O corredor mais rápido da história humana falava de futebol com a mesma precisão cirúrgica com que cruzava a linha de chegada. Sentado para uma entrevista exclusiva ao Lance!, o jamaicano revelou sua hierarquia de favoritos para a Copa do Mundo — e o Brasil, para surpresa de alguns, ficou em quinto lugar na lista dele. Seu nome é Usain Bolt, e aos recordes de 9s58 nos 100m, 19s19 nos 200m e 36s84 no revezamento 4x100m — todos estabelecidos no Mundial de Berlim em agosto de 2009 — soma-se agora uma análise futebolística que merece atenção.
A entrevista acontece a menos de três semanas do apito inicial da Copa do Mundo de 2026, e o timing não é casual. Bolt, único atleta na história a vencer os 100m e 200m em três Olimpíadas consecutivas (Pequim-2008, Londres-2012 e Rio-2016), demonstrou que acompanha o futebol com a mesma disciplina com que treinou velocidade por duas décadas.
As quatro seleções que Bolt coloca à frente da Amarelinha
A hierarquia apresentada pelo jamaicano não surgiu do nada. França, Argentina, Portugal e Espanha formam, segundo ele, o quarteto com elencos mais robustos para 2026. Há uma lógica histórica e estatística que sustenta esse raciocínio.
"Pelo que tenho acompanhado, França, Argentina, Portugal e Espanha parecem ter os elencos mais fortes para o torneio", declarou Bolt ao Lance!.
A França chega como bicampeã mundial — títulos em 1998 (3×0 sobre o Brasil na final de Saint-Denis) e 2018 (4×2 sobre a Croácia em Moscou) — e com uma geração que mistura a experiência de jogadores como Olivier Giroud e a juventude explosiva de Michael Olise e Kylian Mbappé, artilheiro da última Copa com oito gols. A Argentina de Lionel Messi, campeã em 2022 com 3×3 (4×2 nos pênaltis) sobre a França em Lusail, apresenta a mesma espinha dorsal. Portugal, mesmo sem ter vencido uma Copa, tem em Bruno Fernandes um dos meias mais decisivos da temporada europeia 2025/2026. A Espanha, tricampeã mundial (1010, 2010), foi campeã da Eurocopa de 2024 com Lamine Yamal e Pedri como protagonistas de uma geração que hoje rivaliza com qualquer potência do planeta.
O que para o argentino é a herança mítica de Maradona em 1986 — sete gols em seis jogos, incluindo aquele drible de 60 metros contra a Inglaterra —, para o espanhol é o legado tático do tiki-taka que dominou o mundo entre 2008 e 2012. São memórias diferentes, mas igualmente pesadas sobre os ombros das seleções atuais.
O Brasil ainda assusta — e Bolt reconhece isso
Não obstante a lista de quatro favoritos, Bolt foi categórico ao não descartar o Brasil. A Seleção Brasileira acumula o maior número de títulos mundiais da história: cinco troféus, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Nenhum outro país chegou perto dessa marca.
"A Copa do Mundo vai ser emocionante e, com certeza, o Brasil será uma das seleções que vão brigar pelo título", afirmou o velocista jamaicano.
Historicamente, o Brasil disputou todas as 22 edições da Copa do Mundo, sendo o único país com esse retrospecto. Em 2002, na última conquista, a equipe de Luiz Felipe Scolari venceu todos os sete jogos da competição, com Ronaldo Fenômeno marcando oito gols — artilheiro isolado do torneio. Desde então, a Seleção chegou a duas semifinais (2006 e 2014) e foi eliminada nas quartas em 2010, 2018 e 2022. A sequência de 24 anos sem título é a maior seca da história brasileira em Copas.
Na avaliação do SportNavo, Bolt toca em um ponto sensível: o Brasil de 2026 tem qualidade individual equivalente às melhores gerações, mas o coletivo ainda precisa demonstrar consistência nos jogos eliminatórios. Vinícius Júnior, citado explicitamente pelo jamaicano entre os craques a observar, tem os números para liderar essa empreitada — artilheiro do Real Madrid na temporada 2025/2026 da La Liga, com atuações que lembram o Ronaldo de 2002 na capacidade de decidir individualmente.
Da pista ao gramado — e a homenagem a Casemiro
A entrevista revelou ainda um Bolt com conexão afetiva ao futebol inglês. O jamaicano é declaradamente torcedor do Manchester United, e isso o aproximou de um personagem central da Seleção Brasileira: o volante Casemiro, que está de saída de Old Trafford.
"Ei, Casemiro, escuta, vão ser tempos muito tristes em Old Trafford. Sou muito fã, aliás. Sentiremos muito a sua falta", disse Bolt em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira, dia 18 de maio.
O gesto humaniza a análise. Bolt não fala de futebol como observador distante — ele acompanha transferências, sabe quais jogadores estão em alta e reconhece o impacto de cada peça nos elencos. Quando cita Cristiano Ronaldo — o maior artilheiro da história de Portugal com 130 gols pela Seleção — como referência geracional antes de elencar os novos talentos, demonstra a mesma capacidade de contextualização histórica que o fez entender seus próprios recordes como parte de uma linha temporal do atletismo.
Bolt ainda elencou outros nomes a observar na Copa: Harry Kane (Inglaterra), Ousmane Dembélé (França) e Erling Haaland (Noruega), além dos já citados Mbappé, Olise, Yamal, Pedri, Bruno Fernandes e Vini Jr. Haaland, curiosamente, joga por uma Noruega que não está sequer classificada para o Mundial — o que indica que Bolt mistura admiração técnica individual com análise coletiva das seleções, dois critérios que nem sempre andam juntos.

A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com o México enfrentando a África do Sul no Estádio Azteca. O Brasil estreia no Grupo C, e a Seleção de Dorival Júnior terá até o final de junho para provar que Bolt errou ao colocá-la em quinto lugar — ou confirmar que o jamaicano tem o mesmo faro para futebol que tinha para velocidade.










