Um jogador que conquistou a Champions League como titular há menos de dois anos pode não estar na Copa do Mundo. Eduardo Camavinga, 22 anos, enfrenta o risco real de ser cortado por Didier Deschamps na convocação da França — prevista para este mês de maio de 2026 — antes mesmo de a competição começar na América do Norte.
O que aconteceu, exatamente
A temporada 2025/2026 de Camavinga pelo Real Madrid foi a mais irregular desde que chegou ao clube em 2021. O meio-campista disputou 39 partidas no total, acumulando 2.013 minutos — média de 51 minutos por jogo. Na temporada anterior, quando o Madrid levantou a Champions League, ele participou de 46 partidas com média de 61 minutos. A queda é concreta: menos tempo de jogo, menos influência, mais bancos de reserva. Lesões no tornozelo e na coxa o afastaram de partidas decisivas e, em dois momentos distintos, o tiraram de convocações da própria seleção francesa.
O canal francês Telefoot adiantou que Deschamps avalia seriamente deixar Camavinga fora da lista final. Nas três últimas convocações da França nas Eliminatórias para a Copa, o jogador esteve presente em apenas uma. Retornou nos amistosos de março contra Brasil e Colômbia — exatamente os jogos que o técnico usou como laboratório final antes do corte definitivo.
Quem está envolvido
O meio-campo da França em 2026 é, provavelmente, o mais competitivo do mundo. Aurélien Tchouaméni, companheiro de Camavinga no Real Madrid, consolidou-se como o pivô defensivo titular incontestável. Warren Zaïre-Emery, do Paris Saint-Germain, com apenas 19 anos, impôs-se pela consistência e pela capacidade de jogar em múltiplas funções. N'Golo Kanté, hoje no Al-Ittihad, segue sendo referência de Deschamps por sua leitura tática — o técnico jamais abriu mão do volante quando ele estava disponível.
Segundo levantamento do SportNavo, nas últimas dez convocações da França, Camavinga figurou em apenas seis, enquanto Tchouaméni e Zaïre-Emery estiveram presentes em todas as oportunidades em que não sofreram lesões. A hierarquia está estabelecida nos dados, não apenas na percepção.
Adrien Rabiot, apesar das idas e vindas na relação com Deschamps — incluindo a polêmica recusa à convocação em 2018 —, também compete pelo mesmo espaço. A profundidade do elenco francês é tal que Camavinga, que em 2022 foi vice-campeão mundial, agora ocupa uma posição periférica dentro do grupo.
Quando isso muda o jogo
A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com a França inserida no grupo de favoritas ao título. Deschamps chegou à final nas duas últimas edições — 2018, com o título, e 2022, com a derrota nos pênaltis para a Argentina, partida em que o próprio Camavinga atuou como lateral-esquerdo improvisado. A lista de convocados deve ser divulgada ainda em maio, o que significa que o tempo para reversão é zero.
Entre 2022 e 2024, quando Camavinga vivia seus melhores momentos no Real Madrid, Deschamps o utilizava com frequência e já o via como peça central do projeto de médio prazo. A janela fechou com as lesões. O técnico não espera por potencial — ele convoca forma.
Por que agora
A questão de Camavinga transcende o individual e expõe uma lógica estrutural do futebol de alto rendimento: o capital humano de um jogador é depreciado pela lesão com uma velocidade que nenhum contrato consegue compensar. Camavinga assinou renovação com o Real Madrid até 2029, com salário estimado em 12 milhões de euros anuais. Mas Deschamps não convoca contratos — convoca desempenho verificável.
A análise do SportNavo aponta que a França, com receita de clube equivalente ao seu ecossistema de seleção, opera com lógica semelhante à de uma franquia de alto valor: substituição de ativos depreciados por ativos em crescimento. Zaïre-Emery representa exatamente isso — jovem, em ascensão, com minutagem crescente no PSG e sem histórico de lesões graves.
"Nas últimas convocações, Deschamps deixou claro que prefere jogadores que estão em ritmo de jogo regular. Camavinga não tem apresentado isso pelo Real Madrid", sintetizou a análise do Telefoot ao noticiar o risco de corte.
Há também um componente geracional. A França de 2026 não é mais a França de Zidane nem a de Platini — é um elenco construído sobre a infraestrutura das academias de formação francesas, o modelo INF Clairefontaine, que produziu três gerações consecutivas de talentos mundiais. Camavinga faz parte dessa geração, mas dentro dela a concorrência é implacável.
A convocação de Deschamps deve ser anunciada na segunda quinzena de maio. Se Camavinga não estiver na lista, o Real Madrid terá, pela primeira vez desde 2021, nenhum representante no meio-campo titular da seleção francesa — Tchouaméni joga como volante defensivo, função diferente da que Camavinga ocupa. O banco de reservas do Bernabéu, onde o jovem passou as últimas rodadas da temporada, já deu o seu veredicto.








