Terça-feira, 13 de maio de 2026. No Foro Italico, Coco Gauff estava 5-1 no terceiro set, dois breaks de vantagem sobre Mirra Andreeva, e o placar indicava que a partida havia acabado. Só que não havia. Esse é o detalhe que separa a análise de quem assiste do lado de fora daquela que já sentiu o que acontece com o corpo quando a vitória parece garantida demais: o músculo relaxa antes da cabeça autorizar, a respiração fica mais rasa, e de repente você está perdendo um ponto que não deveria perder. Eu conheço esse estado. Chamamos de over-relaxation no muay thai — o momento em que você baixa a guarda porque acha que o adversário já foi. Gauff passou por isso em tempo real, na frente de milhares de pessoas, e precisou de cinco match points para fechar 4-6, 6-2 e 6-4.
O que Andreeva construiu antes de Roma desabar
A temporada de saibro de Mirra Andreeva, de 19 anos, havia sido consistente o suficiente para colocá-la como candidata séria em Roland Garros. Ela ganhou o título no indoor de saibro do Upper Austria Ladies Linz Open e chegou à final do Madrid Open — tanto em simples quanto em duplas. No ranking, figura como número 7 do mundo. Os números eram bons. O problema estava em outro lugar.
Em Madri, numa partida de terceira rodada contra a húngara Anna Bondár, Andreeva desperdiçou uma vantagem de 5-1 no terceiro set. O que chamou atenção não foi o resultado — viradas acontecem. Foi o que ela disse em voz alta, virando para a sua equipe nas arquibancadas:
"I'm not a champion, I'm not a champion. I will lose. I will lose. I choke."Essa frase me travou quando li. Não porque seja fraqueza — é exatamente o oposto. É o tipo de honestidade brutal que atletas de alto nível raramente verbalizam em público. Andreeva sabe o que acontece dentro dela. O desafio é que saber não resolve. Você precisa de uma resposta motora para a crise emocional, e ela ainda está construindo isso.
Em Roma, o padrão se repetiu. No primeiro set, Andreeva foi superior — 10 winners para apenas 7 erros não forçados, enquanto Gauff fazia o caminho inverso. A russa usava drop shots precisos para atrair a americana à rede e então passava por ela ou forçava o erro. Ganhou o set por 6-4 com autoridade.
Quando Gauff parou de jogar contra si mesma
Quando faz a virada, Gauff raramente muda o que faz — muda como respira. Esse é o padrão que observo nela desde que começou a ganhar partidas difíceis de forma consistente. No segundo set, ela passou a usar mais o forehand e o retorno em profundidade, impedindo que Andreeva se instalasse nas bolas curtas. O resultado foi uma dominância que não deixa dúvida no placar: 6-2, com Andreeva cometendo os erros que havia evitado no primeiro set.

Quando está pressionada, Andreeva tende a acelerar os golpes antes de ter posição — um erro de timing que qualquer técnico identificaria, mas que é quase impossível de corrigir sozinha no calor do ponto. Gauff percebeu isso e passou a construir os pontos com mais paciência, forçando a russa a decidir cedo demais.
No terceiro set, a americana abriu 5-1 e pareceu desacelerar. Andreeva, ao contrário do que aconteceu em Madri contra Bondár, desta vez encontrou tênis — não apenas emoção — para reagir. Encostou no placar e transformou o fechamento em algo que Gauff descreveu com precisão cirúrgica na coletiva:
"I was just trying to appreciate just being here, even if those match points weren't going my way. I think it showed in my reaction every time I lost them."Cinco match points. A americana precisou de cinco para fechar. Mas fechou.
O que muda no caminho para Roland Garros
Com a vitória, Gauff chegou à sua quarta semifinal do Aberto da Itália na carreira — e terceira consecutiva. É também a segunda vez seguida que ela elimina Andreeva nas quartas de Roma, exatamente o mesmo estágio de 2025. O retrospecto entre as duas agora é de 5-0 para a americana, um domínio que vai além do ranking e diz algo sobre compatibilidade de estilos: Gauff lê bem o jogo de Andreeva, neutraliza os drop shots e tem paciência para esperar o erro da russa nos momentos de pressão.
A vitória também faz de Gauff a segunda tenista da Era Aberta a conquistar três ou mais vitórias de virada para chegar às semifinais do Internazionali d'Italia, acompanhando Nathalie Tauziat, que fez o mesmo em 1989. A atual campeã do Aberto da França chega a Roland Garros — que começa em menos de três semanas — com ritmo, confiança e um histórico de 15 semifinais em torneios WTA 1000.
A ex-tenista britânica Annabel Croft resumiu bem o que o Foro Italico viu:
"How much did she earn that? My goodness, she was made to work so hard, put through the wringer a little bit to get that win tonight, but you have to admire her resilience, her character, how she withstood the barrage that was coming at her."Antes da viagem a Paris, Gauff ainda tem pela frente a semifinal contra a romena Sorana Cirstea — adversária que já a levou ao terceiro set no torneio anterior. Andreeva, por sua vez, vai a Roland Garros com o talento intacto e uma questão ainda aberta — a maior promessa do tênis feminino já sabe o que sente. Falta transformar isso em placar.








