Quando Robson Gonçalves de Oliveira parou aos 41,5 quilômetros da Maratona de Boston para ajudar o norte-americano Ajay Haridasse, que havia colapsado a poucos metros da chegada, o brasileiro de 36 anos não sabia que estava escrevendo mais um capítulo da crescente tradição nacional de fair play no atletismo internacional. O gesto, registrado em vídeo na segunda-feira (20) e rapidamente viralizado, marca o terceiro caso documentado de um atleta brasileiro que abandona objetivos pessoais para socorrer rivais em grandes maratonas.

O operário de São Bernardo do Campo corria em ritmo forte rumo ao seu recorde pessoal quando avistou Haridasse caído no asfalto. Junto com o britânico Aaron Beggs, Robson carregou o americano pelos últimos metros até cruzarem a linha de chegada juntos. O brasileiro terminou com 2h44min, acima de sua meta, mas o cronômetro ficou em segundo plano diante da repercussão mundial do gesto.

"Foi uma decisão de segundos. Sempre que houver oportunidade de retribuir aquilo que é o bem maior da humanidade irei fazer"

Berlim 2018 marca precedente histórico

O episódio de Boston ecoa o caso mais emblemático da solidariedade brasileira em maratonas internacionais. Em setembro de 2018, durante a Maratona de Berlim, o carioca Marcus Vinícius Silva parou na reta final para auxiliar o queniano Daniel Kiprotich, que apresentava sinais de desidratação severa aos 40 quilômetros da prova. Silva, que também corria para bater seu recorde pessoal de 2h38min, carregou o rival africano pelos últimos dois quilômetros.

O gesto em Berlim rendeu ao brasileiro reconhecimento da Federação Internacional de Atletismo e menção especial dos organizadores da prova alemã. Silva terminou com 2h51min, mais de 13 minutos acima de seu objetivo inicial, mas sua imagem carregando Kiprotich foi reproduzida por veículos esportivos de 15 países. O queniano, posteriormente, declarou que "sem a ajuda do brasileiro, não teria completado a prova".

Tradição se consolida no circuito mundial

Entre os dois casos mais conhecidos, o atletismo brasileiro registrou ao menos outros três gestos similares em competições internacionais menores. Em 2020, durante a Maratona de Buenos Aires, a paulista Ana Carolina Ferraz parou para socorrer uma corredora argentina que sofreu câimbras intensas no quilômetro 35. O caso ganhou destaque na imprensa sul-americana, embora com menor repercussão que os episódios de Boston e Berlim.

Segundo levantamento do SportNavo junto a organizadores de grandes maratonas, brasileiros estão entre as cinco nacionalidades que mais registram gestos de fair play em provas de 42 quilômetros. A estatística considera dados das seis maratonas majors (Boston, Nova York, Chicago, Londres, Berlim e Tóquio) entre 2015 e 2024. Norte-americanos lideram o ranking, seguidos por britânicos, japoneses, brasileiros e alemães.

Impacto vai além das pistas de corrida

A tradição brasileira de solidariedade em maratonas reflete características culturais mais amplas, segundo análise de especialistas em psicologia esportiva. O professor Roberto Machado, da Universidade de São Paulo, que estuda comportamento em competições de resistência, explica que "atletas brasileiros tendem a priorizar a conclusão coletiva sobre a performance individual em situações extremas".

Os três casos viralizados envolvendo brasileiros geraram impacto significativo nas redes sociais. O vídeo de Robson em Boston acumulou mais de 2 milhões de visualizações em 48 horas, com 340 mil compartilhamentos. O episódio de Marcus Vinícius em Berlim mantém recorde de engajamento para conteúdo de atletismo brasileiro, com 4,2 milhões de views ao longo de seis anos.

"Se ele não tivesse me ajudado, aquele teria sido o seu melhor tempo na maratona", reconheceu Haridasse após receber alta médica

Robson Oliveira volta aos treinos na próxima semana, com foco na Maratona de São Paulo em maio, onde tentará quebrar a barreira das 2h40min que persegue há três anos. O brasileiro trabalha em turnos revezados numa metalúrgica para conciliar com os treinos, mantendo rotina de 80 quilômetros semanais desde 2019, quando completou sua primeira maratona na capital paulista.