Diz-se que o Brasil, com quatro pontos no Copa do Mundo, está confortavelmente instalado na liderança do Grupo C. Na verdade, não está — e a diferença entre primeiro e segundo lugar pode custar um encontro com a Holanda já nas oitavas, em vez de um duelo contra o Japão. A Bósnia tratou de complicar esse cálculo nesta quarta-feira (24), ao derrotar o Catar por 3 a 1 em Seattle, e Marrocos ainda tem 90 minutos para roubar o topo da chave.

O que a vitória da Bósnia sobre o Catar muda para a Seleção Brasileira

A Bósnia-Herzegovina encerrou matematicamente o sonho do Catar — anfitrião da edição de 2022 — ao vencer por 3 a 1 no Grupo B, em uma partida descrita como repleta de incidentes e tensão. Com o resultado, os bósnios garantiram praticamente a vaga no mata-mata como uma das oito melhores terceiras colocadas, o que os coloca no lado do chaveamento que pode cruzar com o Brasil caso a Seleção termine em segundo lugar no Grupo C. Terminar atrás de Marrocos não seria apenas uma questão de orgulho: o caminho seguinte passaria pela Holanda de Koeman, e uma eventual sequência envolveria o vencedor de Suíça e Coreia do Sul — um percurso consideravelmente mais árido do que o que se abre pelo lado do Japão.

Para efeito de comparação histórica, o Brasil terminou em segundo lugar do grupo em três das últimas seis Copas — 1998, 2006 e 2014 — e em dois desses casos enfrentou adversários de peso já nas oitavas. Em 2014, classificado em segundo do Grupo A com seis pontos, cruzou com o Chile de Sampaoli numa das partidas mais tensas da história recente: 1 a 1 no tempo regulamentar, classificação apenas nos pênaltis. O segundo lugar, historicamente, cobra preço.

Marrocos, o Haiti e a aritmética que ainda incomoda o Brasil

Os Leões do Atlas chegam ao duelo com o Haiti nesta quarta-feira (24), às 19h (horário de Brasília), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, com quatro pontos — mesma pontuação do Brasil, mas em desvantagem no saldo de gols. A vitória marroquina sobre a Escócia por 1 a 0 na rodada anterior manteve viva a disputa pela liderança. Para assumir o topo, Marrocos precisa vencer o Haiti e superar a diferença de saldo que o Brasil construiu — o que exigiria uma goleada expressiva, de pelo menos quatro gols acima do que os brasileiros fizerem no mesmo horário contra os escoceses.

O Haiti, matematicamente eliminado após derrotas para Escócia e Brasil, chega ao confronto carregando um tabu histórico: cinco jogos e cinco derrotas em Copas do Mundo, com 18 gols sofridos e apenas dois marcados. A única participação anterior foi na Alemanha, em 1974, quando os caribenhos perderam por 3 a 1 para a Itália, levaram 7 a 0 da Polônia e 4 a 1 da Argentina. São 52 anos de ausência entre aquela edição e a atual — e a equipe comandada por Sébastien Migné ainda não pontuou nem balançou as redes neste torneio. Uma eventual vitória marroquina ampla, portanto, depende de um Haiti que historicamente não oferece resistência suficiente para segurar placares.

Segundo registros compilados pelo SportNavo, Marrocos acumula atualmente cinco vitórias em toda a história das Copas do Mundo — o mesmo número de Nigéria e Gana, os países africanos com mais triunfos no torneio. Um novo triunfo nesta quarta igualaria a campanha histórica de 2022, quando os Leões do Atlas terminaram em primeiro do grupo com sete pontos antes de chegarem à semifinal no Catar.

Os dois caminhos do Brasil e o peso de cada adversário

Se o Brasil vencer a Escócia e Marrocos não vencer o Haiti — ou vencer por margem insuficiente —, a Seleção termina em primeiro e enfrenta o Japão nas oitavas. Os japoneses estão em segundo no Grupo F, atrás da Holanda, com campanha sólida mas sem o peso histórico dos europeus. Uma eventual sequência colocaria o Brasil diante da Noruega, adversário manejável dentro do contexto do torneio.

O segundo caminho é mais íngreme. Se o Brasil empatar com a Escócia e Marrocos vencer o Haiti, a Seleção cai para segunda colocada e enfrenta a Holanda nas oitavas — time que chegou à final da Copa de 2010, perdendo por 1 a 0 para a Espanha no tempo extra, e que acumula três vice-campeonatos mundiais (1974, 1978 e 2010). A Holanda de Koeman, com Van Dijk na zaga e Gakpo no ataque, representa um obstáculo de nível diferente do Japão. Nas fases seguintes desse chaveamento aparecem Alemanha, Espanha, França e Portugal — exatamente o lado do torneio que qualquer comissão técnica preferiria evitar até as semifinais.

"Terminar em segundo colocaria o Brasil em um lado do chaveamento considerado mais pesado. Nesse caminho aparecem seleções como Alemanha, Espanha, França e Portugal", avaliou a análise publicada pela coluna esportiva do UOL sobre os cenários do mata-mata.

Carlo Ancelotti e a decisão que define o torneio

Carlo Ancelotti, técnico com três títulos de Champions League (2003, 2007 e 2014) e vasta experiência em mata-matas europeus, sabe melhor do que ninguém que a fase de grupos de uma Copa do Mundo não é apenas sobre pontos — é sobre posicionamento no chaveamento. A lógica é simples e os números confirmam: nas últimas quatro edições do torneio, o campeão terminou em primeiro do grupo em três ocasiões (França em 2018, Argentina em 2022, e Alemanha em 2014). Sair em segundo não é condenação, mas a estatística pesa.

O Brasil entra em campo às 19h desta quarta-feira (24), no Hard Rock Stadium, em Miami, contra a Escócia. Vencer garante, no mínimo, a segunda colocação e, com um tropeço marroquino, a liderança. Empatar mantém chances de primeiro se Marrocos não ganhar. A combinação de resultados se resolve simultaneamente, o que torna os próximos 90 minutos em Atlanta tão decisivos quanto os jogados em Miami. Quem quiser entender exatamente para onde vai o Brasil nesta Copa, vale gravar os dois jogos e assistir lado a lado — a resposta virá nos minutos finais de cada partida.