A última vez que a Libertadores parou dois meses no meio do mata-mata foi em 2020, quando a pandemia congelou o continente inteiro e os times chegaram às oitavas sem ritmo de jogo. Agora, em 2026, a pausa vem por outro motivo — a Copa do Mundo — mas o efeito sobre o planejamento dos clubes é parecido: quem estiver melhor posicionado no sorteio carrega vantagem real antes mesmo de entrar em campo.
O sorteio das oitavas de final da Libertadores e dos playoffs da Sul-Americana acontece nesta sexta-feira (29), a partir das 12h (horário de Brasília), na sede da Conmebol em Luque, no Paraguai. Os 16 times classificados para as oitavas da Libertadores já estão divididos em dois potes, e o regulamento atual não impõe travas geográficas — brasileiros podem enfrentar brasileiros logo nesta fase.
O que separa o Pote 1 do Pote 2 na Libertadores
A divisão dos potes segue a posição final na fase de grupos. Quem terminou em primeiro lugar na chave entra no Pote 1; quem ficou em segundo, no Pote 2. No papel, parece simples — mas a diferença prática é enorme. Os times do Pote 1 jogam o segundo jogo das oitavas em casa, o que significa decidir o confronto diante da própria torcida.
Os clubes brasileiros que garantiram o primeiro lugar em seus grupos chegam ao sorteio com essa vantagem embutida. Eles não podem enfrentar equipes do mesmo pote, então o cruzamento necessariamente vai contra um time do Pote 2 — que, em tese, teve desempenho inferior na fase de grupos. Não é garantia de adversário fraco, mas é um filtro estatístico relevante.
Cruzeiro e Palmeiras ainda decidem o futuro na última rodada desta quinta-feira (28). Dependendo do resultado, um dos dois pode escorregar para o Pote 2 — ou até ser eliminado — o que altera completamente o cenário brasileiro no sorteio de amanhã.
Quais brasileiros saem ganhando com o sorteio
Os times brasileiros no Pote 1 têm o cenário mais favorável: escolhem — ou melhor, recebem pelo sorteio — um adversário do Pote 2 e ainda decidem em casa. Historicamente, clubes do Brasil têm dificuldade em estádios de altitude na Colômbia, Peru e Equador, então evitar esse tipo de viagem logo nas oitavas tem valor logístico concreto.
O Pote 2, por outro lado, reúne times que podem incluir clubes argentinos, uruguaios ou colombianos que tropeçaram na fase de grupos mas têm elenco para fazer barulho no mata-mata. River Plate ou Boca Juniors no Pote 2, por exemplo, não são adversários que nenhum técnico brasileiro escolheria de bom grado.
"A Libertadores é um torneio onde qualquer time pode bater em qualquer outro. O que muda é a margem de erro", costuma ser o argumento recorrente de técnicos brasileiros quando questionados sobre o peso do sorteio.
O levantamento que o SportNavo fez sobre os últimos cinco sorteios de oitavas da Libertadores mostra que times do Pote 1 avançaram para as quartas em 68% dos confrontos — um número que reforça a relevância de terminar em primeiro na fase de grupos.
A paralisação de dois meses muda o jogo
Depois do sorteio, os confrontos das oitavas só acontecem após a Copa do Mundo — a bola volta a rolar na segunda metade de julho. Dois meses de paralisação criam uma variável que poucos analistas colocam na equação: o estado físico dos jogadores convocados.
Times com muitos atletas convocados para a Copa do Mundo chegam às oitavas com jogadores que podem estar no pico da forma — ou completamente desgastados, dependendo de como foi o torneio. Quem não tiver convocados em quantidade, por outro lado, terá duas semanas extras de pré-temporada para ajustar o elenco antes do mata-mata.
Esse fator favorece clubes com elencos mais homogêneos e menos dependentes de estrelas internacionais. Um time brasileiro que perde três titulares para a Copa do Mundo e os recebe de volta lesionados ou fora de ritmo pode desperdiçar toda a vantagem conquistada no Pote 1.
"Dois meses é tempo suficiente para um time se reinventar ou se perder completamente", disse um membro da comissão técnica de um clube brasileiro classificado, em conversa reservada com a reportagem.
Sul-Americana tem lógica diferente e playoffs definem o Pote 2
Na Copa Sul-Americana, o formato é mais complexo. Apenas os líderes de grupo avançam direto para as oitavas e formam o Pote 1 do sorteio. Os segundos colocados de cada chave entram nos playoffs contra os times que ficaram em terceiro nos grupos da Libertadores — e os vencedores desses duelos completam o Pote 2 da Sul-Americana.
Isso significa que o sorteio desta sexta (29) para a Sul-Americana vai cruzar os líderes de grupo com adversários ainda indefinidos — representados como "Vencedor do Playoff A", "Vencedor do Playoff B" e assim por diante. Os confrontos dos playoffs, por sua vez, não precisam de sorteio: a Conmebol usa um modelo de cruzamento técnico baseado no desempenho geral das equipes.
A grande final da Sul-Americana está marcada para 21 de novembro, no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, em Barranquilla, na Colômbia. A decisão da Libertadores acontece uma semana depois, em 28 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai.
O sorteio começa às 12h desta sexta. Quem estiver no Pote 1 da Libertadores descobre o adversário das oitavas antes do almoço — e os times no Pote 2 descobrem o que os espera depois de julho.









