35 milhões de euros. Esse é o número que o Flamengo colocou sobre a mesa para tentar trazer Luiz Henrique do Zenit — e, ironicamente, é o mesmo valor que o clube russo pagou ao Botafogo pelo atacante em 2025. O problema é que o Zenit não vende pelo que comprou. Quer 40 milhões de euros, e a diferença de 5 milhões entre oferta e pedida está congelando uma negociação que, nos bastidores do Ninho do Urubu, já era tratada como prioritária para a janela de meio de ano.
O que o histórico financeiro de Luiz Henrique revela sobre o impasse
Para entender por que esse gap de 5 milhões de euros é mais profundo do que parece, é preciso remontar à cadeia de transferências do jogador. Em janeiro de 2024, o Botafogo adquiriu Luiz Henrique do Real Betis por 16 milhões de euros fixos mais 4 milhões em bônus — operação parcelada em cinco tranches até janeiro de 2027. Quando o Zenit desembolsou 35 milhões de euros pelo atacante em 2025, o Glorioso economizou 2 milhões de euros que ainda devia ao Betis, já que uma das metas variáveis exigia a transferência definitiva dos direitos federativos do jogador para outro clube europeu. A conta final da passagem pelo Botafogo ficou em 18 milhões de euros — e o clube russo multiplicou esse valor por quase duas vezes em menos de um ano.
O Zenit se apoia exatamente nessa lógica para sustentar os 40 milhões de euros. O clube russo argumenta que investiu 35 milhões, valorizou o jogador com convocações à Seleção Brasileira sob Carlo Ancelotti e, portanto, não tem por que aceitar o mesmo valor que pagou. O Transfermarkt avalia Luiz Henrique em 24 milhões de euros — 16 milhões abaixo da pedida russa —, mas esse tipo de referência pública raramente move negociações quando o vendedor sabe que há demanda real do outro lado.
O que para o clube russo é mais-valia, para o Flamengo é risco orçamentário
Aqui reside o ponto mais delicado da operação. O que para um clube da Premier League seria uma compra de médio porte — 40 milhões de euros por um ponta-direita de 25 anos, convocado para a Seleção —, para o futebol brasileiro configura um investimento de primeira prateleira que concentra risco em uma única posição. O Flamengo precisaria desembolsar, além dos 40 milhões pela aquisição, luvas de apresentação e um salário estimado em 4 milhões de euros por temporada, o equivalente a cerca de R$ 2,1 milhões mensais. Somando apenas compra e dois anos de contrato, o pacote ultrapassa R$ 280 milhões.
José Boto, diretor de futebol rubro-negro, tem tentado construir uma ponte entre as partes mobilizando os empresários do jogador e contando com a vontade declarada do próprio Luiz Henrique de retornar ao Brasil. A estratégia é legítima — e funcionou em outras negociações europeias —, mas tem um limite claro: nenhum clube russo libera um ativo por valor abaixo do custo de aquisição apenas pela pressão do atleta. O Zenit sabe disso e usa esse trunfo para manter os 40 milhões como piso.
A folha rubro-negra e o dilema de concentrar capital em uma peça ofensiva
O Flamengo de Leonardo Jardim ocupa a vice-liderança do Brasileirão 2026 e lidera o Grupo A da Libertadores com um elenco que já carrega folha salarial elevada. Trazer Luiz Henrique nos moldes exigidos pelo Zenit significaria não apenas um desembolso de transferência recorde para o clube, mas também um compromisso salarial que pesaria de forma permanente na estrutura de custos. A diretoria avalia internamente se faz sentido concentrar esse volume de capital em um extremo — por mais qualificado que seja o perfil técnico do jogador, capaz de atuar pela direita com pegada, drible e capacidade de finalizar por dentro.
Precedentes no próprio mercado brasileiro sugerem cautela. Quando o Flamengo trouxe Gabigol do Inter de Milão em 2019, o custo total da operação era muito menor em termos relativos ao orçamento do clube naquele momento. Desde então, a capacidade financeira rubro-negra cresceu, mas cresceu também a exigência por equilíbrio entre investimento e retorno — especialmente após a profissionalização da gestão com Boto no comando esportivo.
O prazo que o Flamengo não pode ignorar
A janela de transferências para o futebol brasileiro abre oficialmente em julho, e Boto trabalha para deixar as negociações encaminhadas antes disso — exatamente para evitar a guerra de preços que costuma inflar os valores nas semanas que antecedem o fechamento da janela. Se o Zenit não baixar para os 35 milhões de euros ou o Flamengo não elevar sua oferta para um meio-termo entre 37 e 38 milhões, a tendência é que a operação não avance nos moldes atuais. O clube carioca tem outras alternativas no radar para o setor ofensivo, mas nenhuma delas combina o perfil técnico de Luiz Henrique com o apelo de mercado de um jogador já consolidado na Seleção Brasileira. A janela fecha em 2 de setembro — e o relógio corre para os dois lados.








