Marcus Almeida chegou ao UFC carregando uma bagagem impressionante: bicampeão do ADCC, 13 títulos mundiais de jiu-jitsu na faixa-preta e status de maior vencedor da história da arte suave, reconhecido pelo Guinness Book. No entanto, essa trajetória vitoriosa no tatame não se traduziu imediatamente em sucesso no octógono. Após duas lutas sem vitórias no Ultimate - uma derrota para Martin Buday e um empate contra Kennedy Nzechukwu -, o peso-pesado de 34 anos reconhece que a autocobrança excessiva tem sido seu maior obstáculo.

O peso da expectativa no octógono mais famoso do mundo

A transição do ONE Championship para o UFC trouxe pressões que Buchecha não havia experimentado antes. Em entrevista à Ag Fight, o brasileiro revelou como a mentalidade de ter que provar seu valor na nova casa afetou diretamente sua performance. O lutador, que construiu sua reputação através de finalizações espetaculares no jiu-jitsu, sentiu-se obrigado a repetir essa fórmula no MMA, criando um bloqueio mental que comprometeu sua naturalidade dentro do octógono.

"Entrei com essa obrigação que eu tenho que pegar (finalizar), algo que nunca tive. A gente chega (no UFC) achando que tem obrigação de fazer, provar que merece estar ali. Mas é um peso que coloquei nas minhas próprias costas que não precisava"

A primeira luta de Buchecha no UFC aconteceu em julho de 2024, contra Martin Buday, onde sofreu sua primeira derrota na organização. O eslovaco, que possuía um cartel de 12-1 na época, utilizou sua experiência no MMA para superar o brasileiro. Cinco meses depois, em dezembro, Buchecha enfrentou Kennedy Nzechukwu e conseguiu um empate, resultado que manteve sua busca pela primeira vitória no Ultimate.

Comparação com outros ícones do jiu-jitsu no MMA

A trajetória de Buchecha no UFC ecoa as dificuldades enfrentadas por outros grandes nomes do jiu-jitsu que migraram para o MMA. Ronaldo Jacaré, por exemplo, precisou de tempo para se adaptar completamente ao octógono antes de alcançar o top 5 dos meio-médios. Demian Maia, outro ícone da arte suave, também passou por um período de ajustes antes de se tornar um dos principais lutadores da categoria dos meio-médios do UFC durante quase uma década.

Segundo apuração do SportNavo, a pressão sobre lutadores de jiu-jitsu no UFC é amplificada pela expectativa de que reproduzam no MMA o mesmo domínio que exerciam nos tatames. Buchecha admite que essa cobrança interna o impediu de lutar com a naturalidade que o caracterizou durante seus 13 títulos mundiais no jiu-jitsu, entre 2012 e 2019.

Mudança de mentalidade e preparação para Ryan Spann

Para seu próximo compromisso, marcado para o UFC Vegas 116 em 25 de janeiro, Buchecha promete uma abordagem completamente diferente. O adversário será Ryan Spann, experiente meio-pesado com 22-9 no cartel, que recentemente subiu de categoria. O americano vem de uma vitória sobre Ovince Saint Preux em setembro de 2024, demonstrando boa forma física aos 33 anos.

"Isso me travou demais. Não lutei feliz, lutei com uma obrigação nas minhas costas. No fim das contas eu pensei: 'Quer saber? Não devo nada a ninguém'. A única pessoa que tenho que provar algo sou eu mesmo"

A mudança de mentalidade representa um retorno às origens para Buchecha, que construiu sua lenda no jiu-jitsu com uma abordagem mais livre e instintiva. Durante seu período dourado na arte suave, entre 2012 e 2019, o brasileiro demonstrava uma naturalidade que o tornava praticamente imbatível nos campeonatos mais importantes do mundo, incluindo cinco títulos do ADCC em diferentes categorias de peso.

O futuro de um ícone em busca da redenção

Aos 34 anos, Buchecha encara um momento decisivo em sua carreira no MMA. Com um cartel de 0-1-1 no UFC, o brasileiro sabe que precisa conquistar sua primeira vitória para validar sua transição e manter vivas as esperanças de um dia disputar o cinturão dos pesos-pesados. A categoria, atualmente dominada por Jon Jones, oferece oportunidades para lutadores com características únicas, especialmente aqueles com background sólido no grappling.

A luta contra Ryan Spann acontece neste sábado (25), no UFC Apex, em Las Vegas, como parte do card do UFC Vegas 116. Para Buchecha, representa mais que uma busca pela primeira vitória - é a chance de provar que a pressão não define mais suas performances dentro do octógono.