11 anos separam a última coletiva emergencial de Florentino Pérez — convocada em 2015 para explicar a escalação irregular de Denis Cheryshev na Copa do Rei — da que o presidente do Real Madrid concedeu nesta terça-feira, 12 de maio, diretamente em Valdebebas. O intervalo mede, com precisão, o tamanho da crise que o clube espanhol agora enfrenta: de um lado, um presidente que anuncia eleições antecipadas e descarta rumores de doença grave; do outro, um ídolo histórico que, nas mesmas horas, foi ao X (antigo Twitter) barrar publicamente a volta de José Mourinho.

A coletiva que Florentino não queria dar

Florentino Pérez abriu a coletiva atacando a imprensa, não a crise esportiva. O presidente citou receita de 50 bilhões de euros como argumento de solidez institucional e negou problemas de saúde com uma frase que soou mais como desafio do que tranquilidade.

"Ainda sou o presidente do clube que possui receita de 50 bilhões de euros. Minha saúde está excelente e se me dissessem que eu tenho um câncer, eu iria me tratar em um centro especializado para isso. Isso é falso. Eu deixarei o Real Madrid quando alguém me vencer nas eleições", declarou Florentino.

O presidente também mirou na LaLiga e no Barcelona — referindo-se ao caso Negreira como "o maior escândalo da história do futebol" — e classificou jornalistas como "terríveis". Recusou-se, no entanto, a falar sobre futebol: nada sobre a briga entre Valverde e Tchouaméni, nada sobre o ciclo sem títulos. A omissão, por si só, diz mais do que qualquer resposta.

O fantasma de 2010 a 2013 ressurge com Casillas

Enquanto Florentino falava em Valdebebas, Iker Casillas publicava uma nota no X que reacendeu memórias dolorosas. Entre 2010 e 2013 — exatamente o triênio de Mourinho no comando merengue —, o goleiro perdeu a titularidade para Diego López, foi alvo de críticas públicas do técnico e viveu o período mais turbulento de sua carreira no clube onde foi formado.

"Não tenho nenhum problema com Mourinho. Ele me parece ser um grande profissional. Eu não o quero no Real Madrid. Acho que outros treinadores estariam mais qualificados para treinar o clube da minha vida. Opinião pessoal. Nada mais", escreveu Casillas.

A comparação histórica é inevitável: em 2012/13 — última temporada de Mourinho no cargo —, o Real Madrid encerrou o ano sem LaLiga e sem Champions League, com o vestiário fragmentado. A temporada 2025/2026 replica o cenário: Álvaro Arbeloa, cujo contrato encerra em junho de 2026, deve deixar o clube, e o nome de Mourinho circula como substituto. Casillas, que nunca escondeu as cicatrizes daquele período, escolheu o dia da coletiva de Florentino para tornar pública sua oposição — o timing não parece acidental.

Como a voz de Casillas pesa nas eleições antecipadas

Florentino confirmou que será candidato nas eleições que ele próprio antecipou — um movimento lido como tentativa de esvaziar a oposição antes que ela se organize. O problema é que a declaração de Casillas — ídolo com 725 partidas pelo clube e duas Champions League conquistadas — dá munição simbólica a qualquer adversário que queira usar a eventual contratação de Mourinho como bandeira eleitoral contrária ao presidente.

A dinâmica lembra o que aconteceu em 2006, quando Florentino renunciou pela primeira vez após o fracasso da política dos Galácticos: críticas externas de ex-jogadores amplificaram o desgaste interno até torná-lo insustentável. Hoje, com as redes sociais acelerando o ciclo de pressão, uma postagem de Casillas alcança repercussão que, em 2006, levaria semanas para chegar ao mesmo nível.

O que muda até a data das eleições

Florentino não anunciou a data exata do pleito, mas a antecipação em três anos sugere que o calendário será definido nas próximas semanas. A decisão sobre o treinador — Mourinho ou outro nome — provavelmente precisará ser tomada antes do início da temporada 2026/2027, em julho, o que significa que o debate eleitoral e o debate esportivo caminharão juntos, com Casillas como voz dissonante e Florentino tentando controlar a narrativa que, nesta terça-feira, claramente escapou de suas mãos.