"No Barcelona não há a cultura de jogar para o empate, nós somos uma equipe que buscamos sempre a vitória e é isso que vamos fazer no domingo."A frase é de João Cancelo, dita em entrevista exclusiva à ESPN, e ela diz mais sobre o projeto de Hansi Flick no Barcelona do que qualquer análise tática poderia resumir. Não é bravata pré-clássico. É a descrição de uma identidade reconstruída.
O que 88 pontos revelam sobre o novo Barcelona de Flick
Com 88 pontos na La Liga e 11 de vantagem sobre o Real Madrid a três rodadas do fim, o Barcelona chega ao clássico de domingo (10/05), às 16h (de Brasília), numa posição que os catalães não ocupavam há anos: a de donos da temporada. Um simples empate já garante o título. Mas Cancelo, que chegou ao clube ainda abaixo de sua forma física ideal no início da temporada 2025/2026, deixou claro que esse cálculo não entra no vestiário.
A vantagem de 11 pontos não nasceu de um sprint no final. Ela foi construída ao longo de 34 rodadas de pressing alto, transições rápidas e uma intensidade coletiva que lembra, em alguns momentos, o melhor gegenpressing que Flick aplicou no Bayern de Munique entre 2019 e 2021. O alemão trouxe para o Camp Nou uma lógica que o futebol espanhol raramente havia visto aplicada com tanta consistência: domínio físico e filosófico ao mesmo tempo.
Cancelo e a mentalidade que Flick instalou no vestiário
Quando Cancelo diz que o Barcelona "busca sempre a vitória", ele está descrevendo algo que vai além do discurso motivacional. O lateral-direito português, que reconheceu ter chegado em má forma física e precisado de tempo para reencontrar seu nível, tornou-se titular na segunda metade da temporada justamente porque o modelo de Flick exige jogadores que entendam o jogo nos dois sentidos do campo — pressing e construção. Essa exigência técnica e física não deixa espaço para quem pensa em administrar resultados.

O próprio Cancelo enquadrou o clássico com precisão cirúrgica ao afirmar que o jogo de domingo "demonstra quem foi a equipe mais regular no campeonato". Não é uma provocação ao Real — é uma leitura estatística. Onze pontos de diferença na 35ª rodada não mentem sobre regularidade.
"Claro que tem sempre um gosto especial este jogo, porque é o nosso eterno rival, é o jogo que todo jogador quer jogar", completou o português, sem esconder que erguer o troféu justamente diante do maior rival tem um peso simbólico à parte.
O que um título no Clásico significa para o projeto de Flick
Hansi Flick chegou ao Barcelona no verão europeu de 2025 carregando uma reputação construída no Bayern e uma missão delicada: reerguer um clube que havia terminado a temporada anterior sem títulos relevantes na Espanha. Em sua primeira temporada, o alemão não apenas reorganizou a estrutura defensiva — transformou o Barcelona numa equipe capaz de combinar o tiki-taka histórico da casa com uma intensidade de pressão que o clube raramente havia praticado de forma tão sistemática.
Conquistar La Liga na 35ª rodada, contra o Real Madrid, seria o encerramento simbólico mais poderoso possível para esse primeiro ciclo. Na cultura futebolística europeia, títulos ganhos no dérbi — seja o Manchester City humilhando o United em Old Trafford, seja o Atlético levando La Liga sob o nariz do Real em 2014 — carregam um peso narrativo que vai além dos pontos. Eles definem eras. E Flick, que já sabe o que é ser campeão europeu como treinador, entende melhor do que ninguém o valor dessa narrativa.
O clássico de domingo e o que vem depois
O jogo será transmitido ao vivo pela ESPN no plano premium do Disney+, com bola rolando às 16h (de Brasília). Para o Real Madrid, que chega à partida 11 pontos atrás e com a temporada europeia já comprometida, o clássico tem outro significado: evitar a humilhação de entregar o título ao maior rival em casa — ou, mais precisamente, ver os catalães celebrarem em campo neutro com a taça nas mãos. Para o Barcelona, é a chance de fazer o que Cancelo descreveu com objetividade rara: "ganhar este título e poder juntar mais um título à minha carreira".

Se o empate já resolve, mas o Barcelona vai a campo buscando os três pontos, a mensagem de Flick para as próximas temporadas estará dada. A próxima prova do projeto alemão virá na fase final da Champions League 2025/2026, onde o Barcelona ainda tem vaga em disputa — e onde um técnico que venceu a competição em 2020 sabe exatamente o que é preciso para ir além do título doméstico. O sorteio das semifinais define os confrontos até 15 de maio.









