O maior craque do Brasil pode ir à Copa do Mundo sem garantia de titular — e isso, segundo Casemiro, não é necessariamente um problema. O paradoxo é real: Neymar, o jogador mais decisivo da história da Seleção em termos de gols (77 em 128 jogos), pode embarcar para o torneio mais importante do planeta como opção de banco. Mas a contradição se resolve quando se entende que a variável não é talento — é o corpo.
A cena
Um capitão fala o que o técnico ainda não disse.
Em entrevista à ESPN divulgada na primeira semana de maio de 2026, Casemiro tomou a palavra sobre o tema que domina os bastidores da Seleção Brasileira há semanas. A menos de 14 dias da convocação oficial, marcada para 18 de maio, o volante do Manchester United foi o primeiro nome de peso do grupo a expor publicamente os critérios que, na sua visão, devem guiar a decisão de Carlo Ancelotti.
"A grande questão é a parte física. Se ele estiver bem fisicamente, aí não tem nem discussão. Tem que ir. É o craque do time", afirmou Casemiro.
A declaração não foi improviso. Casemiro escolheu palavras precisas para separar dois debates que costumam se misturar: o da qualidade de Neymar — que ele considera indiscutível — e o da capacidade física de sustentar uma Copa do Mundo, torneio que exige ao menos quatro partidas em ritmo de eliminatória para chegar às quartas de final.
O contexto que explica
Talento não se questiona; a questão é quantos minutos ele aguenta.
Neymar completou 34 anos em fevereiro de 2026 e acumula um histórico de lesões graves que inclui duas rupturas no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo — a mais recente em outubro de 2023, pelo Al-Hilal. Desde então, o camisa 10 disputou menos de 400 minutos em competições oficiais, número que coloca em perspectiva qualquer análise sobre seu estado atual. Para efeito de comparação, Vinícius Júnior acumulou mais de 3.200 minutos na temporada 2025/2026 entre Real Madrid e Seleção.
A análise do SportNavo sobre o rendimento de Neymar nas últimas três temporadas mostra que o atacante apresentou um índice de pressão progressiva (PPDA — passes permitidos por ação defensiva) compatível com jogadores de alto impacto ofensivo quando em campo, mas sua disponibilidade física reduziu esse impacto a janelas curtas de atuação. O PPDA mede, de forma simplificada, o quanto um time consegue pressionar o adversário — e jogadores com o perfil de Neymar afetam esse índice de maneira desproporcional mesmo em poucos minutos, o que alimenta exatamente o argumento de Casemiro sobre utilizá-lo em momentos específicos.
"Se você chegar e conversar: olha, você não vai jogar tantos jogos, mas olha determinado jogo, você vai ser crucial nesses 20 minutos, 30 minutos… Então acho que essa bomba aí é do Ancelotti e não tem melhor treinador no mundo, com mais experiência no mundo, para lidar com uma situação dessa", disse o volante.
Casemiro também descartou qualquer ruído de vestiário como fator complicador. Segundo ele, Neymar nunca gerou conflito interno na Seleção e sempre manteve uma postura descomplicada dentro do grupo — algo que facilita a gestão de uma convocação condicionada a um papel secundário.
"Neymar nunca teve problemas assim. Inclusive, ele tem a idade e experiência para ser um dos capitães. E ele nunca ligou para isso. Ele sempre quis (e dizia): 'dá a bola no meu pé, vamos se divertir e jogar futebol'", completou Casemiro.
As implicações imediatas
Ancelotti tem a bomba nas mãos e 14 dias para decidir o que faz com ela.
A metáfora usada por Casemiro — chamar a decisão de "bomba" para Ancelotti — revela a dimensão política e técnica do problema. O treinador italiano, que assumiu a Seleção Brasileira em janeiro de 2025 após deixar o Real Madrid, nunca dirigiu um torneio oficial com Neymar disponível. A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, será o primeiro grande teste da gestão de Ancelotti sob pressão máxima.
Convocar Neymar com condicionamento físico abaixo do ideal significa abrir mão de uma vaga para um jogador em plena forma — e a concorrência é real: Igor Thiago, Luiz Henrique e Matheus Cunha estão em sequências sólidas em seus clubes europeus durante a temporada 2025/2026. Não convocar significa enfrentar uma pressão pública de proporções difíceis de administrar, dado o peso simbólico do camisa 10 para o torcedor brasileiro.
A convocação oficial sai em 18 de maio de 2026. Até lá, Neymar tem menos de duas semanas para apresentar ao estafe de Ancelotti laudos médicos e, se possível, minutos em campo que atestem sua condição física. A palavra final é do técnico — mas, como Casemiro deixou claro, o critério já está estabelecido.









