A recuperação judicial protocolada pelo Botafogo na última quarta-feira (22) revelou um cenário financeiro devastador que vai muito além dos R$ 1,119 bilhão oficialmente declarados. A lista de credores da SAF alvinegra expõe uma teia complexa de relacionamentos comerciais que envolvem desde gigantes internacionais até clubes brasileiros de menor expressão, passando por jogadores, técnicos e fundos de investimento.

Major League Soccer domina ranking de dívidas

O maior credor individual do Botafogo é a Major League Soccer (MLS), liga norte-americana que tem R$ 191 milhões a receber do clube carioca. Esse débito está diretamente relacionado à contratação do meia Thiago Almada, ex-Atlanta United, operação que se tornou um dos maiores passivos da gestão John Textor. O valor representa quase 17% do total das dívidas declaradas na recuperação judicial.

Entre os clubes europeus, o Nottingham Forest aparece como segundo maior credor estrangeiro, com R$ 118 milhões pendentes pela transferência do meio-campista Danilo. O Benfica surge na sequência com R$ 67 milhões, seguido pelo Zenit russo (R$ 56 milhões), Ludogorets búlgaro (R$ 37 milhões) e Udinese italiano (R$ 34 milhões). Esses valores evidenciam a estratégia agressiva de contratações internacionais que caracterizou os últimos anos da SAF botafoguense.

Santos lidera dívidas entre clubes brasileiros

No cenário nacional, o Santos emerge como principal credor, com mais de R$ 22 milhões a receber do Botafogo. O Grêmio aparece na segunda posição com R$ 20 milhões, valor que representa uma fatia significativa das necessidades financeiras do clube gaúcho. O Ceará figura com R$ 5 milhões, enquanto o São Paulo tem direito a R$ 4 milhões em operações não especificadas nos documentos judiciais.

Conforme apuração do SportNavo, essas dívidas com clubes brasileiros refletem transferências de jogadores realizadas nos últimos anos, além de eventuais multas contratuais e acordos comerciais não cumpridos. O impacto dessas pendências vai além do aspecto financeiro, afetando as relações institucionais do Botafogo no futebol nacional.

Jogadores e técnicos também aguardam pagamentos

O centroavante Igor Jesus lidera a lista de atletas credores, com R$ 17 milhões a receber através de sua empresa de direitos de imagem. Nathan Fernandes surge com quase R$ 5 milhões pendentes, enquanto Thiago Almada tem outros R$ 2,6 milhões em aberto, valor adicional aos débitos com a MLS.

Entre os técnicos, Bruno Lage possui R$ 3 milhões a receber, montante que engloba direitos de imagem e salários atrasados do período em que comandou a equipe. Renato Paiva, através de sua empresa, tem mais de R$ 2 milhões pendentes, situação que ilustra os atrasos sistemáticos na folha salarial do clube.

As empresas financeiras também ocupam posições de destaque na lista de credores. A GDA Luma Capital, apresentada por John Textor como investidora em fevereiro, possui quase R$ 125 milhões em créditos. O fundo Oliveira Trust detém outros R$ 67 milhões, enquanto o Macquarie Bank Europe tem mais R$ 64 milhões a receber da SAF alvinegra.

Passivo total supera R$ 2,5 bilhões

O documento judicial revela que o passivo total do Botafogo ultrapassa R$ 2,5 bilhões, sendo aproximadamente R$ 400 milhões apenas em dívidas tributárias. Do montante geral, R$ 1,4 bilhão refere-se a obrigações já vencidas ou com vencimento até o final de 2026, prazo que evidencia a urgência da situação financeira.

A gravidade do cenário se manifesta na admissão do próprio clube de que não possui recursos para quitar a folha salarial de maio. O patrimônio líquido da SAF chegou a R$ 427,2 milhões negativos, resultado de três balanços consecutivos no vermelho que comprometem a sustentabilidade operacional da instituição.

O processo de recuperação judicial tramita na Justiça do Rio de Janeiro, onde o Botafogo busca renegociar os prazos e condições de pagamento com seus credores. A decisão judicial que definirá os termos do plano de recuperação pode determinar o futuro competitivo e administrativo de um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro.