Diz-se que o brasileiro para tudo quando a Seleção joga. Os dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) confirmam a lenda — e com precisão cirúrgica. No primeiro tempo do empate de 1 a 1 entre Brasil e Marrocos, disputado no sábado, 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o consumo de energia elétrica no país despencou 5.500 megawatts. O país, literalmente, apagou. O problema é que o time também.
O Brasil parou — a luz e o jogo
O ONS montou uma operação especial de monitoramento para acompanhar o impacto das partidas da Copa do Mundo na rede elétrica nacional. A queda de 5.500 MW no Sistema Interligado Nacional durante os 45 mineiros iniciais contra o Marrocos representa um dos maiores recuos pontuais de demanda registrados em um sábado à noite no país. Para contextualizar a magnitude: é como se toda uma grande região metropolitana tivesse desligado simultaneamente suas indústrias, comércios e boa parte dos lares.
No intervalo, às 19h55, o efeito inverteu com força equivalente. Em apenas 8 minutos, a demanda cresceu 2.800 MW — exatamente o consumo médio do Goiás, o estado inteiro, em condições normais. Geladeiras reabertas, micro-ondas acionados, chuveiros ligados, torneiras girando: a infraestrutura elétrica brasileira precisou absorver, em menos de dez minutos, o equivalente a um estado completo acordando de repente.
Com o apito final, às 21h05, um novo salto de 4.300 MW em 20 minutos foi registrado — desta vez comparável à demanda média do Rio Grande do Sul. Por volta das 21h40, a carga havia retornado ao comportamento típico de um sábado comum.
"Estamos preparados para os próximos desafios da seleção, assim como os principais jogos, como a final, no dia 19 de julho. O ONS trabalha para monitorar o comportamento da carga e adotará todas as medidas necessárias para que os brasileiros possam torcer com a confiança de que o fornecimento de energia estará garantido", afirmou Marcio Rea, diretor-geral do ONS.
Uma tradição que vai além do futebol brasileiro
O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele assume proporções que nenhum outro país consegue replicar. O que para o argentino é um pico discreto de consumo no intervalo — o mate esquentado, o assado retomado —, para o brasileiro é uma avalanche sistêmica que obriga o operador elétrico nacional a montar salas de crise específicas para cada jogo da Seleção. A Copa de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos, já registrava oscilações de demanda perceptíveis nos relatórios da época, muito antes de existir um ONS estruturado para medir com a precisão atual. Em 2002, durante a madrugada do Brasil campeão no Japão, os registros de consumo noturno apresentaram variações anômalas que só foram compreendidas à luz dos dados de audiência televisiva. Em 2026, o sistema monitora isso em tempo real, megawatt por megawatt.
A dimensão do fenômeno, registrada pelo SportNavo a partir dos dados oficiais do ONS, revela algo que vai além da curiosidade estatística: o Brasil não tem um evento cultural comparável em capacidade de paralisar simultaneamente 215 milhões de pessoas. Nem carnaval, nem eleições, nem réveillon produzem quedas tão abruptas e tão sincronizadas no consumo elétrico.
Quem saiu perdendo enquanto a luz apagava
O problema é que, enquanto o país parava para assistir, o que se viu em campo não justificou a devoção. O Marrocos dominou os dez minutos iniciais com duas finalizações, e a vantagem africana foi concretizada aos 21 minutos: em um lançamento em profundidade, Gabriel Magalhães falhou na interceptação e deixou Saibari livre para superar Alisson. O empate veio aos 32 minutos, num lampejo individual de Vinicius Jr., que Bruno Guimarães aproveitou para marcar — não por construção coletiva, mas apesar da ausência dela.
O jornalista Mauro Cezar Pereira, no programa "Posse de Bola" do UOL Esportes, não deixou margem para interpretações amenas ao avaliar o trabalho de Carlo Ancelotti:
"O trabalho do Carlo Ancelotti é ruim demais. Depois de um ano e alguns meses no comando, o Brasil não tem rigorosamente nada. Zero. Não tem nada que você possa falar, não o setor tal do time funciona. Alguma qualidade que você possa destacar do ponto de vista coletivo."
Mauro Cezar foi ainda mais preciso ao identificar a dependência individual como única saída da Seleção:
"Você vai viver do que ali? Vai viver de qualidades individuais, lampejos — e foi por conta de um lampejo, de um momento individual do Vini Jr, que o Brasil escapou de uma derrota que, aquele gol veio numa hora salvadora. Quando a equipe brasileira era dominada, perdia e parecia estar mais próximo de sofrer um segundo gol do que marcar."
O efeito cascata no Grupo C e o que vem pela frente
A história da Seleção Brasileira em Copas do Mundo está repleta de estreias tropicadas que não impediram conquistas. Em 1978, o Brasil empatou com a Suécia em 1 a 1 na estreia e terminou em terceiro lugar. Em 1982, venceu todos os jogos da fase de grupos e caiu para a Itália nas oitavas — 3 a 2, num jogo que ainda hoje divide gerações de torcedores. O empate com o Marrocos, portanto, não encerra nada matematicamente. O Brasil segue no Grupo C com um ponto, precisando reagir nas próximas rodadas para garantir a classificação com folga.
Paquetá, escalado pela direita, acumulou erros nas saídas de bola durante o primeiro tempo e dificultou a construção ofensiva. A dupla Igor Thiago e Raphinha centralizada nunca encontrou espaços reais. O esquema de Ancelotti, que apostou em intensidade individual em vez de pressão coletiva estruturada, foi exposto por um Marrocos que chegou à Copa do Mundo 2026 como uma das seleções africanas mais organizadas taticamente das últimas duas décadas — revelação confirmada desde a semifinal do Qatar em 2022.
A próxima partida do Brasil na Copa do Mundo acontece na quarta-feira, 18 de junho, contra a seleção adversária da rodada seguinte do Grupo C. Ancelotti precisará responder a uma questão que 5.500 MW de silêncio nacional tornaram mais urgente: um time que para o país inteiro merece mais do que lampejos.












