Todo mundo sabe que o Brasil desembarcou nos Estados Unidos como candidato ao hexacampeonato. O que Casemiro disse na manhã desta terça-feira, 2 de junho, ao pousar em Newark, Nova Jersey, é a parte que ninguém queria ouvir em voz alta: existem seleções que chegam à Copa do Mundo "um passinho à frente" do Brasil. A declaração não foi imprudência — foi diagnóstico.

"Chegamos fortes, chegamos fortes, mas existem outras seleções que estão um passinho à frente da nossa", admitiu o meio-campista, que preferiu não nomear as favoritas quando pressionado pela imprensa.

O que a história diz sobre os rivais favoritos nesta Copa

A França chega ao torneio como atual campeã mundial — título conquistado na Rússia em 2018, com 4 a 2 sobre a Croácia na final — e como vice-campeã no Catar em 2022, quando perdeu nos pênaltis para a Argentina após empate em 3 a 3 no tempo normal. Nenhuma seleção europeia chegou a duas finais consecutivas desde a Alemanha de 1982 e 1986. O elenco de Mbappé acumula a maior regularidade de alto nível dos últimos oito anos entre as equipes do Velho Continente.

A Argentina de Lionel Scaloni defende o título conquistado no Catar, em dezembro de 2022, com 3 a 3 e vitória por 4 a 2 nos pênaltis. Messi disputou sua quinta Copa do Mundo naquela edição e encerrou o único capítulo que faltava em sua carreira. O que torna os argentinos perigosos agora não é a nostalgia do camisa 10, mas a solidez defensiva construída ao longo de 36 partidas de invencibilidade entre 2019 e 2022 — sequência que moldou uma identidade coletiva difícil de desmontar.

A Inglaterra, semifinalista em 2018 e vice-campeã da Eurocopa em 2020 e 2024, carrega a geração mais talentosa desde a equipe de 1966. Com Jude Bellingham como peça central e um bloco de Premier League rodado em alto nível semana a semana, os ingleses somam entrosamento real — não ensaiado em treinos de intertemporada. A Alemanha, por sua vez, reorganizou-se após a humilhação de cair na fase de grupos em 2018 e 2022, e chegou às semifinais da Eurocopa de 2024 como sede, eliminada apenas pela Espanha com gol nos acréscimos.

A mescla de gerações que ainda não virou bloco

Casemiro também destacou o que considera o principal trunfo brasileiro: a convivência entre jovens de alto impacto e veteranos de Copa. "Temos mais jogadores jovens. Jogadores jovens que vão ter maior protagonismo. E acho que a mescla está boa. Acho que esse está sendo o grande êxito", afirmou. O diagnóstico é correto na teoria. O problema está na prática do calendário: o Brasil realizou apenas um amistoso de peso antes do embarque — a goleada por 6 a 2 sobre o Panamá, em 31 de maio, no Maracanã, jogo em que Neymar sequer participou por lesão muscular de grau 2 na panturrilha.

Comparativamente, o Brasil de 2002 — o último hexacampeonato — disputou 12 partidas entre setembro de 2001 e maio de 2002 antes da abertura do torneio no Japão e Coreia. Luiz Felipe Scolari tinha um bloco testado: Marcos; Lúcio, Roque Júnior, Edmílson; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Roberto Carlos; Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. O entrosamento foi construído ao longo de meses, não de dias. O Brasil de Carlo Ancelotti, ao contrário, tem como último teste de campo o amistoso contra o Egito, marcado para 6 de junho, em Cleveland — menos de uma semana antes da estreia contra Marrocos, em 13 de junho, às 19h, em Nova Jersey.

Ancelotti rechaçou qualquer narrativa de inferioridade ao desembarcar: "Não tem um favorito nessa Copa do Mundo. Acho que Brasil vai competir com todas as outras equipes. O time está pronto", declarou o técnico italiano ao canal SporTV. A confiança do treinador, que acumula quatro títulos de Champions League, não é retórica vazia. Mas há uma diferença entre um elenco com qualidade individual e um bloco com automatismos consolidados — e essa distinção é exatamente o que Casemiro identificou com a expressão "passinho à frente".

O que Ancelotti tem de prazo para fechar a lacuna

A preparação final em Newark funciona como um temporal de verão: muita intensidade concentrada num intervalo curto, sem a constância que molda identidade tática. Ancelotti terá três dias de treino antes do Egito e mais seis dias entre o amistoso e a estreia contra Marrocos. Onze dias no total para ajustar posicionamento, testar variações e, principalmente, dar ao grupo jovem a confiança que só vem de repetição.

O histórico do Brasil em Copas do Mundo mostra que a seleção saiu do torneio nas quartas de final em 2006 (derrota por 1 a 0 para a França), nas quartas em 2010 (3 a 0 para a Holanda), nas quartas em 2014 (7 a 1 para a Alemanha) e nas quartas em 2022 (1 a 1 com a Croácia, eliminação nos pênaltis). Quatro eliminações consecutivas antes das semifinais. O padrão sugere que o problema não é talento — o Brasil convocou jogadores de elite em todas essas edições — mas sim coesão tática no momento decisivo.

Antes de embarcar, os jogadores visitaram o museu da CBF na sede da entidade, na Barra da Tijuca, onde tiveram contato com relíquias das cinco conquistas mundiais. O simbolismo foi intencional. O desafio de Ancelotti é transformar memória histórica em combustível coletivo — e fazer isso antes de 13 de junho, quando o Brasil entra em campo contra Marrocos, em Nova Jersey, para começar a responder se o "passinho" que Casemiro reconheceu pode ser encurtado em tempo real.