Segunda-feira, 11 de maio de 2026. No Fórum Otimista Brasil, organizado pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), em São Paulo, Ciro Gomes encerrou em poucas palavras quatro décadas de ambição presidencial: "Queria ser uma opção para essa polarização, mas pendi para o Ceará." A frase curta carregou o peso de uma decisão que o próprio político admitiu ter amadurecido até a primeira quinzena de maio — e que, na prática, encerra o ciclo mais longo de candidaturas presidenciais da história recente do país.
O diagnóstico que Ciro não conseguiu reverter
Quatro candidaturas à Presidência — 1998, 2002, 2018 e 2022 — construíram um currículo eleitoral sem paralelo entre os nomes de centro-esquerda brasileiros. Mas o número que ficou gravado foi o de 2022: 3% dos votos válidos, quarto lugar, atrás inclusive de Simone Tebet (MDB). Para comparação, em 2002, Ciro chegou ao segundo turno com 17,9% dos votos no primeiro turno, numa disputa em que Lula venceu José Serra. A distância entre aquele patamar e os 3% de 2022 é, em si, o diagnóstico mais cruel da trajetória da terceira via no Brasil.
O convite do presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, formalizado em 14 de abril, tentou reabrir essa janela. Ciro havia se filiado ao partido no início de 2026 e era apontado como pré-candidato ao governo do Ceará — mas o telefonema de Aécio recolocou a Presidência na mesa. O ex-governador disse ter recebido o convite "com surpresa e alegria", prometeu pensar, e em menos de um mês deu a resposta que o PSDB não queria ouvir.
Por que o Ceará pesou mais do que Brasília
A lógica do cálculo eleitoral de Ciro não é difícil de decodificar. Pesquisas da Quaest divulgadas duas semanas antes do anúncio colocavam o ex-governador como primeiro colocado na disputa pelo governo cearense — uma posição radicalmente diferente dos 3% que colheu na última corrida presidencial. Governar o Ceará entre 1991 e 1994 foi, historicamente, o trampolim que projetou seu nome nacionalmente; repetir o feito três décadas depois representa uma reconstrução de base que a quinta candidatura à Presidência jamais garantiria.
Ciro também sinalizou cansaço em relação à política nacional. Em declarações anteriores ao anúncio desta segunda-feira, afirmou que só consideraria a candidatura presidencial "diante da gravidade do cenário econômico e institucional do país". O próprio Aécio reconheceu a importância estratégica de uma eventual vitória de Ciro no Ceará e afirmou que o PSDB seguirá buscando alternativas para a corrida presidencial "dentro e fora do partido". A nota do tucano é, em linguagem política, uma admissão de que o plano A naufragou.
"Queria ser uma opção para essa polarização, mas pendi para o Ceará." — Ciro Gomes, no Fórum Otimista Brasil, 11 de maio de 2026.
O vácuo que a polarização criou — e não deixou preencher
A nota divulgada por Aécio Neves após o telefonema de Ciro foi direta ao diagnosticar o problema estrutural: a "polarização e o radicalismo vêm impedindo a apresentação de um projeto consistente". Essa frase resume o ambiente que destruiu a terceira via não só em 2022, mas que se mantém como obstáculo em 2026. O eleitorado brasileiro, pressionado entre dois polos de alta intensidade emocional, historicamente migra para os extremos no momento da decisão — e Ciro, mais do que qualquer outro político de centro, sentiu isso na pele com aqueles 3%.
O fenômeno não é novo. Em 1989, Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara e símbolo da redemocratização, obteve apenas 4,7% dos votos no primeiro turno, engolido pela polarização entre Lula e Fernando Collor. A história se repete com variações: sempre que o campo político se organiza em torno de dois grandes projetos emocionalmente carregados, o espaço para candidaturas de síntese encolhe a ponto de inviabilizar qualquer construção de segundo turno.
No campo institucional, Ciro ainda marcou posição antes de sair de cena: declarou-se contra a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, à vaga deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal — indicação que foi rejeitada em maio. A postura reforça o perfil de político que quer opinar no debate nacional mesmo sem ocupar o centro do palco eleitoral.
"O PSDB vai continuar debatendo com Ciro e outras lideranças alternativas em momento em que a polarização e o radicalismo vêm impedindo a apresentação de um projeto consistente." — Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, em nota oficial.
O que esperar do anúncio de 16 de maio
O anúncio oficial da candidatura de Ciro ao governo do Ceará está marcado para o próximo sábado, 16 de maio. A data não é aleatória: posiciona Ciro na disputa estadual com antecedência suficiente para consolidar a liderança que as pesquisas já indicam, enquanto o PSDB ainda busca um nome para a corrida presidencial. O partido tucano, que nas eleições de 2022 sequer lançou candidato próprio à Presidência, enfrenta agora o desafio de encontrar uma alternativa com viabilidade real num cenário onde os blocos Lula e Bolsonaro continuam dominando a intenção de voto.
Para Ciro, 64 anos, a aposta no Ceará é a mais racional de sua carreira: liderar nas pesquisas, ter histórico de gestão no estado e acumular capital político para influenciar o debate nacional a partir de um cargo executivo. A quinta candidatura à Presidência ficará, ao menos por enquanto, no arquivo. O anúncio de sábado começa com esse número: 3% — o pior resultado de uma carreira que já flertou com o segundo turno.










