A pauta estava na mesa antes mesmo de Samir Xaud abrir a boca. Na sede da CBF, na Barra da Tijuca, na tarde de terça-feira (14 de julho), o presidente da entidade e o diretor Rodrigo Caetano apresentaram o planejamento da Seleção Brasileira até 2030 — com metas, cronograma e, implicitamente, os critérios que vão definir se Carlo Ancelotti segue no cargo ou não. O técnico italiano estava de férias no Canadá e não participou da reunião. A ausência, por si só, já diz algo sobre como a CBF enxerga esse momento: o plano é maior do que qualquer nome.

O que a CBF espera de Ancelotti nos próximos 24 meses

Ancelotti completa 13 meses no comando da Seleção Masculina. Nesse período, o Brasil disputou a Copa do Mundo de 2026 e encerrou o torneio na 11ª colocação geral — a pior campanha desde 1966, quando a equipe caiu na fase de grupos na Inglaterra. A eliminação nas oitavas de final reabriu um debate que a CBF preferia evitar, mas que agora precisa enfrentar com números na mão.

CBF TRAÇA OBJETIVOS DA SELEÇÃO ATÉ 2030 | News | Copa do Mundo 2026 | sportv

A resposta da entidade foi traçar um ciclo com objetivos mensuráveis. A Copa América de 2028 é a primeira grande meta de alto nível, seguida pela classificação nas Eliminatórias para o Mundial de 2030. Rodrigo Caetano detalhou o planejamento na reunião, apresentando o que foi construído desde a chegada do italiano e o que ainda precisa ser feito. Não há margem para interpretação: se o Brasil não conquistar a Copa América em 2028, a continuidade de Ancelotti vira uma questão aberta.

"Claro que esperávamos um resultado mais positivo, mas é importante mostrar tudo o que está acontecendo: o trabalho que vem sendo realizado na base, com integração entre as categorias, tanto no masculino como no feminino. Então o trabalho não para, é contínuo. Viramos uma página e agora voltamos o foco para o Mundial Feminino, além do ciclo para 2030", declarou Samir Xaud.

A fala de Xaud revela uma estratégia de gestão de expectativas que a CBF raramente praticou com transparência. Comparar com o passado recente é inevitável: em 2014, após a eliminação por 7 a 1 para a Alemanha, a entidade demorou meses para definir um projeto claro. Em 1998, depois da final perdida para a França, o ciclo seguinte foi construído sem metas públicas e resultou no título de 2002. Agora, pela primeira vez em décadas, a CBF coloca no papel o que espera do técnico — e quando espera.

A Seleção Feminina como contraponto estrutural

A reunião de terça-feira também serviu para Arthur Elias apresentar o cronograma da Seleção Feminina para a Copa do Mundo de 2027, que será realizada no Brasil. O planejamento prevê quatro datas FIFA entre outubro de 2026 e abril de 2027, com amistosos já agendados contra o Japão ainda neste ano. O contraste com o lado masculino é deliberado — e politicamente inteligente da CBF.

Enquanto a Seleção Masculina precisa reconstruir credibilidade depois de uma campanha histórica negativa, o futebol feminino chega ao seu maior evento com o país como sede. A Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil tem potencial de audiência comparável ao que a Copa Masculina de 1950 representou para o rádio: um ponto de virada na relação do público com o esporte. Os dados de 2023 já indicavam esse movimento — a Copa do Mundo Feminina na Austrália e Nova Zelândia registrou 2 bilhões de visualizações globais, crescimento de 40% em relação à edição de 2019. No Brasil, os jogos da Seleção bateram recordes de audiência em TV aberta.

A CBF, ao colocar Arthur Elias e Carlo Ancelotti na mesma mesa de prestação de contas, sinaliza que trata as duas seleções como projetos paralelos e igualmente prioritários — ao menos no discurso. A prática, em termos de investimento e estrutura, ainda mostra desequilíbrio, mas o gesto institucional de equiparar os dois cronogramas em uma reunião de gestão é um avanço concreto em relação ao que se via há dez anos, quando o futebol feminino sequer tinha diretor técnico dedicado.

Calendário, fair play financeiro e o que vem antes da Copa América

A reunião na Barra da Tijuca não se limitou às seleções. A CBF usou o encontro para debater a reforma do calendário anual, a criação de grupos de trabalho para o Fair Play Financeiro e melhorias na arbitragem e nas categorias de base. São temas estruturais que afetam diretamente o nível dos jogadores que chegarão à Seleção nos próximos anos.

A integração entre categorias de base e seleção principal é um ponto que a CBF tem reforçado desde a chegada de Ancelotti. O técnico italiano, que no Milan construiu sua reputação justamente por valorizar jovens — Kaká tinha 21 anos quando Ancelotti o lançou como titular na temporada 2002/03 — chega ao Brasil com um histórico que a entidade usa como argumento para justificar a continuidade do projeto mesmo após o resultado ruim na Copa de 2026.

América
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"O trabalho não para, é contínuo", reforçou Xaud, deixando claro que a eliminação nas oitavas não muda a aposta no técnico — pelo menos por enquanto.

O próximo teste real de Ancelotti no comando virá nas Eliminatórias para o Mundial de 2030, cujos jogos seguem no calendário de 2026 e 2027. A Seleção precisa apresentar um futebol diferente do que mostrou na Copa — onde terminou na 11ª colocação, atrás de seleções como Marrocos e Coreia do Sul. A Copa América de 2028 está a 24 meses. É tempo suficiente para construir algo novo. E tempo curto demais para errar outra vez.