Se a Copa do Mundo fosse um negócio, a CBF encerrou a edição de 2026 no azul. A Seleção Brasileira caiu nas oitavas de final diante da Noruega — encerrando a campanha com a pior colocação em 60 anos de torneio —, mas a Confederação Brasileira de Futebol garantiu aproximadamente R$ 131,8 milhões em premiações da Fifa. Esse número não é consolo. É um dado que exige análise.
A conta é direta: US$ 10,5 milhões só pela participação no torneio — valor que todas as 48 seleções receberam, sendo US$ 1,5 milhão reservado para custos de preparação — mais US$ 15 milhões pela chegada às oitavas, faixa destinada às equipes que terminam entre o 9º e o 16º lugar. Convertendo pela cotação atual, chegamos a R$ 131,8 milhões. Para uma eliminação precoce, é dinheiro que não pode passar em branco.
O que a Copa de 2022 ensina sobre a de 2026
A comparação com o Catar é inevitável e reveladora. Em 2022, a Fifa distribuiu pouco mais de R$ 2 bilhões entre as seleções participantes — um montante que já representava 10% de acréscimo em relação à Copa da Rússia de 2018. Agora, em 2026, o bolo total chegou a US$ 727 milhões, o equivalente a R$ 3,7 bilhões: crescimento de 50% em apenas quatro anos. O futebol masculino de seleções nunca movimentou tanto dinheiro em tão pouco tempo.
A Argentina levantou a taça no Catar e embolsou US$ 42 milhões. A França, campeã em 2018 na Rússia, havia recebido US$ 38 milhões. O campeão desta edição nos Estados Unidos, Canadá e México vai faturar US$ 50 milhões — quase R$ 260 milhões na cotação atual. A escala de crescimento das premiações é exponencial, e o Brasil, ao sair nas oitavas, ficou bem longe do topo dessa pirâmide.
Quanto custou cada fase que o Brasil não jogou
A eliminação para a Noruega não foi só esportiva — foi financeira. Uma classificação para as quartas de final renderia à CBF US$ 19 milhões, ou seja, US$ 4 milhões a mais do que o valor recebido pelas oitavas. Para as semifinais, a premiação sobe para US$ 27 milhões (4º lugar) ou US$ 29 milhões (3º). O vice-campeonato vale US$ 33 milhões. Cada fase que o Brasil deixou de jogar tem um preço concreto, e a diferença entre oitavas e título é de US$ 35 milhões — R$ 181 milhões que ficaram no campo das hipóteses.
Nas palavras que circularam nos bastidores após a queda, jogadores como Neymar e Vini Jr. apareceram visivelmente abalados diante das câmeras. A derrota para os noruegueses foi processada pela torcida como tragédia; pela CBF, como balanço fiscal. São perspectivas que raramente se encontram.
R$ 131,8 milhões e a pergunta que a CBF precisa responder
Aqui é onde a análise precisa ir além dos números brutos. O futebol feminino brasileiro — que nos últimos anos construiu audiências recordes, com a Seleção Feminina atraindo mais de 40 mil torcedores em jogos no Brasil — recebe uma fração ínfima desse fluxo financeiro gerado pelo futebol masculino. A Copa do Mundo Feminina de 2023 na Austrália e Nova Zelândia distribuiu US$ 110 milhões entre as seleções participantes, mas a estrutura de repasse das confederações nacionais ainda é opaca e desigual. A CBF não tem nenhuma obrigação legal de detalhar publicamente como aplica esses recursos da Fifa, e esse silêncio é, por si só, um problema de governança.
Quando a Fifa aumenta em 50% o prêmio total de uma Copa, a pergunta legítima não é só quem recebeu quanto — é o que cada confederação fez com o dinheiro. Investimento em base, infraestrutura, categorias de base femininas, arbitragem profissional. Esses são os destinos que transformam premiação em legado. Sem transparência nessa cadeia, R$ 131,8 milhões é apenas um número bonito num comunicado.
O próximo passo não é esperar — é cobrar
A CBF vai receber esses R$ 131,8 milhões independentemente do que a torcida pense sobre a eliminação. Isso é fato consumado. O que não está consumado é o uso desse recurso. A Confederação terá pela frente a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil — um evento que pode representar uma virada histórica para o futebol feminino nacional, mas que exige investimento imediato em infraestrutura, salários e estrutura de base.
O torcedor que acompanhou a queda para a Noruega com indignação tem agora uma tarefa mais produtiva do que lamentar: pressionar por prestação de contas. A próxima reunião do Conselho Nacional do Esporte, prevista para o segundo semestre de 2026, é o fórum adequado para que dirigentes respondam publicamente como os recursos da Copa serão alocados — especialmente em direção ao futebol feminino, que tem audiência, tem resultado e ainda não tem o orçamento que merece.













