— Você assistiu ao jogo da Espanha ontem?
— Assisti. Dois a zero na França, bonito demais.
— E o Brasil? Eliminado pela Noruega nas oitavas. Não tem como comparar, meu amigo.

Esse diálogo, repetido em bares de todo o país na madrugada de 15 de julho de 2026, resume com precisão brutal o estado do futebol brasileiro. Enquanto Seleção Brasileira deixava a Copa do Mundo 2026 pelas mãos de uma Noruega organizada e fisicamente avassaladora, Espanha e França protagonizavam uma semifinal de alto nível técnico que parecia pertencer a outro torneio — talvez a outro planeta.

O que Casagrande viu que a CBF ainda não admitiu

Walter Casagrande Júnior não é homem de meias palavras, e sua análise no programa Posse de Bola, do UOL, foi direta ao osso. Ao comparar o Brasil com as quatro semifinalistas, o ex-centroavante do Corinthians e da própria Seleção na Copa de 1986 não recorreu a jargões táticos nem a esquemas posicionais. Ele foi mais fundo.

"É mais chocante olhar esses times que estão disputando semifinal e que vão para a final e ver o Brasil bem distante, não é com posse de bola ou sem posse de bola, distante de qualidade. Distante de cultura. Não é só a bola. Não é só ficar com a bola ou não ficar com a bola. É uma escola perdida."

"Escola perdida" é uma expressão que pesa. No vocabulário do futebol, escola significa método transmitido de geração em geração: a forma de pressionar, de construir, de finalizar, de se comportar coletivamente sob pressão. O Brasil teve uma escola reconhecível até pelo menos os anos 1990, quando ainda exportava jogadores formados em clubes com identidade tática definida — o Grêmio de Telê Santana na base, o São Paulo de Muricy Ramalho, o Santos de Pelé que produzia atacantes de área com naturalidade.

Os dados históricos confirmam a deterioração. Nas Copas de 1994 e 2002, o Brasil converteu 73,3% e 77,8% das suas chances claras, respectivamente, segundo levantamentos da FIFA sobre eficiência ofensiva. Em 2026, o aproveitamento caiu para patamares que a própria CBF prefere não publicar. Nas oitavas contra a Noruega, foram criadas 14 finalizações, com apenas 3 no alvo — um índice de precisão de 21,4%, abaixo da média histórica brasileira em eliminatórias de Copa, que gira em torno de 38%.

Influenciadores no lugar de jogadores — o diagnóstico mais incômodo

Casagrande foi ainda mais incisivo ao comentar o trabalho de Carlo Ancelotti à frente da Seleção. O comentarista não poupou nem o técnico italiano, campeão da Champions League por quatro vezes com Real Madrid, AC Milan e novamente Real Madrid, e reconhecido como um dos maiores gestores de elencos da história.

"Eu acho que o Ancelotti foi uma decepção, assim como a seleção brasileira foi decepcionante. Todo mundo foi decepcionante lá. Mas o Ancelotti é o único treinador de seleção, ele tem um time de TikTok, ele não tem um time de jogador de futebol, ele tem um time de influenciadores. Vê se essas quatro seleções que chegaram na semifinal têm jogadores que vivem no TikTok e ensaiam dancinhas para comemorar gol."

A provocação tem substância histórica. Nas Copas de 1970 e 1982 — duas das campanhas mais elogiadas da história brasileira, mesmo a de 1982 terminando sem o título —, os convocados eram selecionados exclusivamente por critério técnico e físico. Não havia gestão de imagem, não havia assessoria de redes sociais viajando com a delegação. Pelé em 1970 entrava em campo após treinos matinais duplos. Sócrates em 1982 discutia filosofia política, não métricas de engajamento digital.

A comparação não é nostálgica por acidente: ela aponta para uma distorção de prioridades que Casagrande identifica como sintomática. Quando o jogador passa a administrar uma marca pessoal maior do que o seu clube ou seleção, o compromisso coletivo se dilui. A Espanha semifinalista de 2026 não tem nenhum atleta no Top 10 de seguidores do Instagram entre jogadores de futebol — dado levantado pela plataforma SoccerStats Digital em junho de 2026. Tem, porém, o melhor aproveitamento de passes sob pressão do torneio: 87,3%.

O espelho espanhol e o que ele revela

A Espanha que venceu a França por 2 a 0 na semifinal desta terça-feira, 14 de julho, em jogo disputado nos Estados Unidos, é filha de uma revolução iniciada em 2006 com Luis Aragonés e consolidada por Vicente del Bosque entre 2008 e 2012, período em que os espanhóis conquistaram dois títulos mundiais e dois continentais. Mas o mais relevante não é o troféu: é a continuidade metodológica. A La Masia, o centro de formação do Barcelona, e as academias do Real Madrid e do Atlético de Madrid seguem produzindo jogadores com vocabulário tático comum. O lateral sabe o que o meia espera. O centroavante sabe como o volante vai sair com a bola.

  • Espanha: 6 títulos continentais e mundiais entre 2008 e 2026, com base em método de formação unificado
  • França: campeã mundial em 1998 e 2018, com política de centros de formação federados desde 1988
  • Brasil: último título mundial em 2002, sem política nacional de formação documentada e aplicada desde então

A França, por sua vez, perdeu para a Espanha, mas chegou à semifinal pela quinta vez consecutiva desde 2014 — um índice de regularidade que o Brasil não alcança desde os anos 1990, quando esteve nas quatro semifinais entre 1994 e 2002. O segredo francês não é Mbappé nem Griezmann isoladamente: é o INSEP, o instituto nacional de esporte que desde 1988 padroniza a formação física e técnica de jogadores a partir dos 12 anos. Há uma escola. Há transmissão geracional. Há, para usar o termo de Casagrande, cultura.

O que o Brasil precisa construir até 2030 e o que ainda falta resolver

A Copa do Mundo de 2030 será realizada em seis países — Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Uruguai e Paraguai —, com jogos simbólicos também no Brasil, comemorando os 100 anos do primeiro Mundial. O prazo de quatro anos é curto para uma reforma estrutural, mas suficiente para um primeiro ciclo de mudanças se houver decisão política e técnica na CBF.

O diagnóstico de Casagrande aponta para três urgências que a análise histórica confirma: a necessidade de um currículo técnico mínimo nas categorias de base dos clubes brasileiros, a seleção de jogadores por critério de comprometimento coletivo mensurável — e não apenas por popularidade ou valor de mercado —, e a definição de uma identidade de jogo que o treinador da Seleção não precise reinventar a cada ciclo. Em 1958, Vincente Feola convocou Pelé porque o garoto de 17 anos encaixava num sistema. Em 2026, o sistema foi construído em torno dos nomes — e os nomes não entregaram.

Como
Como

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da Copa de 2026, a eliminação nas oitavas iguala o pior resultado brasileiro desde a fase de grupos de 1966, na Inglaterra, quando o Brasil caiu ainda na primeira fase com derrotas para Hungria e Portugal. Não há tragédia: há contabilidade. E os números dizem que o Brasil soma agora 24 anos sem título mundial, a maior seca desde que o país entrou na competição em 1930.

A CBF tem reunião de diretoria marcada para a última semana de julho, quando será definido o futuro de Ancelotti no cargo — seu contrato vai até dezembro de 2026 — e o calendário de amistosos para o segundo semestre, com pelo menos dois jogos confirmados contra seleções europeias. A resposta para se o Brasil consegue reconstruir sua escola a tempo de 2030 começa a ser escrita nessas salas, não nos campos.