4 faixas horárias em análise, 1 reunião e uma constatação que os clubes brasileiros preferiam não admitir em voz alta: o Brasileirão tem um problema crônico de público, e parte da explicação está na grade de horários. Nesta segunda-feira (26 de maio), a CBF sentou com representantes das Séries A e B para discutir uma reformulação que, se aprovada, vai alterar a lógica de programação do campeonato mais longo do futebol sul-americano.
O que a CBF colocou na mesa — e por quê agora
A pressão para revisar os horários não é nova, mas ganhou contorno formal nesta semana. Segundo apuração do SportNavo, a reunião desta segunda aprofundou temas já levantados num primeiro encontro realizado no início de abril, quando dirigentes sinalizaram insatisfação com a sobreposição de jogos entre as duas divisões.
As propostas centrais discutidas foram:
- Fim dos jogos marcados para o fim da noite de domingo — faixa que historicamente registra as menores médias de público presencial da competição;
- Eliminação dos confrontos às 19h em dias de semana, horário que concorre diretamente com o trânsito nas capitais e com a saída do trabalho;
- Ampliação do uso da faixa das 11h aos domingos, que concentra os maiores índices de presença familiar nas arquibancadas;
- Redução dos conflitos de horário entre Série A e Série B, que dividem audiência televisiva e atenção do torcedor num mesmo período.
O custo invisível do horário errado no futebol brasileiro
Quem trabalha com precificação de ativos esportivos conhece bem o conceito de attendance rate impact — a correlação entre horário de jogo e receita de bilheteria. No futebol inglês, estudos do KPMG Sports apontam que jogos entre 12h e 16h aos sábados geram, em média, 18% mais receita de matchday do que partidas após as 20h em dias de semana. O Brasil ainda não tem estatística equivalente publicada de forma consolidada, mas a lógica operacional é análoga.
Jogos às 21h30 ou 22h de domingo penalizam especialmente o torcedor que mora na região metropolitana e tem compromisso profissional na segunda-feira. O horário das 19h em dia útil exige que o frequentador saia do escritório diretamente para o estádio — o que reduz drasticamente o universo de potenciais presentes a famílias e autônomos.
"A proposta é reorganizar a grade do campeonato privilegiando os períodos com maior incidência de público nos estádios", conforme comunicado da CBF após a reunião desta segunda-feira.
Série A e Série B numa queda de braço invisível pela audiência
O conflito de horários entre as duas divisões é um problema estrutural. Quando um jogo da Série B ocorre simultaneamente a uma partida de Série A de alto apelo — digamos, Flamengo contra Palmeiras —, a segunda divisão inevitavelmente perde audiência nas plataformas de streaming e nos canais fechados. Isso afeta diretamente o valor percebido do produto, que por sua vez impacta o preço que as emissoras estão dispostas a pagar nos próximos ciclos de direitos televisivos.
Uma métrica útil para dimensionar esse impacto é o PPDA adaptado ao contexto de audiência (Passes Permitidos por Ação Defensiva, originalmente do futebol tático, aqui usado como analogia para "custo de atenção do espectador disputado"): quanto maior a sobreposição de jogos relevantes, menor a fatia que cada partida retém. Simplificando — dois jogos disputando o mesmo telespectador ao mesmo tempo valem menos, individualmente, do que se fossem exibidos em sequência.

"A busca pela redução dos conflitos de horários entre as Séries A e B" foi explicitamente citada como um dos eixos da proposta, segundo informações divulgadas após o encontro.
Implementação em 2030 e a janela de tempo que os clubes têm para agir
A reformulação dos horários está inserida num contexto maior de reestruturação do futebol brasileiro. A projeção discutida na reunião aponta que um novo modelo de liga — sob liderança da própria CBF — deve ser implementado apenas em 2030. Isso significa que qualquer mudança de grade aprovada agora operaria dentro do formato atual por pelo menos quatro temporadas.
Para os clubes que dependem de receita de matchday para equilibrar o caixa — especialmente os da Série B, com margens mais estreitas —, o ajuste de horários pode representar um incremento real de bilheteria sem exigir nenhum investimento adicional em infraestrutura. Um clube de Série B com média de 8.000 pagantes por jogo, ao migrar um confronto de domingo à noite para o horário das 11h, pode ver esse número crescer 15% a 20% com base nos padrões observados em outras competições da América do Sul que já fizeram esse movimento.
A CBF não definiu prazo para formalizar as mudanças. O próximo passo é consolidar o feedback dos clubes e apresentar uma proposta de grade revisada antes do início da segunda metade da temporada de 2026 do Campeonato Brasileiro, com potencial de entrada em vigor já na temporada 2027.








