O Botafogo de John Textor apresenta hoje um passivo de R$ 2,5 bilhões, segundo relatório da consultoria contratada pelo próprio clube em dezembro de 2024. O número representa um crescimento de 40% nas dívidas desde que o empresário americano assumiu o controle da SAF botafoguense, em março de 2022. Para dimensionar: quando Textor chegou, o clube devia aproximadamente R$ 1,8 bilhão – valor que já era considerado crítico pelos padrões do futebol brasileiro.

Os números da gestão Textor revelam paradoxo financeiro

A comparação entre os balanços de 2022 e 2024 expõe uma contradição evidente. Enquanto o Botafogo conquistou a Libertadores e o Campeonato Brasileiro no ano passado – feitos que geraram receitas estimadas em R$ 280 milhões apenas em premiações –, o endividamento seguiu trajetória ascendente. O orçamento para 2024 foi de R$ 450 milhões, 180% superior aos R$ 160 milhões de 2022, mas a arrecadação não acompanhou o mesmo ritmo dos gastos.

O transfer ban aplicado pela FIFA ilustra a gravidade da situação. O clube deve 8 milhões de euros (R$ 48 milhões) ao Ludogorets, da Bulgária, pela contratação do atacante Rwan Cruz, negociado em fevereiro de 2024 e atualmente emprestado de volta ao time búlgaro. Esta operação exemplifica o padrão de gestão questionável que caracteriza a era Textor.

Comparativo com outros investidores estrangeiros no Brasil

A análise do SportNavo com clubes que receberam aportes estrangeiros revela disparidades significativas. O Red Bull Bragantino, controlado pela empresa austríaca desde 2019, mantém dívidas em patamar de R$ 280 milhões – onze vezes menor que o Botafogo atual. O Cruzeiro, que passou por reconstrução financeira similar sob controle de Ronaldo Fenômeno, reduziu seu passivo de R$ 1,2 bilhão para R$ 400 milhões em três anos.

Diferentemente destes casos, Textor optou por uma estratégia de alto risco financeiro para resultados imediatos. Os gastos com contratações em 2024 somaram R$ 320 milhões, incluindo Almada (R$ 110 milhões), Savarino (R$ 45 milhões) e Luiz Henrique (R$ 38 milhões). Investimentos que trouxeram títulos, mas comprometeram a sustentabilidade econômica do clube.

"O 'cowboy' fez o Botafogo ter um ano de 2024 dos sonhos para depois levá-lo ao maior de seus pesadelos em sua história", avaliou o colunista do UOL, André Hernan.

Patrimônio do clube se deteriorou no período

O ativo imobilizado do Botafogo, que incluía o estádio Nilton Santos avaliado em R$ 600 milhões e o centro de treinamento em R$ 180 milhões, sofreu desvalorização de 15% no período. A SAF assumiu dívidas trabalhistas de R$ 380 milhões e tributárias de R$ 420 milhões que não constavam nos cálculos iniciais de Textor.

A receita operacional de R$ 520 milhões em 2024 – a maior da história botafoguense – não foi suficiente para equilibrar as contas. O déficit operacional chegou a R$ 180 milhões, demonstrando que mesmo com títulos e participações internacionais, o modelo de negócio permanece insustentável.

Cenário futuro exige reestruturação urgente

A situação financeira atual coloca o Botafogo em posição mais delicada que antes da chegada de Textor. Com transfer ban ativo e dívidas crescentes, o clube precisa renegociar contratos e reduzir drasticamente a folha salarial – atualmente em R$ 45 milhões mensais. A manutenção do atual modelo custaria R$ 600 milhões anuais, valor incompatível com a capacidade de arrecadação.

O próximo relatório financeiro, previsto para março de 2025, definirá se Textor conseguirá reverter este cenário ou se o Botafogo enfrentará consequências ainda mais severas. O clube já perdeu três jogadores titulares por questões contratuais e pode ver seu elenco desmantelado caso não regularize os pagamentos em atraso até abril.