Uma parceria começa num vestiário do Camp Nou, em 2009, quando Barcelona ainda era sinônimo de futebol total e Pep Guardiola ensaiava seus primeiros meses como treinador de elite. Lorenzo Buenaventura entra pela porta, assume a preparação física do elenco e, nos 17 anos seguintes, não sai do lado do catalão em nenhum momento — Barcelona, Bayern de Munique, Manchester City. Agora, segundo o The Athletic, Buenaventura está de saída do clube inglês. E quem conhece a estrutura interna do Etihad Stadium diz que é difícil imaginar Guardiola seguindo sem ele.

O que a saída de Buenaventura revela sobre o presente do City

Guardiola e Buenaventura construíram juntos algo raro no futebol moderno: uma metodologia de preparação física integrada ao modelo tático, não subordinada a ele. No Barcelona entre 2009 e 2012, o time terminou duas temporadas com mais de 90 pontos na La Liga — um patamar que, para efeito de comparação, só seis clubes ingleses alcançaram em toda a história da Premier League. Aquele nível de rendimento físico não era acidente; era Buenaventura calibrando cargas enquanto Guardiola desenhava a pressão alta. Quando os dois chegaram ao Bayern em 2013, reproduziram a fórmula: 90 pontos na Bundesliga na primeira temporada, recorde histórico do clube até então.

Bournemouth - Manchester City

A saída simultânea de Buenaventura e do preparador de goleiros Xabi Mancisidor — dois profissionais de longa data no clube — cria um vácuo que vai além do orgânico. Segundo o The Athletic, diversas fontes em diferentes departamentos do City esperam a saída de Guardiola, embora o próprio técnico esteja, nas palavras da publicação, "de bom humor e profundamente motivado pela maneira como seu jovem time está terminando a temporada".

"Quem conhece a estrutura do City diz ser difícil imaginar Guardiola continuando a trabalhar no clube sem Buenaventura, o que significa que a saída do preparador físico pode ser facilmente interpretada como mais um sinal de que está prestes a haver uma mudança de treinador", escreveu o The Athletic.

Há um padrão histórico aqui que o SportNavo já mapeou em outras transições de grandes ciclos europeus. Quando Marcelo Bielsa deixou o Athletic Bilbao em 2013, os primeiros a pedir transferência foram membros da comissão técnica, não jogadores. Quando Mourinho se despediu do Real Madrid naquele mesmo ano, o sinal veio pelo comportamento dos auxiliares nos treinos. A saída de Buenaventura tem a mesma textura dessas despedidas anunciadas em surdina.

Guardiola entre o contrato e a dúvida que não cala

O técnico tem contrato com o City até meados de 2027, e não perde oportunidade de lembrar isso quando pressionado. Em março deste ano, após a eliminação nas oitavas de final da Champions League para o Real Madrid, Guardiola reagiu com irritação visível às perguntas sobre o futuro.

"Ah, todo mundo quer me demitir, né?! Meu Deus! Um dia eu vou chegar aqui e dizer: 'Tchau, pessoal!' E ainda estou aqui, com mais um ano de contrato. O futuro será brilhante e na próxima temporada estaremos de volta", disse o treinador após o confronto com o Real Madrid.

A declaração tem duas camadas. A primeira é defensiva — o técnico rejeitando a narrativa de colapso. A segunda é, involuntariamente, uma promessa com prazo: "na próxima temporada", não "nas próximas temporadas". Guardiola — 55 anos, seis títulos da Premier League em oito temporadas no City, número que nenhum treinador inglês acumulou em período equivalente desde a era pré-Premier League — fala como alguém que ainda tem energia, mas não como alguém que projeta uma terceira década no mesmo clube.

O contexto institucional complica ainda mais a equação. O City enfrenta a possível perda de pontos por violações do Fair Play Financeiro — um processo que arrasta a imagem do clube há anos e que, independentemente do desfecho jurídico, cria um ambiente de instabilidade difícil de ignorar. Guardiola construiu sua trajetória em clubes com estabilidade institucional: o Barcelona de Laporta e Rosell, o Bayern de Rummenigge. Um City em litígio permanente é um ambiente diferente daquele que o atraiu em 2016.

O City já se move para o cenário sem Guardiola

Enquanto o técnico cita o contrato como âncora, o clube age com a pragmaticidade de quem já começou a virar a página. De acordo com o The Athletic, a diretoria iniciou conversas com potenciais substitutos — um movimento que, em si, não é incomum no futebol moderno, mas que ganha outro peso quando combinado com a debandada da comissão técnica.

Há um precedente iluminador na história recente da Premier League. Quando Arsène Wenger deixou o Arsenal em 2018 — depois de 22 anos e três títulos ingleses —, o clube já havia mapeado substitutos com 18 meses de antecedência. O processo foi discreto, mas os sinais estavam lá: auxiliares históricos saindo, renovações contratuais adiadas, uma certa frieza nos comunicados oficiais. O City de 2026 tem a mesma temperatura.

O time, no entanto, ainda está vivo na disputa pelo título da Premier League nesta temporada e, no último sábado, dia 17 de maio, conquistou a Copa da Inglaterra ao bater o Chelsea — o que significa que Guardiola pode encerrar seu ciclo no Etihad com um troféu na mão, exatamente como Wenger fez no Emirates em 2005. Seria um encerramento com a dignidade que o trabalho merece.

A decisão final sobre a permanência ou saída de Guardiola deve se tornar pública nas semanas seguintes ao encerramento da Premier League 2025/2026, previsto para o final de maio. Se o City confirmar a saída do técnico, a temporada seguinte começará sob um novo comando — e com a missão de sustentar um legado construído sobre 17 anos de parceria entre um treinador e um preparador físico que, pela primeira vez em muito tempo, não estarão mais no mesmo vestiário.