A portão do CT da Barra Funda ainda estava sendo fechado quando a gritaria começou. Era quinta-feira (14), e torcedores da São Paulo Futebol Clube chegaram em grupo para cobrar um elenco que havia perdido por 3 a 1 para o Juventude, em Caxias do Sul, e saído eliminado da Copa do Brasil na noite anterior. O policiamento foi acionado. O ambiente era o de uma ruptura — não de uma crise passageira.

Roger Machado durou 62 dias e a demissão já estava escrita antes do apito final

Roger Machado foi demitido na quarta-feira (13), após apenas dois meses e um dia à frente do clube. A eliminação para o Juventude foi o gatilho, mas o processo já corria em paralelo ao trabalho do técnico — uma combinação de pressão política interna, resultados abaixo do esperado e desgaste com parte da torcida que antecedeu qualquer placar. O São Paulo acumula uma sequência de comandos técnicos que não chegam ao fim da temporada: um padrão que se arrasta há mais de quatro gestões e que historiadores do clube associam ao início do declínio institucional pós-tricampeonato nacional (2006–2008).

O primeiro treino após a saída de Roger foi comandado por Milton Cruz e James Freitas nesta quinta. James, contratado em março, permanecerá como auxiliar da comissão técnica permanente. Enquanto isso, o executivo de futebol Rui Costa e o diretor Rafinha viajaram a Florianópolis para negociar com Dorival Júnior — movimento que acontecia ao mesmo tempo em que a torcida gritava "Rui Costa pede para sair" na porta do CT.

Calleri encarou a torcida quando ninguém mais queria estar na linha de frente

Foi Calleri quem foi até os torcedores. O atacante argentino, que está no clube há cinco anos, não fugiu da cobrança — foi ao encontro dela. A cena tem algo do compasso pesado de uma quinta-feira na Lapa: desconfortável, honesta, sem saída fácil.

"A gente fez merda em casa, fez merda em Itaquera. Queria jogar melhor, fez merda ontem. Todo mundo está errado", disse o argentino diante dos torcedores.

Calleri ainda completou, sem rodeios:

"Estamos aqui para vocês xingarem. É a verdade. É a única solução."

A torcida organizada Independente pressionou para que mais jogadores aparecessem. "Se não vierem, eles não vão sair", afirmaram alguns membros na entrada do CT. Nas redes sociais, o protesto viralizou rapidamente — os vídeos de Calleri encarando a torcida acumularam centenas de milhares de visualizações no X e no Instagram até o fim da tarde, com o termo "Calleri" entrando nos trending topics brasileiros.

Luciano sai com edema muscular e o departamento médico acumula nomes

Luciano foi substituído em Caxias do Sul com dores na parte posterior da coxa direita. O exame de imagem confirmou edema muscular — ele já iniciou tratamento e é dúvida para os próximos compromissos. A lesão chega num momento em que o departamento médico tricolor já contabilizava outros casos: Lucas Ramon (lesão muscular na panturrilha esquerda, retornou ao grupo nesta quinta), Pablo Maia (cirurgia no nariz e na face em 10 de abril, também reintegrado), Alan Franco (estiramento no adutor direito, fez transição parcial) e Marcos Antonio (músculo reto femoral, em transição supervisionada).

Os jogadores com maior minutagem contra o Juventude fizeram apenas atividades regenerativas. O restante do grupo trabalhou com foco em posse de bola e jogo em campo reduzido — rotina de manutenção, sem novo técnico confirmado para dar direção tática.

O São Paulo que era modelo virou referência do tipo errado

Nos anos 2000, o São Paulo era citado como modelo de gestão no futebol brasileiro — tricampeão mundial, tricampeão nacional entre 2006 e 2008, referência em formação de base e tecnologia. O último título internacional veio em 2012, na Copa Sul-Americana. Desde então, o clube acumula frustrações esportivas e disputas políticas constantes nos bastidores, com técnicos que entram sob pressão e saem antes de consolidar qualquer projeto.

Alexandre Giesbrecht, historiador especializado no clube e responsável pelo projeto "Anotações Tricolores", situa o início da crise estrutural na gestão Juvenal Juvêncio:

"A crise começou, sem sombra de dúvidas, com o golpe do Juvenal", afirmou Giesbrecht ao Lance!.

A tendência, segundo apuração, é que Rui Costa permaneça no cargo por ora — apesar dos cânticos pedindo sua saída. O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão 2026, competição em que ainda tem chance de recuperar desempenho, mas agora sem técnico definido, com Luciano no departamento médico e com uma relação com a torcida que precisará de muito mais do que uma vitória para se reconstruir — o campo resolve o placar, mas não apaga o que aconteceu na Barra Funda.