É um barril de pólvora com presidente novo tentando apagar o incêndio. Só que o barril já estava em chamas quando José Boto desceu pelo túnel do Estádio Atanasio Girardot, na noite de quinta-feira (7), e percebeu que a delegação do Flamengo estava encurralada entre torcedores revoltados, granadas de gás lacrimogêneo e um dirigente local disposto a qualquer manobra para salvar o jogo.

O que chegou pelo túnel antes da delegação conseguir sair

Boto concedeu entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (8), logo após a chegada da delegação rubro-negra a Porto Alegre. Foram as declarações mais detalhadas de qualquer representante do clube sobre o que aconteceu nos momentos em que a partida foi interrompida. O diretor técnico de futebol descreveu um cenário de ruptura total do aparato de segurança do estádio colombiano.

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"Nada tinham contra o Flamengo. Eles começaram a arremessar sinalizadores, havia também pedras de gelo, pedras e ferros, e aquilo entrou tudo. Não havia nenhuma condição de segurança. Não sabíamos o que havia lá dentro, se havia uma arma, uma faca ou qualquer outro objeto, e nos sentimos um pouco ameaçados, como é óbvio."

A sequência narrada por Boto é relevante para entender a gravidade da situação: não se tratou apenas de objetos arremessados nas arquibancadas, distantes do campo. Parte dos torcedores do Independiente Medellín conseguiu romper a barreira de acesso e entrou nos túneis que levam aos vestiários — o coração logístico de qualquer estádio, onde circulam jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes. A polícia colombiana precisou usar equipamentos de choque para conter a invasão, o que por si só confirma que o perímetro de segurança havia colapsado.

Quando o Flamengo se recolheu ao vestiário aguardando uma definição, a situação já era irreversível do ponto de vista operacional. Não havia como garantir que os jogadores voltassem ao gramado com condições mínimas de integridade física — e Boto, com 25 anos de experiência na gestão de futebol europeu, sabia disso antes mesmo de qualquer reunião com a Conmebol.

A proposta do presidente do Medellín e o argumento que derrubou o plano

O ponto mais revelador da coletiva foi a descrição do diálogo entre Boto e o presidente do clube colombiano — descrito pelo dirigente português como alguém "novo no cargo". A proposta apresentada era evacuar o estádio completamente e retomar a partida com as arquibancadas vazias. Do ponto de vista protocolar, parecia uma solução viável. Do ponto de vista prático, era uma armadilha.

"O presidente do clube, que penso ser novo, queria evacuar o estádio e depois retomar o jogo. Eu disse a ele: 'Mas quando as pessoas virem na televisão que o jogo está a acontecer, vai ser pior. Vão voltar ainda mais raivosas, mais revoltadas, e a situação vai piorar.'"

O raciocínio de Boto funcionou como uma parede de ferro contra o voluntarismo local: torcedores que já tinham invadido o túnel, ateado fogo e arremessado pedras não iam simplesmente ir para casa ao saber que a partida havia sido retomada. A probabilidade de retorno em massa — e com maior agressividade — era alta demais para qualquer garantia ser oferecida. Junto ao presidente do Medellín, havia também um representante do governo local que, segundo Boto, defendia a retomada "a todo custo". A pressão política para que o jogo acontecesse era real.

O SportNavo apurou que a posição do Flamengo durante as negociações foi coerente e documentada: o clube sinalizou disposição para jogar ainda na quinta-feira, desde que houvesse segurança garantida. O que o clube descartou categoricamente foi a hipótese de remarcar a partida para sexta-feira (8). Com o compromisso pelo Brasileirão contra o Grêmio marcado para domingo (10), em Porto Alegre, o técnico Leonardo Jardim precisaria de ao menos 48 horas de preparação e descanso entre jogos — prazo que simplesmente não existia.

O W.O e o que a Conmebol precisa decidir agora

A Libertadores tem regulamento claro sobre responsabilidade do mandante em casos de interrupção por razões de segurança. O Artigo 14 do Código Disciplinar da Conmebol estabelece que o clube anfitrião responde pelos incidentes ocorridos em seu estádio, podendo ser penalizado com derrota por W.O. — resultado 3 a 0 para o visitante — além de multas e eventual proibição de mandar jogos no local. O Flamengo aguarda o julgamento formal da entidade, que deve ocorrer nos próximos dias.

Quando a Conmebol analisa casos assim, ela não apenas arbitra o resultado da partida cancelada — ela define precedentes sobre o nível de responsabilização exigido dos clubes sul-americanos em relação à segurança de seus estádios. Quando decide com rigor, ela envia um sinal a outros mandantes. Quando ameniza a punição por pressão política local, ela fragiliza o próprio regulamento que sustenta a competição.

Do lado rubro-negro, o foco imediato é o Brasileirão. A delegação chegou a Porto Alegre na tarde desta sexta (8) e Jardim tem pouco mais de 48 horas para preparar o time para enfrentar o Grêmio, domingo (10), às 19h30, pela segunda rodada da Série A de 2026. Uma vitória não apenas pontua — ela fecha uma semana que começou com caos em Medellín e precisa terminar com resultado concreto no gramado gaúcho.