Diz-se que o futebol feminino brasileiro ainda carece de uma base estruturada, que os clubes investem apenas na vitrine do time principal. O Flamengo passou a última sexta-feira (29) contradizendo essa narrativa ponto a ponto — e o placar de 2 a 1 sobre o São Paulo, no Estádio Luso-Brasileiro, no Rio de Janeiro, é apenas a superfície de algo construído ao longo de anos.
O resultado consumou o bicampeonato consecutivo e o terceiro título em quatro edições do Brasileirão Feminino Sub-20. O Flamengo havia vencido a edição de 2024 diante do Botafogo, perdido a final de 2025 para o mesmo rival carioca e, agora, retomou a taça eliminando exatamente o clube que o havia superado no ano anterior — o São Paulo, que também foi derrotado no jogo de ida por 1 a 0, em território paulista.
Como o número 13 resume a hegemonia rubro-negra
Treze. Esse foi o número de gols marcados por Brendha na competição, artilheira isolada do torneio. O dado não é apenas individual — ele traduz o modelo de jogo construído pela comissão técnica do Flamengo, que posiciona a centroavante como referência de área dentro de um sistema que privilegia a saída rápida de bola e a profundidade pelas alas. Anna Luiza e Kaylane, que participaram diretamente dos lances mais importantes da final, são peças desse mesmo sistema.

A partida em si foi um retrato fiel dessa organização. Aos 48 minutos do primeiro tempo, após o São Paulo errar na saída de bola, Anna Luiza finalizou de primeira em toque de cobertura para abrir o marcador. O segundo gol veio aos 18 minutos da etapa complementar, em pênalti sofrido pela própria Brendha e convertido por ela — o décimo terceiro na campanha. Vitorinha descontou para o São Paulo aos 49 minutos, mas o título já estava encaminhado desde o apito final do jogo de ida.
"Quando você vê uma menina de 17 anos bater pênalti em final com aquela frieza, você sabe que o trabalho de base está sendo feito com seriedade. Isso não aparece do nada", disse uma treinadora de categorias de base presente nas arquibancadas do Luso-Brasileiro.
A estrutura que o Flamengo montou para chegar até aqui
O tricampeonato em quatro edições não é produto de sorte de calendário ou de um grupo excepcionalmente talentoso que surgiu ao acaso. O Flamengo investiu de forma consistente na estrutura de captação do futebol feminino de base, utilizando o Ninho do Urubu como centro de treinamento para as categorias jovens, com metodologia integrada entre Sub-17 e Sub-20. A lógica é semelhante à adotada no masculino: identificar jogadoras nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e do interior fluminense, trazê-las para o regime de treinamento diário e submetê-las a uma grade técnica e física compatível com o nível nacional.
O resultado prático aparece nos números da campanha de 2026. Além dos 13 gols de Brendha, o time rubro-negro chegou à final com um dos melhores aproveitamentos do torneio, construindo vantagem no jogo de ida antes de selar o título em casa. A capacidade de controlar partidas mesmo com gols anulados pelo VAR — três lances revisados apenas na decisão — revela maturidade tática incomum para atletas nessa faixa etária.
O contraste com outros clubes tradicionais do futebol brasileiro é perceptível. Enquanto São Paulo e Botafogo chegaram às finais recentes com elencos competitivos, nenhum deles conseguiu manter a regularidade do Flamengo ao longo das quatro edições da competição. O São Paulo foi vice em 2026 após uma campanha sólida, mas ainda não apresentou a mesma profundidade de elenco que o clube carioca demonstra rodada após rodada.
O que esse título projeta para o futebol feminino do clube
A questão mais relevante, a partir daqui, não é apenas celebrar o bicampeonato, mas entender o que ele significa como pipeline para o time adulto. Historicamente, clubes que investem em base feminina com consistência começam a colher resultados na elite em janelas de três a cinco anos. O Flamengo, que já possui equipe feminina na Série A1 do Brasileirão adulto, tem agora um reservatório de atletas formadas dentro da própria metodologia do clube.
Brendha, artilheira do Sub-20 com 13 gols na campanha, e Anna Luiza, decisiva nas duas partidas da final, são nomes que tendem a integrar as discussões do departamento de futebol feminino adulto nos próximos meses. O modelo de aproveitamento interno — em vez de buscar jogadoras formadas por outros clubes — é exatamente o que diferencia projetos sustentáveis de campanhas pontuais, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura do torneio.
O Flamengo volta a campo pelo Brasileirão Feminino adulto ainda em junho, quando a Série A1 retoma sua grade após a janela de competições de base. Para as jogadoras do Sub-20, o próximo passo natural é a integração com os treinos do elenco principal — um processo que, à luz do terceiro título em quatro anos, o clube tem todas as razões para acelerar.










