 a 1 para o intervalo.
O que o regulamento diz sobre gestos obscenos no Brasileirão
O Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) enquadra gestos obscenos no artigo 258, que trata de atos contrários à disciplina e à ética desportiva. A punição pode variar de suspensão de 1 a 3 partidas, com possibilidade de multa. Para que o árbitro aplique o vermelho direto em campo, porém, o regulamento exige que o gesto seja inequívoco — ou seja, não basta a suspeita; é necessária a certeza visual.
Esse é exatamente o ponto que torna a decisão de Daronco tecnicamente defensável. Segundo a apuração do SportNavo junto a especialistas em direito desportivo, o protocolo do VAR para esse tipo de ocorrência orienta o árbitro a intervir apenas quando há evidência clara e incontestável. Se a imagem admite interpretação dúbia — como parece ter sido o caso com Bobadilla —, a recomendação é manter a decisão de campo.
O precedente mais citado é o caso de Allan, do Flamengo, punido pelo STJD em 2023 após gesto semelhante em partida pelo Brasileirão. Naquele episódio, o árbitro também não expulsou em campo, e a punição veio apenas na esfera disciplinar posterior — o que reforça que o caminho de Daronco seguiu o rito habitual.

Acerto técnico com consequências disciplinares abertas
A decisão de não expulsar Bobadilla foi, sob o ângulo estritamente regulamentar, a mais segura disponível para Daronco naquele momento. Expulsar um jogador por gesto cuja interpretação é ambígua geraria risco de recurso imediato e eventual reversão pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) — o que produziria um dano institucional maior para a arbitragem do que a manutenção da decisão de campo.
O problema é que essa zona cinzenta tem custo. A paralisação de 10 minutos, os quatro cartões amarelos distribuídos e a tensão nas arquibancadas — com objetos arremessados e Calleri atingido — compõem um quadro que o regulamento atual não resolve de forma satisfatória em tempo real. O VAR foi acionado corretamente, a revisão foi feita, e ainda assim o desfecho gerou insatisfação generalizada.
Do ponto de vista disciplinar, o lance ainda pode ter desdobramentos. O STJD tem competência para analisar o gesto de Bobadilla com base nas imagens de transmissão, independentemente da decisão de campo. Se o tribunal entender que houve obscenidade, o volante pode ser suspenso por até três partidas — o que afetaria diretamente a sequência do São Paulo no Brasileirão 2026.

Bobadilla, titular recorrente no meio-campo tricolor, tem valor de mercado estimado pelo Transfermarkt em € 3,5 milhões. Uma suspensão de três jogos representa perda de rendimento esportivo em partidas com peso de tabela — variável que o clube certamente monitora ao decidir se vai ou não recorrer preventivamente ao STJD para esclarecer o episódio antes de qualquer punição.
O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão na próxima rodada. Se o STJD abrir processo disciplinar sobre o gesto de Bobadilla nos próximos dias, o clube terá prazo curto para apresentar defesa — e a decisão de Daronco, que hoje parece um acerto técnico, pode se transformar no ponto de partida de uma disputa jurídica que dura semanas. Se o tribunal punir o volante mesmo sem expulsão em campo, o protocolo do VAR para gestos obscenos vai precisar de revisão — e aí a pergunta que fica é: a CBF tem apetite para mexer nessa regra antes do returno do Brasileirão?








