Se Bruno Fernandes tivesse atuado ontem à noite em vez de domingo, a conversa já seria outra. Com 19 assistências na Premier League 2025/26, o meia do Manchester United chegou ao confronto contra o Nottingham Forest a exatos um passe de igualar o recorde absoluto de assistências numa única temporada da competição. A marca pertence a Thierry Henry, que distribuiu 20 assistências pelo Arsenal na temporada 2002/03 — e ficou lá, intocada, por mais de duas décadas.

O número que ninguém alcançou em 23 anos

Thierry Henry em 2002/03 era um fenômeno dentro de um Arsenal que Arsène Wenger havia transformado num laboratório de futebol total. Aquele time terminou a temporada com 78 pontos, 85 gols marcados e um saldo de gols de +47 — números que, à época, soavam como anomalia na Premier League. Henry não era apenas o artilheiro: era o arquiteto. Vinte assistências numa única temporada equivale, em termos de impacto, a algo como a distância entre Recife e São Luís — parece próximo no mapa, mas é um abismo quando você tenta percorrê-lo a pé. Nenhum jogador chegou sequer a 19 nos anos subsequentes. Até Fernandes, nesta temporada, chegar a esse número com uma rodada ainda por disputar.

O United vinha de uma sequência de 23 jogos consecutivos marcando na Premier League antes de ser travado pelo goleiro Robin Roefs no empate sem gols em Sunderland. A seca interrompeu o ritmo de Fernandes, que não conseguiu acrescentar nada ao seu total de 19 contribuições decisivas. Agora, com Old Trafford como cenário do último jogo em casa da temporada, a oportunidade histórica se apresenta novamente — e o português sabe que o relógio está correndo.

Fernandes como motor de uma temporada improvável

Há algo de 1999 neste United de Michael Carrick — não pela grandiosidade, mas pelo caráter de improviso bem-sucedido. Carrick assumiu como interino e, em 15 partidas, perdeu apenas duas vezes. O United está na terceira posição da tabela, com vaga garantida na Champions League da próxima temporada. Num clube que passou boa parte da última década tentando se reencontrar com sua identidade europeia, isso não é pouco. E Fernandes é o fio condutor dessa recuperação: 19 assistências numa temporada é o tipo de número que, nos anos 90, teria colocado qualquer jogador na conversa do Bola de Ouro sem maiores discussões.

Para contextualizar: na temporada 1994/95, quando Eric Cantona era o maestro de Ferguson, o United inteiro somou 77 assistências em todas as competições. A ideia de que um único jogador poderia acumular 20 assistências apenas na liga doméstica seria considerada ficção científica. O futebol evoluiu, os sistemas táticos se sofisticaram e o papel do meia-atacante se expandiu — mas o recorde de Henry resistiu a tudo isso por 23 anos. Que um português de 31 anos, num United em transição, esteja na iminência de quebrá-lo diz muito sobre a singularidade desta temporada.

O Forest que chega a Old Trafford sem medo

Do outro lado, o Nottingham Forest de Vitor Pereira chega a Manchester numa condição que poucos esperavam no início do ano. A equipe está há oito jogos invicta na Premier League — a maior sequência do clube desde a temporada 1995/96, quando o Forest ainda navegava nos ecos da era Brian Clough. Nos últimos três deslocamentos na liga, o time marcou 11 gols e sofreu apenas 1. Na última rodada, Elliot Anderson salvou o empate em 1 a 1 contra o Newcastle com um gol de qualidade técnica incomum.

O histórico recente entre os clubes também pesa: o Forest venceu por 3 a 2 em Old Trafford na temporada passada, e o United não ganhou nenhum dos três últimos confrontos diretos entre as equipes. Matematicamente salvo do rebaixamento, com sete pontos de vantagem sobre o 18º colocado West Ham, o Forest joga sem a pressão que costuma paralisar equipes nesta fase do calendário. Vitor Pereira construiu algo sólido em pouco tempo — e o próprio técnico português tem reforçado, em suas coletivas, que o objetivo é terminar a temporada com a mesma intensidade com que ela foi conduzida.

O que está em jogo além dos três pontos

Há uma dimensão quase simbólica neste confronto que vai além da tabela. O United encerra sua campanha em Old Trafford numa tarde em que um único passe de Bruno Fernandes pode inscrever seu nome ao lado de Henry — o mesmo Henry que, em 2003/04, fez parte do Arsenal dos Invencíveis, time que terminou a temporada com 90 pontos e zero derrotas. Ciclos diferentes, contextos opostos, mas a mesma Premier League como palco.

Carrick, que ainda busca convencer a diretoria a mantê-lo no cargo de forma permanente, sabe que uma vitória com assistência histórica de Fernandes seria o tipo de imagem que fecha argumentos. O United joga às 16h (horário de Brasília) deste domingo em Old Trafford, num estádio que perdeu apenas um dos últimos 18 jogos finais de temporada em casa na era da Premier League.

O número que ninguém alcançou em 23 anos Bruno Fernandes está a um passe de rees
O número que ninguém alcançou em 23 anos Bruno Fernandes está a um passe de rees
Segundo Vitor Pereira, o Forest quer terminar a temporada com a mesma intensidade que a conduziu — e o técnico português deixou claro que não há motivo para poupar jogadores neste momento.

Se Fernandes converter a assistência número 20, Henry terá um companheiro de recorde — e a Premier League terá sua primeira marca histórica de assistências igualada em 23 anos. Bruno Fernandes a um passe da eternidade.