Três cobranças, três falhas, uma ordem contornada. O empate por 0 a 0 do Grêmio com o Palestino, no Estádio La Cisterna em Santiago, na quarta-feira (29), pela terceira rodada da Copa Sul-Americana, ficou marcado por um episódio sem precedentes recentes no futebol brasileiro: Carlos Vinícius perdeu três pênaltis na mesma partida e, no terceiro, bateu contra a determinação expressa do técnico Luís Castro.
A sequência que paralisa a análise tática
O primeiro pênalti foi cobrado no canto direito. O goleiro Sebastián Pérez tocou na bola, que bateu na trave — mas o juiz mandou repetir por avanço do jogador do Palestino. Na segunda cobrança, o mesmo canto, o mesmo desfecho. Na terceira oportunidade, Carlos Vinícius escorregou no momento do contato e Pérez defendeu com os pés, desta vez sem qualquer irregularidade. Três cobranças, mesmo setor, sem variação de estratégia. Do ponto de vista técnico, a ausência de leitura do adversário é tão grave quanto o erro em si.
A derrota de produção ofensiva foi acentuada pela anulação de um gol aos 32 minutos do segundo tempo. Carlos Vinícius acertou chute de fora da área, mas o VAR identificou toque de mão de Riquelme no lance. O 0 a 0 ficou definitivo.

A ordem que não chegou e a decisão que piorou tudo
Luís Castro tentou agir antes do terceiro pênalti. O técnico português chamou Willian, capitão da equipe, para transmitir a troca do batedor. A mensagem não chegou a tempo — Castro não pode deixar a área técnica durante a partida, e o jogador estava envolvido na discussão com o árbitro. Carlos Vinícius foi para a bola.
"Não consegui me comunicar com a equipe no meio daquele tumulto todo, muita agitação. Assim, não consegui dar a ordem que queria de troca de batedor. Não que não confie no Vinícius. Mas, naquele momento, quando um jogador falha dois pênaltis, a melhor coisa é tirá-lo e colocar outro jogador", explicou Castro em entrevista após a partida.
O atacante, por sua vez, não negou o que ocorreu. Admitiu ter recebido a mensagem por meio de Willian e ter pedido para continuar. Castro, segundo o próprio jogador, cedeu — e o resultado foi o terceiro erro.
"O Willian veio, recebi a mensagem do nosso líder, que é o Mister. Veio lá de dentro e eu disse: 'Posso continuar?'. 'Pode'. Então, está feito. Infelizmente, deu errado", disse Carlos Vinícius à ESPN após o apito final.
Hierarquia, confiança e o que fica no vestiário
A análise do SportNavo aponta que o episódio levanta um problema estrutural além do placar: a quebra de protocolo de decisão em campo. Em sistemas táticos bem calibrados, a definição do batedor de pênalti é prévia, está no plano de jogo e raramente é objeto de negociação durante o lance. Quando essa decisão vira uma conversa entre jogador e comissão técnica às margens do árbitro, o vestiário percebe que a hierarquia é porosa.
Carlos Vinícius chegou ao Grêmio com histórico consistente em cobranças de pênalti. O próprio atacante reconheceu isso em entrevista: "Principalmente eu, que vinha muito bem nos pênaltis, mas pronto, faz parte". O problema não é exclusivamente a sequência de erros — é que a insistência, após duas falhas consecutivas, sinalizou prioridade do ego individual sobre a decisão coletiva. Isso tem custo interno.
Luís Castro optou por proteger o jogador publicamente, ressaltando seu caráter e personalidade. A postura é compreensível no curto prazo. No médio prazo, a ausência de uma resposta mais firme sobre o protocolo de cobranças pode criar precedente — outros jogadores em situações de pressão podem entender que negociação em campo com a comissão técnica é possível.

Situação na Sul-Americana e os próximos passos
Com o empate, o Grêmio soma 4 pontos em três jogos no Grupo F da Sul-Americana — e não dois, como constava em informações iniciais. O Palestino, lanterna com 1 ponto, era o adversário mais acessível da chave. O Imortal ainda não venceu na competição continental, e o próximo compromisso é contra o Deportivo Riestra, na terça-feira (5), às 19h, no Estádio El Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires. Uma derrota ou novo empate coloca a classificação para o mata-mata em risco real.
Antes disso, o clube enfrenta o Athletico Paranaense no sábado (2), às 20h30, na Arena da Baixada, pela 14ª rodada do Brasileirão. A sequência densa de jogos exige respostas rápidas — tanto táticas quanto comportamentais. Definir um cobrador titular para pênaltis, com hierarquia clara e sem espaço para renegociação em campo, é o mínimo que a comissão técnica precisa resolver antes de Buenos Aires.









