Julho de 2024. O Botafogo desembolsava €10 milhões à Udinese para trazer o atacante Matheus Martins, jovem de 21 anos criado no Fluminense que havia encantado o futebol inglês com seis gols e duas assistências em 43 partidas pelo Watford. Menos de dois anos depois, o mesmo clube anuncia que está disposto a vendê-lo por €8 milhões — uma redução de 20% sobre o investimento original, sem contar os €2 milhões adicionais previstos em metas. A narrativa que circula nos bastidores cariocas é a de que o Botafogo simplesmente "perdeu dinheiro". A realidade, como quase sempre no futebol contemporâneo, é consideravelmente mais complexa.
O preço de uma contratação que nunca foi só sobre o presente
Quando o Botafogo adquiriu 90% dos direitos econômicos de Matheus Martins em 2024, o movimento tinha uma lógica emergencial clara: Eduardo e Júnior Santos estavam lesionados, o ataque precisava de reforço imediato. O contrato firmado por quatro anos e meio — até 2028 — indicava, contudo, uma aposta de médio prazo no jogador. O Alvinegro pagou €10 milhões fixos mais até €2 milhões em bônus à Udinese, clube italiano que detinha os direitos do atleta mas nunca o havia utilizado em campo. Havia ainda o mecanismo de solidariedade ao Fluminense, clube formador, avaliado em €300 mil. O custo total real da operação, portanto, superava a cifra redonda que circulou na imprensa.
Matheus acumulou 81 partidas pelo Botafogo, com nove gols e duas assistências — números modestos para um investimento dessa magnitude, sobretudo quando se considera que o clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores de 2024 nesse período. No futebol europeu, um atacante com esse perfil de rendimento dificilmente justificaria o valor pago originalmente. É o tipo de discrepância que os analistas do mercado de transferências no continente chamam de premium de expectativa — o excedente pago sobre o valor corrente porque se aposta no potencial futuro.
Feyenoord, Krasnodar e a matemática do futebol russo
O interesse do Krasnodar surgiu de um contexto particular: o clube russo, vice-campeão da temporada passada, precisa de um atacante de lado para 2026 e perdeu Victor Sá, ex-Botafogo, que deixa o time ao fim do seu contrato. Segundo o portal russo Legalbet, o Krasnodar já fez contato com os representantes de Matheus e a pedida do Botafogo é de €8 milhões pelo pacote de 90% dos direitos, com ainda 20% de uma futura venda revertendo ao clube carioca. Existe ainda a complicação financeira de que o Krasnodar é credor do Botafogo na operação de Kaio Pantaleão — o que torna a negociação uma equação de múltiplas variáveis, quase como uma partida de xadrez em que uma peça serve de moeda de troca.
O Feyenoord, da Eredivisie holandesa, aparece como o segundo candidato. O clube de Rotterdam tem histórico recente de comprar jovens sul-americanos por valores acessíveis e revendê-los com lucro expressivo ao mercado inglês e espanhol — o modelo que os europeus chamam de selling club qualificado. Para Matheus Martins, chegar ao De Kuip representaria uma vitrine infinitamente superior ao futebol russo, mas a distância entre as propostas ainda não está clara.
Por que o Botafogo está disposto a negociar um jogador contratado até 2028 por valor abaixo do que pagou?
A lógica financeira por trás da decisão alvinegra
A resposta está menos no desempenho de Matheus e mais no momento fiscal do clube. O Botafogo atravessa uma fase de ajuste de plantel em que ativos valorizados — ou com valor de mercado razoável — precisam ser convertidos em liquidez. A decisão, segundo o portal Meu Botafogo, foi tomada com a condição de que "chegando uma oferta legal, será interessante e rentável vendê-lo". A palavra rentável, aqui, precisa ser lida com cuidado: não significa lucro sobre o investimento, mas sim que o fluxo de caixa gerado pela venda compensa a manutenção do jogador no elenco.
Existe ainda a cláusula dos 20% sobre uma futura venda, inserida na proposta ao Krasnodar. Esse mecanismo de sell-on clause, comum em contratos europeus, funciona como uma apólice de seguro: se Matheus explodir no futebol russo ou holandês e for negociado por €20 milhões daqui a dois anos, o Botafogo receberia mais €4 milhões adicionais. A matemática total da operação, portanto, pode se equilibrar — ou até superar o investimento original — dependendo da trajetória do jogador após a saída.
O timing também importa. A tendência é que a negociação se concretize após a Copa do Mundo de 2026, o que dá ao clube algum espaço para avaliar se surgem propostas melhores durante o torneio. Matheus, aos 23 anos, ainda tem margem técnica para crescer — e uma boa Copa poderia elevar seu valor de mercado de forma significativa antes que qualquer contrato seja assinado.

O que o caso Matheus Martins revela, no fundo, é uma tensão estrutural que o futebol brasileiro ainda não resolveu: a distância entre o preço pago por jovens talentos e a capacidade dos clubes nacionais de monetizá-los de forma eficiente. No Camp Nou ou em Anfield, um ativo com contrato longo e 81 jogos pelo clube seria negociado numa posição de força. No Botafogo de 2026, ele vira instrumento de gestão de caixa.
A imagem que fica é essa: Matheus Martins treinando no CT Lonier numa manhã de semana, alheio às planilhas que circulam entre Rio de Janeiro, Rotterdam e Krasnodar, enquanto o clube que o contratou por €10 milhões calcula em qual moeda o vendê-lo sai mais barato.









