Diz-se que as seleções sul-americanas chegam às Copas do Mundo com uma resiliência histórica que dispensa discurso de vestiário. Na verdade, não dispensa — e o caso do Paraguai nesta Copa do Mundo de 2026 prova exatamente por quê. Quando um ídolo da magnitude de José Luis Chilavert, 74 jogos defendendo a Albirroja entre 1989 e 2003, levanta a voz da sacada da sua casa moral e grita que alguém precisa dar "uns sopapos nos jogadores para acordá-los", o efeito não é apenas simbólico. É um cobertor de chumbo sobre um vestiário que já estava sufocado.

A derrota por 4 a 1 para os Estados Unidos, na estreia do Grupo D, foi o gatilho. Mas o incêndio vinha de antes, aceso pela expectativa de uma seleção que retornava à Copa após 16 anos de ausência e que, diante do primeiro teste real, desmoronou em 90 minutos no Levi's Stadium, em Santa Clara. O Paraguai ocupa agora a última posição do grupo. E nesta sexta-feira à meia-noite (horário de Brasília), enfrenta uma Turquia igualmente encostada na parede.

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O peso das palavras de Chilavert sobre o Grupo D

Há uma diferença entre a crítica que machuca e a crítica que mobiliza. Chilavert, com a brutalidade característica de quem passou décadas na linha de fogo, não escolheu a segunda opção. Escolheu as duas ao mesmo tempo.

"Falta alguém dar uns sopapos nos jogadores para acordá-los. O técnico foi o culpado, porque com a experiência que tem, deveria ter lidado com a situação melhor", disparou o ex-capitão paraguaio.

A frase aterrisou como granada num campo de manobras. Chilavert não isentou Gustavo Alfaro — ao contrário, colocou o treinador no epicentro da responsabilidade. Mas também não poupou o elenco. Para um grupo de jogadores que já carregava a vergonha de cinco cartões amarelos numa única partida — incluindo nomes como Miguel Almirón e Diego Gómez —, ouvir aquilo de um homem que vestiu a camisa por quase 15 anos foi, no mínimo, desconcertante.

Alfaro ergue o escudo e reorganiza a Albirroja

A resposta de Gustavo Alfaro veio pela imprensa, na tarde de quinta-feira, com uma clareza que mistura generosidade e estratégia. O técnico argentino pediu que as críticas fossem direcionadas exclusivamente a ele, pedindo à imprensa que deixasse seus jogadores em paz. É um gesto clássico de liderança protetora — e também uma declaração tácita de que o ambiente no vestiário estava mais frágil do que o placar de 4 a 1 já havia revelado.

No campo, Alfaro deve promover ao menos uma mudança relevante: o meia Mauricio, do Palmeiras, autor do único gol paraguaio contra os americanos — e que representa o 11º gol de um atletão alviverde na história das Copas —, deve ganhar vaga entre os titulares. Foi Mauricio quem entrou no segundo tempo e mostrou que havia vida naquele time. O jovem Enciso, do Racing Strasbourg, que deu a assistência para o gol e foi considerado uma das únicas exceções positivas da estreia, deve permanecer em campo.

"Não foi o resultado que queríamos, mas isso é só o começo do campeonato. É hora de aprender, continuar trabalhando mais do que nunca e se preparar para o que está por vir", disse Enciso, numa fala que soa tanto como consolo quanto como promessa.

Alfaro ainda lida com dois problemas sérios no ataque: Ramón Sosa, que se machucou jogando pelo Palmeiras e agravou uma torção no tornozelo esquerdo ao entrar no segundo tempo contra os EUA, deve ficar como opção no banco. Gustavo Caballero sequer entrou em campo na primeira rodada. E os cinco amarelos distribuídos contra os americanos funcionam como uma faca no pescoço: qualquer advertência desta noite contra a Turquia tira o jogador do terceiro jogo, contra a Austrália, no dia 25.

Decidiu.

Alfaro decidiu que a única saída é vencer. Não há cálculo de pontos, não há cenário alternativo aceitável. O Paraguai precisa dos três pontos para manter qualquer esperança de classificação — e isso muda tudo na forma como o time vai entrar em campo.

A Turquia vem ferida, mas não inofensiva

Se o Paraguai chega pressionado pelas próprias entranhas, a Turquia chega pressionada pelos números. Vincenzo Montella viu sua equipe ter 70% de posse de bola contra a Austrália e disparar 30 finalizações — sem marcar um gol sequer. A derrota foi, talvez, a mais frustrante do Grupo D na primeira rodada.

O problema turco tem nome e sobrenome: Arda Güler e Kenan Yildiz, os dois talentosos que deveriam ser os finalizadores da equipe, desperdiçaram oportunidade após oportunidade. Montella sabe que, diante de uma defesa paraguaia que tende a ser compacta mesmo nas dificuldades — o Gustavo Gómez, zagueiro e capitão formado no Palmeiras, deve ser titular —, a solução não pode ser a mesma da estreia. A Turquia precisará abdicar da troca de passes na entrada da área e apostar em infiltrações pelas pontas, onde Güler e Yildiz têm mais espaço para respirar.

A pergunta que fica é se a Turquia tem repertório para mudar o padrão numa situação de pressão máxima — ou se vai repetir o festival de finalizações sem eficácia que a eliminou moralmente contra os australianos.

Uma Copa que não perdoa a segunda chance desperdiçada

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa do Mundo de 2026, o Grupo D está sendo palco de uma curiosa simetria de dramas: duas seleções com histórico e talento, ambas com zero ponto, ambas com a certeza de que perder esta rodada é o fim. O Paraguai retorna ao Mundial 16 anos depois com a missão de provar que a ausência foi uma pausa, não um epitáfio.

Chilavert disse que alguém precisava dar uns sopapos nos jogadores para acordá-los. Alfaro respondeu que o único a receber críticas deveria ser ele.

"Não tenho dúvidas de que faremos tudo o que for possível e que lutaremos para nos classificar", garantiu o treinador.

Às 0h desta sexta-feira, no Levi's Stadium, em Santa Clara, o campo vai arbitrar essa disputa de narrativas. O Paraguai que vencer avança para o jogo decisivo contra a Austrália, no dia 25. O Paraguai que perder encerra, ali mesmo, o seu retorno mais esperado. Diz-se que as seleções sul-americanas chegam às Copas com uma resiliência histórica que dispensa acordar. Esta noite, o Paraguai precisa provar que acordou.