"Vamos trabalhar e tentar ganhar a Copa do Mundo. Com honra, vamos representar um país fantástico, muito grande, mas é um trabalho para fazer o melhor." A frase é de Carlo Ancelotti, e ela diz muito sobre o tom que o técnico italiano quer imprimir à campanha brasileira. Nenhum oba-oba, nenhuma festa antecipada — só trabalho. O problema é que o Grupo C da Copa do Mundo de 2026 não chegou para facilitar a tarefa.

O grupo que mistura história e surpresa

Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti. À primeira vista, parece um grupo administrável para uma seleção que busca o hexacampeonato. Mas o histórico de cada confronto conta uma história mais complexa do que o ranking FIFA sugere. Os três adversários têm características radicalmente distintas entre si — e pelo menos dois deles já deixaram marcas relevantes no futebol mundial recente.

O grupo que mistura história e surpresa Brasil já enfrentou Marrocos e Escócia a
O grupo que mistura história e surpresa Brasil já enfrentou Marrocos e Escócia a

O torneio será disputado entre 11 de junho e 19 de julho, com jogos espalhados por Estados Unidos, México e Canadá. O Brasil estreia no dia 13 de junho contra Marrocos, em Nova Jersey, e segue com Haiti no dia 19 de junho, às 21h30 (horário de Brasília).

Marrocos em 1998 e o que mudou em quase 30 anos

O único confronto oficial entre Brasil e Marrocos em Copas do Mundo aconteceu em 1998, na fase de grupos. A seleção canarinho venceu por 3 a 0, com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto — um time que viria a ser vice-campeão naquele torneio. Mas o Marrocos de 2026 não tem nada a ver com aquele de 1998.

Os marroquinos foram a grande revelação da Copa de 2022 no Catar, tornando-se a primeira seleção africana a chegar às semifinais de um Mundial. Eliminaram Portugal e Espanha pelo caminho, e só foram parar diante da França, que venceu por 2 a 0. Aquela campanha histórica não foi fluke — foi construída sobre uma geração de jogadores formados em ligas europeias de alto nível, com identidade tática clara e capacidade de pressionar adversários mais badalados.

Quando o Brasil entrar em campo no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não estará diante de uma seleção que se contenta em se defender. O confronto do dia 13 de junho tem tudo para ser o jogo mais difícil do grupo.

Escócia e Haiti em perspectiva histórica

Quando se fala em Escócia e Copa do Mundo, o dado mais relevante é a ausência: os escoceses não disputavam um Mundial desde 1998, na França, quando foram eliminados na fase de grupos após derrota para o Marrocos — curiosamente, o mesmo adversário do Grupo C de 2026. A seleção britânica nunca passou da primeira fase em nenhuma de suas oito participações históricas no torneio, e o Brasil nunca a enfrentou em fase de grupos.

Quando enfrenta adversários europeus organizados taticamente, o Brasil historicamente sofre mais do que os resultados finais sugerem — a eliminação para a Croácia nas quartas de final de 2022, nos pênaltis, é o exemplo mais recente e doloroso.

Já o Haiti representa a estreia histórica do país caribenho em uma Copa do Mundo desde 1974, quando participou do torneio na Alemanha Ocidental e foi eliminado na fase de grupos, sofrendo 14 gols em três jogos. Brasil e Haiti nunca se enfrentaram em uma fase final de Mundial, o que torna o confronto do dia 19 de junho inédito nas páginas da história verde e amarela.

A geração que carrega o peso do hexacampeonato

O Brasil chega à Copa de 2026 após um ciclo marcado por instabilidade na comissão técnica: quatro treinadores em quatro anos — Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e, finalmente, Ancelotti. Essa rotatividade deixou marcas na construção de identidade tática da equipe.

Neymar, convocado apesar de um histórico recente de lesões graves e baixo rendimento, não é mais o mesmo jogador de 2022. A seleção que entra em campo em Nova Jersey no dia 13 será, na prática, uma equipe centrada em Vinicius Júnior, do Real Madrid, com Raphinha, do Barcelona, e Endrick, do Lyon, como protagonistas complementares. Ancelotti deve escalar um 4-2-4 com linha defensiva mais estática e quarteto ofensivo de alta mobilidade — um esquema que maximiza a qualidade técnica dos atacantes, mas que exige disciplina dos laterais para não expor a defesa.

A delegação brasileira está instalada no The Ridge Hotel, em Basking Ridge, Nova Jersey, com acesso bloqueado a torcedores e imprensa. O CT do New York Red Bull, recém-reformado, também recebeu tapumes para evitar espionagem tática. Em matéria do SportNavo, o modelo de preparação fechada adotado por Ancelotti foi descrito como o mais próximo do rigor europeu que a CBF já implementou em uma Copa do Mundo.

"A ideia que temos é que não vamos há uma festa. Vamos trabalhar e tentar ganhar a Copa do Mundo."
— Carlo Ancelotti, em entrevista ao Prime Vídeo

O Brasil faz o último amistoso antes do torneio contra o Egito no dia 6 de junho, às 19h (horário de Brasília), em Cleveland — um teste relevante contra uma seleção africana de nível intermediário que pode dar pistas sobre como Ancelotti vai posicionar a equipe diante do Marrocos. Em 13 de junho saberemos se o histórico de 3 a 0 de 1998 ainda tem algum valor prático — ou se ficou apenas como nota de rodapé.