O set point estava no placar. Tom Jarvis, número 66 do mundo e melhor raquete britânico, servia para fechar a terceira parcial e complicar de vez a missão brasileira. Então Hugo Calderano, quinto do ranking ITTF, devolveu a bola com precisão cirúrgica, anulou o ponto e virou o set. O Brasil venceu a anfitriã Inglaterra por 3 a 2 nesta quarta-feira (6) e está nas quartas de final do Campeonato Mundial de Tênis de Mesa por Equipes.

A decisão tática que mudou o duelo contra a Inglaterra

O técnico Fernando Shigetomi tomou uma decisão que, na teoria, parecia arriscada. Escalou Calderano como raquete 2, não como raquete 1. O raciocínio era claro: forçar o encontro imediato entre o brasileiro e Jarvis, o britânico mais bem ranqueado, logo na abertura do confronto eliminatório. Guilherme Teodoro (144º do mundo) entrou como raquete 1, e Leonardo Iizuka (125º) como terceiro raquete.

A diferença de ranking entre Calderano e Jarvis — 5º contra 66º — é numericamente expressiva, algo como a distância entre Recife e Belém em quilômetros: os números estão no mesmo mapa, mas o abismo é real. Mesmo assim, Jarvis teve seu momento. Na terceira parcial, chegou a um set point antes de Calderano encerrar a parcial e fechar o jogo em 3 sets a 0.

Segundo o técnico Fernando Shigetomi, a estratégia de posicionar Calderano como raquete 2 foi pensada para garantir que o número 5 do mundo estreasse diretamente contra o adversário mais perigoso da seleção britânica.

A lógica funcionou. Calderano converteu sua primeira partida com eficiência máxima: três sets, zero cedidos. Nenhuma parcial entregue ao adversário.

Teodoro sofre, vence e depois cede o ponto de empate

Guilherme Teodoro, 144º do mundo, também cumpriu sua parte na fase inicial. Diante de Connor Green, o britânico mais jovem da equipe, o brasileiro fechou em 3 a 0, mesmo sentindo pressão em alguns momentos da partida. Dois pontos brasileiros, zero britânicos — o Brasil abria 2 a 0.

Leo Iizuka foi o ponto de inflexão negativo. Contra Samuel Walker, o brasileiro venceu o primeiro set e chegou a liderar o quarto, mas cedeu a virada: 3 a 1 para Walker. A Inglaterra estava viva.

O quarto jogo foi o mais tenso. Jarvis, que havia perdido para Calderano, voltou à mesa contra Teodoro. Desta vez, o britânico foi superior. Fechou em 3 a 1 e empatou a série em 2 a 2. O confronto chegaria ao jogo decisivo.

Calderano sela a classificação no confronto derradeiro

Shigetomi não precisou hesitar na escolha para o quinto jogo. Calderano voltou à mesa, agora diante de Connor Green — o mesmo adversário que Teodoro havia derrotado na segunda partida. O número 5 do mundo não deu margem. Três sets a zero, nenhuma concessão. Brasil 3, Inglaterra 2.

A sequência de Calderano no torneio reforça o padrão de consistência: duas partidas disputadas, duas vitórias, seis sets vencidos, zero cedidos. Em tênis de mesa por equipes, onde cada ponto carrega peso coletivo, esse tipo de aproveitamento individual define classificações.

Nas palavras do técnico Shigetomi, Calderano foi escalado para abrir e, se necessário, fechar o confronto — e foi exatamente o que aconteceu contra a Inglaterra.

O quarteto que avança às quartas é composto por Calderano, Teodoro, Iizuka e Felipe Arado (159º do mundo). O Brasil chega a essa fase como nona seleção do mundo no ranking ITTF, tendo passado pela fase de grupos em primeiro lugar na chave 4 — com vitórias sobre Porto Rico (3 a 1), Hungria (3 a 2) e Uzbequistão (3 a 0) — e eliminado Singapura por 3 a 1 na segunda fase.

França nas quartas e a medalha como horizonte real

O próximo adversário será a França, que eliminou Portugal por 3 a 0. O confronto está marcado para sexta-feira (8), às 15h30 (horário de Brasília), em território britânico, onde a torcida local já foi eliminada.

A estrutura do torneio transforma as quartas em um jogo de tudo ou nada com recompensa garantida para quem avançar: não há disputa de terceiro lugar no Campeonato Mundial de Tênis de Mesa por Equipes. Quem chegar às semifinais já tem a medalha assegurada. Para o Brasil, a missão é clara — e Calderano, que já abriu e fechou o duelo contra a Inglaterra, será novamente a referência técnica da equipe diante dos franceses na sexta-feira.