59 anos de vida, uma Copa do Nordeste 2026 em aberto e um clube sergipano que poucos fora do Nordeste sabem pronunciar direito. É nessa equação aparentemente discreta que Marcelo Oliveira Chamusca trabalha hoje — e quem conhece o futebol de perto sabe que o tamanho do palco raramente corresponde à sofisticação do método.
O esquema que ele sempre busca rodar
Chamusca pertence a uma geração de treinadores brasileiros que atravessou os anos 1990 sem a terminologia europeia, mas com a intuição de que organização defensiva era o pré-requisito para qualquer proposta ofensiva. Se você comparar o futebol que ele pratica com o que clubes nordestinos apresentavam nos anos 80 — quando times como o Fortaleza e o Sport jogavam num 4-4-2 quadrado, sem linhas de pressão definidas e com liberdade individual quase total —, a distância conceitual é considerável. O futebol brasileiro daquela época era horizontal e reativo; o que Chamusca propõe hoje é vertical e proativo, ao menos em intenção.
O esquema preferido orbita em torno de um bloco médio com saídas rápidas em transição. Não é o gegenpressing de Klopp no Liverpool da temporada 2019/2020, nem o tiki-taka posicional que o Barcelona de Guardiola levou a um refinamento filosófico entre 2008 e 2012. Mas há uma clareza de princípios que distingue Chamusca do improviso tático que ainda domina boa parte do futebol regional: o time deve pressionar em bloco, recuperar rápido e sair em velocidade antes que o adversário reorganize suas linhas.
Como ele monta o time dentro desse esquema
No Itabaiana, as restrições orçamentárias impõem criatividade. Chamusca trabalha com elenco enxuto e de rotatividade alta — característica estrutural do futebol nordestino de acesso, onde o squad depth de um clube inglês seria um luxo impensável. Dentro dessas limitações, ele privilegia jogadores com boa leitura de jogo sobre aqueles com atributos físicos excepcionais.
A construção do time passa por um pivô no meio-campo capaz de distribuir em curto e longo, dois laterais com vocação ofensiva que garantam largura sem comprometer a linha defensiva, e um centroavante de referência que segure a bola no terço final. É uma estrutura funcional, não espetacular — e Chamusca parece deliberadamente avesso ao espetáculo vazio. A decisão de manter linhas compactas mesmo quando o placar é favorável revela um treinador que prioriza o controle sobre o risco.
Onde o esquema funciona melhor e onde quebra
O modelo de Chamusca é mais eficiente contra equipes que jogam aberto e apostam em dribles individuais — o tipo de futebol que ainda aparece com frequência nos torneios regionais nordestinos. O pressing alto que ele tenta aplicar em certas fases do jogo tira o adversário de suas referências e força erros na saída de bola.
O ponto de vulnerabilidade está na Copa do Nordeste, onde os clubes tradicionais — Fortaleza, Ceará, Bahia — têm elencos profundos e treinadores que leram os mesmos manuais táticos europeus. Contra times que dominam o pressing e têm qualidade técnica para jogar nos espaços, o bloco médio pode se tornar bloco baixo involuntariamente, e a transição ofensiva perde velocidade. É o dilema de qualquer clube de menor porte num torneio regional competitivo: o esquema que vence os iguais pode ser insuficiente contra os melhores.
Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar
Sem dados de elenco disponíveis para nomear individualmente, o que se pode afirmar sobre Chamusca — a partir de seu perfil como treinador — é o tipo de jogador que ele tende a valorizar no dia a dia. Meio-campistas com inteligência posicional acima da média física, atacantes que aceitam tarefas defensivas sem reclamar, e zagueiros que saibam jogar com os pés. Essa última exigência, que parecia sofisticada demais para o futebol nordestino dos anos 90, hoje é quase pré-requisito básico em qualquer metodologia moderna.
Num perfil publicado em matéria do SportNavo sobre treinadores brasileiros em atividade regional, o que fica evidente em casos como o de Chamusca é a transição de uma geração que aprendeu a treinar observando e que chegou à maturidade com ferramentas analíticas que seus antecessores nunca tiveram. O guia da Placar para a Copa do Mundo 2026 — que reuniu 1.248 atletas de 48 seleções em 124 páginas — ilustra bem o quanto o futebol global se profissionalizou nos detalhes; Chamusca, à sua escala, representa esse mesmo movimento dentro do futebol brasileiro de base regional.
A Copa do Nordeste 2026 ainda não terminou. O Itabaiana segue na competição, e os próximos jogos vão revelar se o esquema de Chamusca aguenta o escrutínio dos times grandes da região ou se as limitações de elenco falam mais alto do que o método. Para quem gosta de futebol tático com profundidade, vale gravar o próximo jogo do Itabaiana e observar especificamente as transições defensivo-ofensivas — é onde a identidade de Chamusca aparece com mais nitidez.













