A última vez que o Brasil chegou a uma Copa do Mundo com tantos pontos de interrogação na lista foi em 2014 — e aquela história terminou com um 7 a 1 em Belo Horizonte que ainda dói. Hoje, 18 de maio de 2026, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti leu os 26 nomes que vão representar o Brasil no torneio disputado em três países. O calor do início de inverno carioca estava lá fora; a tensão, dentro do salão. Porque todo mundo que entende de futebol sabe que uma lista de convocados não é certidão de nascimento — é um contrato com prazo de validade.

A Copa do Mundo começa em 13 de junho, com o Brasil enfrentando Marrocos em Nova York. Antes disso, dois amistosos — contra França e Croácia — funcionarão como termômetro final. E para cinco jogadores desta lista, cada minuto em campo vale mais do que qualquer estatística acumulada nos clubes. Uma atuação apagada, um corpo que não responde, uma lesão no momento errado — e o sonho desmorona antes mesmo de o avião decolar para os Estados Unidos.

Neymar e o peso de um retorno que ainda não convenceu Ancelotti

Neymar, camisa 10 do Santos, é o nome mais simbólico desta lista — e o mais frágil. O atacante voltou ao clube da Baixada Santista em janeiro de 2025 com a missão declarada de se recuperar para o Mundial, mas as lesões nunca pararam de aparecer. Na rodada que antecedeu a convocação, o Santos levou 6 a 0 do Vasco da Gama, resultado que deixou o craque visivelmente abalado. Ancelotti, pressionado pela torcida e pela imprensa, convocou o jogador — mas deixou recado claro nas coletivas que antecederam o anúncio.

"Eu escuto tudo, vejo tudo. Mas o papel que tenho aqui é de tomar decisão. É normal, no futebol cada um poder opinar. O futebol não é uma ciência clara. Alguns acham que jogam mal, outros que jogam bem. Se este jogador é bom ou não. Cada um tem sua opinião e eu tenho que respeitar a opinião de todos", afirmou o técnico italiano.

A tradução prática desta fala é direta: Neymar está convocado, mas não está garantido. Ancelotti já afirmou em outras ocasiões que o camisa 10 não precisa ser testado em amistosos pela sua qualidade histórica — o problema é que qualidade histórica não corre, não pressiona, não aguenta 90 minutos num Mundial. O atacante terá os jogos contra França e Croácia para provar que o corpo responde. Se o físico não convencer, Hugo Souza, do Corinthians, e outros atacantes da pré-lista podem ser acionados como alternativas táticas.

Neymar e o peso de um retorno que ainda não convenceu Ancelotti Cinco nomes na c
Neymar e o peso de um retorno que ainda não convenceu Ancelotti Cinco nomes na c

A zaga e o goleiro que vivem no fio da navalha

Bento, goleiro do Al-Nassr, era presença quase certa no grupo desde o início do ciclo — até que, na última terça-feira, dia 12, ele falhou de forma evidente numa partida decisiva contra o Al-Hilal. Weverton, do Grêmio, entrou na lista justamente aproveitando esse tropeço. Com Alisson (Liverpool) como titular absoluto e Ederson (Fenerbahçe) como reserva imediato, a briga pela terceira vaga entre os goleiros é real: se Weverton não mostrar segurança nos amistosos, o corte pode acontecer antes mesmo da estreia no Grupo C.

Na zaga, Léo Pereira, do Flamengo, ocupou a vaga deixada por Éder Militão, que se machucou no Real Madrid. A convocação do zagueiro rubro-negro foi uma das surpresas do anúncio no Museu do Amanhã. Ibañez, do Al-Ahli, e Alexsandro, do Lille — ambos presentes na pré-lista de 55 jogadores enviada à Fifa — ficaram de fora, o que mostra que Ancelotti tomou uma decisão de risco. Qualquer oscilação de Léo Pereira nos treinos ou nos amistosos pode abrir espaço para uma revisão de última hora.

O meio-campo que envelhece e os jovens que batem na porta

Casemiro, do Manchester United, e Fabinho, do Al-Ittihad, compõem um meio-campo de experiência consolidada — mas ambos chegam ao Mundial com questões físicas e de ritmo de jogo que o SportNavo identificou como pontos de atenção ao longo dos últimos meses da temporada europeia 2025/2026. Casemiro teve uma temporada irregular no United; Fabinho, aos 32 anos, joga na Arábia Saudita num futebol de intensidade menor. Danilo, do Botafogo, e Andrey Santos, do Chelsea, são alternativas mais jovens que Ancelotti tem disponíveis — e ambos chegam com ritmo de competição em alta.

A zaga e o goleiro que vivem no fio da navalha Cinco nomes na corda bamba e Ance
A zaga e o goleiro que vivem no fio da navalha Cinco nomes na corda bamba e Ance

Alex Sandro, do Flamengo, também entra nesse grupo de risco. O lateral-esquerdo tem 33 anos e disputou a posição com Douglas Santos, do Zenit, que acabou sendo convocado junto. Nos amistosos, qualquer sinal de queda física pode fazer Ancelotti optar por uma lista final com mais energia do que nome.

  • Neymar (Santos) — forma física e sequência de jogos ainda não convenceram
  • Weverton (Grêmio) — entrou na lista como surpresa; precisa provar nos amistosos
  • Léo Pereira (Flamengo) — convocado de última hora após lesão de Militão
  • Casemiro (Manchester United) — temporada irregular no clube coloca ritmo em dúvida
  • Alex Sandro (Flamengo) — aos 33 anos, disputa vaga com Douglas Santos na lateral esquerda

O que Ancelotti precisa ver nos amistosos

O técnico italiano tem até o início de junho para ajustar a lista. Os jogos contra França e Croácia serão a última vitrine antes de o Brasil embarcar para os Estados Unidos. Raphinha, do Barcelona, e Endrick, do Lyon, estão fora desta lista de risco — ambos chegam com temporadas sólidas e participação direta em gols pelos seus clubes. Para eles, os amistosos são ajuste fino. Para os cinco citados acima, são prova de sobrevivência.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 acontece no dia 13 de junho, sábado, contra Marrocos, em Nova York. Até lá, Ancelotti tem duas oportunidades de ver seus convocados em campo — e, se precisar, duas oportunidades de mudar de ideia. A última vez que o Brasil chegou a uma Copa do Mundo com tantos pontos de interrogação na lista foi em 2014, e dessa vez o técnico não pretende repetir o roteiro.