Confesso: em novembro de 2022, quando o Qatar entrou em campo para a estreia de uma Copa do Mundo que ajudou a construir com petrodólares e polêmica, escrevi aqui que a seleção anfitriã seria apenas figurante — mas um figurante que saberia sair de cena com dignidade. Errei. O Qatar não saiu com dignidade; saiu com saldo de -6 e três derrotas, tornando-se a pior seleção anfitriã da história do torneio. E o Canadá, que eu havia apostado como a revelação da edição, terminou com saldo de -5 e zero pontos, eliminado na primeira fase depois de 36 anos de ausência. Hoje, com o sorteio da Copa do Mundo 2026 nas mãos, entendo por que aquelas duas seleções precisavam se reencontrar.

A tese do fracasso compartilhado que ninguém quer repetir

O Grupo B de 2026 reúne Suíça, Canadá, Qatar e Bósnia — e já seria curioso só por isso. Mas há uma simetria quase literária na combinação: as duas seleções que protagonizaram o vexame coletivo de 2022 voltam a dividir chave, desta vez com o Canadá como anfitrião. O confronto entre elas está marcado para 18 de junho, e carrega um peso histórico que vai além do futebol: pela aritmética do torneio, ao menos uma das duas vai pontuar pela primeira vez em Copas do Mundo. Alguém vai precisar ser melhor do que foi há quatro anos.

A Suíça, tecnicamente a melhor seleção do grupo — ocupa o 12º lugar do ranking da FIFA —, chega com Granit Xhaka como capitão e referência. O meio-campista, hoje no Sunderland, é o elo entre a experiência europeia e a consistência tática que a equipe helvética costuma exibir. Para Canadá e Qatar, no entanto, a Suíça representa o obstáculo mais óbvio; o confronto do dia 18 é o que carrega a carga emocional mais densa.

"Queremos mostrar que 2022 ficou para trás. Esta geração tem qualidade para competir de igual para igual com qualquer seleção", afirmou Jonathan David em declaração à imprensa canadense antes do início da preparação para o torneio.

David tem 26 anos e chega à Copa de 2026 como o maior artilheiro da história da seleção canadense, com 39 gols. Em 2022, passou em branco nos três jogos disputados. A pressão sobre ele é dupla: exorcizar o fantasma pessoal e carregar a expectativa de uma nação que receberá os jogos da primeira fase em solo próprio — o Canadá é a única das 48 seleções participantes que disputará todas as três partidas da fase de grupos em seu território.

A contra-leitura que desafia a narrativa da ressurreição

Quando se faz um inventário do futebol de Qatar e Canadá nos últimos quatro anos, porém, a narrativa da redenção encontra resistências concretas. O Qatar chega a 2026 sob o comando de Julen Lopetegui, técnico espanhol que carrega uma das histórias mais peculiares do futebol moderno: demitido da seleção espanhola na véspera da estreia no Mundial de 2018, o treinador nunca havia dirigido uma equipe em Copas do Mundo. Finalmente vai estrear — mas à frente de uma seleção que ainda não convenceu nos torneios asiáticos recentes.

"Lopetegui sabe construir times organizados, mas o Qatar tem limitações técnicas que nenhum sistema tático resolve sozinho", observou o analista tático Sami Al-Jaber em entrevista ao jornal Al-Raya, de Doha, no início de 2026.

Quando o Qatar entra em campo com a posse de bola, tende a criar situações de finalização — mas converte mal e sofre em transições defensivas. Quando o Canadá pressiona alto, como fez pontualmente em 2022, cria desequilíbrios no adversário, mas se expõe a contra-ataques com velocidade. Os dois estilos, curiosamente, se anulam com alguma facilidade, o que torna o jogo do dia 18 potencialmente mais travado do que parece.

A Bósnia, quarto integrante do grupo, traz uma história paralela que merece registro: no estafe da seleção está Afan Cizmic, o gandula que virou celebridade nacional ao roubar a cola do goleiro italiano Gianluigi Donnarumma durante a disputa de pênaltis da repescagem europeia. O episódio, que rendeu ao jovem um estatuto de herói improvávelno país, resume bem o clima de improviso criativo que cerca essa seleção — e que pode ser um complicador a mais para Canadá e Qatar.

A síntese que o dia 18 de junho vai escrever em campo

Quando Jonathan David recebe a bola no espaço, ele tem velocidade e técnica suficientes para decidir jogos em alto nível. Quando a seleção canadense joga em casa, o fator emocional amplifica uma equipe que, em teoria, já cresceu desde 2022. Esses dois elementos juntos constroem o argumento mais sólido a favor do Canadá como favorito no confronto direto com o Qatar.

Quando o Qatar aposta na organização defensiva e no contra-ataque, consegue segurar resultados contra adversários tecnicamente superiores. A Copa Árabe de 2021, vencida pelo Qatar em casa, mostrou que a seleção pode render acima do esperado quando o ambiente é favorável — mas o ambiente de 2026, no Canadá, é precisamente o oposto.

A síntese mais honesta é que nenhuma das duas seleções transformou radicalmente sua base em quatro anos. O Canadá evoluiu na qualidade individual — David e Alphonso Davies continuam sendo jogadores de alto nível europeu — mas ainda não demonstrou capacidade de construir resultados consistentes em torneios de alta pressão. O Qatar trocou de treinador com ambição, mas não trocou os jogadores que falharam em 2022.

O que o Grupo B da Copa do Mundo 2026 oferece, afinal, é um experimento involuntário: duas seleções que partilharam o mesmo fracasso histórico, postas diante de uma segunda chance no mesmo torneio. A matemática garante que uma delas vai pontuar no dia 18 de junho. A história, porém, não garante que pontuar será suficiente — porque o grupo também conta com a Suíça de Xhaka e uma Bósnia capaz de surpresas. Se o Canadá vencer o Qatar e a Suíça tropeçar contra os bósnios, você consegue imaginar o caos classificatório que se abriria na segunda rodada?