Quantos atacantes, depois de perder três pênaltis no mesmo jogo, teriam a coragem — ou a lucidez — de pedir a bola na próxima cobrança decisiva?
Buenos Aires, noite desta terça-feira, 5 de maio. O Grêmio visitava o Deportivo Riestra no Nuevo Gasómetro e enfrentava um problema que vai além da tabela: o fantasma de uma sequência de 104 dias sem vencer fora de casa, 13 jogos com sete derrotas e seis empates. Aos 27 minutos do primeiro tempo, Amuzu avançou em velocidade, driblou dois marcadores e foi derrubado por Stringa dentro da área. Pênalti. E aí, antes que qualquer debate se instalasse, Carlos Vinícius pegou a bola. Sem hesitação. Deslocou Arce e fez 1 a 0. O gesto foi tão natural que quase escondia o peso do que havia antes dele.
Porque o que havia antes era considerável. Na partida contra o Palestino, pela mesma Sul-Americana, o atacante perdeu três cobranças consecutivas — um episódio que seria traumático para qualquer jogador em qualquer nível do futebol mundial. Quem acompanha o esporte há tempo suficiente lembra de casos análogos que marcaram carreiras: Stuart Pearce carregou por seis anos o pênalti perdido na semifinal da Copa de 1990 antes de exorcizá-lo no Euro 96, em Wembley, com uma comemoração que virou símbolo de redenção. O paralelo não é forçado — a psicologia do cobrança de pênalti é um campo tão estudado quanto qualquer esquema tático.
O que os números do Grupo F revelam sobre o momento do Grêmio
Com a vitória por 3 a 0, o Tricolor Gaúcho chegou a sete pontos no Grupo F e assumiu a liderança provisória da chave, à frente do Montevideo City Torque, que tem seis e ainda joga nesta quarta-feira contra o Palestino, lanterna com dois pontos, no Estádio Centenário, em Montevidéu. O Riestra permanece na terceira posição com quatro pontos. O cenário é favorável: o Grêmio depende de si para avançar diretamente às oitavas, sem passar pelos playoffs da Sul-Americana.
O técnico Luís Castro manteve o esquema com três zagueiros que havia funcionado contra o Athletico-PR, promovendo apenas uma mudança: Viery na vaga de Balbuena na zaga inicial, com Willian e Leonel Pérez no meio e o trio ofensivo formado por Amuzu, Gabriel Mec e Carlos Vinícius. A primeira etapa foi de domínio sem eficiência — problema recorrente em equipes que jogam com linha de três e dependem dos alas para criar largura — até que Balbuena, que havia entrado durante a parada para hidratação no lugar de Wagner Leonardo, lançou Amuzu em profundidade e originou o pênalti. Segundo relatos da cobertura do GZH, era possível ouvir, no estádio vazio, gritos da comissão técnica pedindo que Willian aparecesse mais no campo ofensivo — detalhe que diz muito sobre o nível de controle tático que Castro tenta imprimir.
No segundo tempo, o Grêmio foi mais vertical. Aos 13 minutos, Carlos Vinícius disputou a bola com a defesa argentina, recuperou a posse e acionou Amuzu, que tabelou com Gabriel Mec e finalizou rasteiro para fazer 2 a 0. O terceiro veio aos 27 minutos: Pavón cruzou pela direita, Braithwaite — que havia acabado de entrar — dominou no peito e bateu forte no ângulo. Gol de atacante de área, técnico e preciso.
A pergunta que ninguém fazia em voz alta
Carlos Vinícius voltaria a cobrar pênalti depois do episódio contra o Palestino?
A resposta veio antes da pergunta ser respondida publicamente. E isso, por si só, já é uma declaração. Nas palavras da cobertura do GZH, o atacante assumiu a cobrança "sem receio nenhum das três tentativas perdidas" — uma observação jornalística que captura algo que estatísticas não conseguem medir. Há uma diferença entre o jogador que pede a bola porque o técnico mandou e o que pede porque genuinamente quer aquele momento. A postura de Carlos Vinícius no Nuevo Gasómetro pertencia à segunda categoria.
Comparações históricas ajudam a calibrar o peso disso. Roberto Baggio, depois do pênalti perdido na final da Copa de 1994, levou meses para retomar a confiança em cobranças — e voltou a ser decisivo nelas. Andrea Pirlo, que havia proposto a famosa cucchiaio contra a Inglaterra no Euro 2012, declarou certa vez que a melhor forma de superar um trauma técnico é repetir o gesto o mais rápido possível, antes que o cérebro construa uma memória de evitação. Não sabemos se Carlos Vinícius leu Pirlo, mas o comportamento foi exatamente esse.
O que esse gol representa para o restante da campanha tricolor
O SportNavo acompanha o desempenho do Grêmio nas competições continentais há temporadas e a sequência atual — cinco jogos sem derrota, defesa sem sofrer gols nesse período — é o melhor ciclo do clube em 2026. Não é apenas questão de resultados: é de identidade. O esquema com três zagueiros, a função de Amuzu como criador e finalizador ao mesmo tempo, a presença de Braithwaite como referência de área quando entra — tudo isso forma um conjunto mais coeso do que o time apresentava no início do ano.
A vitória sobre o Riestra encerra o jejum de 104 dias sem triunfo fora de casa e coloca o Grêmio numa posição que poucos imaginavam há três semanas. O pênalti de Carlos Vinícius não foi só um gol: foi o ponto de inflexão de uma narrativa que parecia caminhar para outro lugar.
"Não é 1º de abril, mas o Grêmio venceu fora de casa", comentou o colunista Queki, da Voz da Torcida, capturando com ironia o quanto a vitória soou improvável para parte da torcida tricolor.
O próximo capítulo chega já no domingo, dia 10, quando o Grêmio recebe o Flamengo na Arena, num confronto pelo Brasileirão que vai testar se esse momento de solidez é estrutural ou apenas o brilho passageiro de uma boa semana. Carlos Vinícius entra em campo carregando, desta vez, o peso de quem já provou que sabe lidar com pressão — e converteu.
No vestiário do Nuevo Gasómetro, depois do apito final, a bola do pênalti já estava guardada em alguma bolsa. Só isso.










